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Política Internacional
A História de Amor Moderno que Eclodiu nos Protestos de Hong Kong

Crime passional e rivalidade no Partido Comunista Chinês compõem a trama da lei de extradição

21/06/2019 08h56

No dia 13 de março de 2018, em Taiwan, as autoridades policiais encontraram os restos mortais em decomposição de uma jovem numa mala cor de rosa, numa estação de metrô em Taipé. Do outro lado, em Hong Kong, autoridades questionavam um jovem sobre o desaparecimento de sua namorada e informam-lhe que as autoridades policiais encontraram o corpo dela. O jovem, então, confessa que assassinou a namorada.

Chan Tong-kai, 20 anos, e Poon Hiu-wing, 21 anos, conheceram-se em julho de 2017 enquanto trabalhavam por meio-período numa loja em Hong Kong e começaram a namorar. O ano virou e eles decidiram celebrar o dia dos namorados, comemorado no dia 14 de fevereiro, passando uma semana – quatro dias mais exatamente – em Taiwan, embarcando no dia 13 com retorno marcado para o dia 17 daquele mesmo mês. Tudo correu bem até que na noite do dia 16 de fevereiro, Poon apareceu no quarto de hotel com uma mala cor de rosa. Ela havia comprado num dos famosos mercados noturnos de Taipé. Como já estavam com muita bagagem e a compra da mala não estava planejada, o casal discutiu sobre como arrumariam as bagagens, mas fizeram as pazes e amor até às duas da manhã do dia 17 de fevereiro. Até que o mundo vira e tudo cai.

Poon, então, confessou a seu namorado, Chan, que o traiu e estava grávida de seu ex-namorado, conforme provou mais tarde a perícia feita no cadáver da jovem ao atestar uma gravidez de cinco semanas e eles estavam juntos há oito meses. Não satisfeita a jovem ainda mostrou a ele um vídeo no qual ela, Poon, está fazendo sexo com outro homem. Chan ficou transtornado e enfurecido com tudo aquilo e empurra a cabeça de Poon contra a parede; os dois entram em luta corporal no chão do quarto do hotel Purple Garden; ele a detém e a estrangula por dez minutos até que ela, finalmente, morre. Ele coloca o corpo dela na mala que ela havia comprado e vai dormir. Ela era a primeira namorada dele, mas ele não era o primeiro namorado dela.

Ele volta para Hong Kong e com a posse do cartão de débito dela e conhecendo sua senha, passa os dois dias seguintes fazendo saques e quitando as dívidas do seu próprio cartão de crédito.

– Mas e os protestos em Hong Kong?

Os protestos em Hong Kong tiveram como motivação a proposta de lei feita pela Chefe do Executivo Carrie Lam, cujo objetivo, na superfície, é permitir a extradição daqueles que cometeram crimes graves em Taiwan e na China, mas que se refugiam em Hong Kong. A motivação? O caso de assassinato de Poon Hiu-wing por seu namorado Chan Tong-kai, já que este não pode ser extraditado por não haver acordo de extradição entre Hong Kong e Taiwan – garantia exigida pela Grã-Bretanha no momento de devolução de autonomia para Hong Kong – e nem será se a lei, cuja votação foi suspensa, vier a ser aprovada, pois Taiwan se recusou a aceitar um acordo de extradição que acarrete risco de extradição para a China daqueles que entrem temporária ou permanentemente em Hong Kong.

– E quanto ao assassino?

Chan foi julgado e condenado à prisão, mas não por assassinato, e sim por “lavagem de dinheiro”, por haver usado o dinheiro de Poon para quitar dívidas pessoais e, também, porque o assassinato não foi o meio utilizado para obter o dinheiro. Agora, tome nota do que abaixo segue.

  1. Não há democracia com voto direto em Hong Kong. A eleição para Chefe do Executivo é feita através da votação de um colegiado composto por 1.200 pessoas, num território com mais de 8 milhões de pessoas, das quais a maioria não é eleita pelo povo, mas advém de grupos de interesses como a indústria hoteleira; indústria de transportes e uma outra grande parte advém de membros do governo comunista chinês.
  2. Carrie Lam foi eleita em 2017 com popularidade representativa de 1/4 contra a popularidade de 2/3 de seu oponente John Tsang. Por quê? Porque o governo comunista chinês quis – pode ir lá denunciar.
  3. O governo comunista chinês quis em sua plenitude? Não. Hong Kong é o território cujo domínio político pertence a uma facção do Partido Comunista Chinês controlada pelo ex-presidente, Jiang Zemin, arqui-inimigo de Xi Jinping e os políticos eleitos têm sido utilizados para causar instabilidade em Hong Kong de modo a dificultar a influência política de Xi Jinping. Não obstante ele já tenha alguma influência lá, uma vez que conseguiu retirar a candidatura à reeleição do antecessor de Carrie Lam, Cy Leung.
  4. Carriem Lam, portanto, não possui verdadeiramente autonomia e nem poder sobre Hong Kong. Ela diz que a lei de extradição não visa dissidentes do governo chinês e sim trazer justiça para casos como o de Poon e Chan. Entretanto, isso não convence, visto que (1) alguns dos manifestantes da “revolta dos guarda-chuvas” foram presos por mais de 1 ano por determinação de Pequim; (2) muitos dos aliados de Jiang Zemin, rivais, portanto, de Xi Jinping, estão residindo em Hong Kong e, com a lei de extradição, Xi Jinping que está promovendo o expurgo de diversos quadros do Partido Comunista Chinês sob a alegação de terem cometido corrupção (mais de 2 milhões de membros do PCC já foram investigados e mais de 1 milhão de membros já foram punidos), poderá promover, com a aprovação da lei de extradição, o expurgo de seus rivais em Hong Kong também.

Eis a razão de as ruas de Hong Kong terem sido tomadas por mais de 2 milhões de pessoas e os manifestantes não só pedem que a lei de extradição não seja sancionada (note que eles nada falam sobre a lei também incluir Taiwan no acordo de extradição, pois Taiwan não apresenta risco para as liberdades civis dos honcongueses) como também pedem a renúncia de  Carrie Lam ao cargo de Chefe do Executivo.

Próxima semana traremos mais informações sobre os protestos em Hong Kong. Enquanto isso, confira este excelente artigo que conta a história e a peculiaridade política de Hong Kong e assista ao vídeo feito por nosso membro e advogado do MBL Rubinho Nunes.

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Sobre a coluna: trata de assuntos relacionados com a China antiga e contemporânea e é atualizada, quinzenalmente, às quartas-feiras. A edição atual e a próxima são especiais e não fazem parte da coluna quinzenal.

Sobre o autor: natural de São Paulo, mas residente em Salvador, já escreveu para a revista digital, hoje acervo, Reflexões Masculinas sob o pseudônimo Max. Suas redes sociais são Twitter, Facebook e Instagram.

Natural de São Paulo, mas residente em Salvador, é ouvinte de Alborghetti desde 2005, leitor de Olavo de Carvalho desde 2007 e membro do MBL-BA e articulista para assuntos chineses do MBL Nacional desde 2019. Suas principais influências na escrita e no pensamento são Oscar Wilde, Camilo Torres, Arthur Schopenhauer, Roger Scruton, Santo Agostinho, Machado de Assis e outros.