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Imprensa
Jornalismo em risco: o caso The Intercept

Visão sobre as ações do veículo de comunicação

24/06/2019 15h32

Revisão: Kdu Sena

Nos últimos dias, a agenda política e governamental tem ganhado impulso nos ditos “vazamentos” do veículo de comunicação “The Intercept”. Trata-se, no plano de fundo, de supostas conversas envolvendo agentes públicos, incluindo o então juiz Sérgio Moro (principal alvo), por intermédio de hacker – ou hackers – (resguardando-se a fonte), no qual indicam (análise do site) suposta parcialidade dos agentes, principalmente Sérgio Moro, nos casos que envolvem processos correlatos a operação denominada Lava Jato, em primórdio os que tangem ao caso da condenação do ex presidente Luis Inácio Lula da Silva.

Em vários dos ditos “vazamentos”, a análise ficou adstrita sobre a imparcialidade do então juiz da décima terceira vara de Curitiba — Sérgio Moro. Alguns denotam que não deriva, de tais conversas, existir qualquer indicação de quebra da imparcialidade do juiz, em outros o contrário. O Ministro da Justiça e Segurança Pública (Sérgio Moro) chegou a comparecer ao Senado Federal para prestar esclarecimentos.

O contorno que o caso ganhou é enorme. Contudo, não obstante aos colegas jornalistas, e me atribuo a condição de neófito, está dentro de um exercício de futurologia insano. As perguntas, as tratativas e, sobretudo, os questionamentos não estão sendo apurados. No plano de fundo, e sem considerar a “fonte” do veículo de comunicação “The Intercept”, o que temos são diálogos não comprovados em formato de matérias que podem ser facilmente escritas e descritas por qualquer indivíduo publicizadas como se fossem realidade, sem a comprovação. Mesmo que comprovadas, derivam de atividade criminosa.

O jornalismo já saiu de momentos conturbados no Brasil. Já ganhou notória responsabilidade e ousadia. A função jornalística, de fato, incomoda, pois precisa trazer à tona a realidade e, a partir dos fatos, atribuir conceitos e entendimentos. O que vemos nos dias de hoje é uma busca pelos conceitos e entendimentos para se alcançar uma realidade dentro do jornalismo. Este é o caso do “The Intercept”.

Os casos, exemplificados pelo veículo como similares, demonstraram todas as provas que conquistaram e, a partir do laudo delas, adentraram no campo da compreensão e análise, ou opinião, do veículo que expõe os fatos. O caso em tela retrata um suposto fato fruto de um suposto crime com viés e agenda estritamente política. Deveria, portanto, na compreensão das leis, do poder da “caneta jornalística”, do direito e da boa compreensão de sociedade, expor ao escrutínio público o que se aventa como verdade posta (considerando avaliar como evidente o resguardo da fonte supostamente criminosa) para que se possa redigir qualquer manifestação opinativa sobre elas.

 Muitos colegas não gostam, ou mesmo não consideram, do fato de que a comunicação é um espécie de “quarto poder” dentro de uma ordem democrática. Pode não o ser, contudo tem características poderosas e, com tal efeito, deve ser exercida, sob a égide do próprio direito positivo, de maneira responsável. A única análise que subexiste neste caso é de irresponsabilidade do agente de comunicação (considero como agente do interesse público) em relação ao tratamento da edificação das provas e fomento e disseminação da análise da mesma.

Neste requisito, em forma comparativa, temos um veículo que pode estar promovendo “fofocas”, como verdade instalada, derivada de suposto crime e, diante deste material, edificação de opinião dada como agenda política de lançamento a ser deferida. O último ponto, agenda política, é mais nocivo, diante do material supostamente colhido, pois se solta conforme o desenrolar do tempo e atitudes do alvo um “conta-gotas” de informações que denigrem, ainda mais, a prática jornalística.

O que se salienta mais gravoso, diante do ocorrido, é o alinhamento de outro grande veículo de comunicação ao site “The Intercept”. Onde está o material? Como foi obtido (sem o pedido da fonte)? Por que não foi exposto na sua totalidade? Por que não foi compartilhado com todos os veículos de comunicação? Por que não foi levado a veracidade? Como foi conferida? Parece ser algo semelhante à “barrigada jornalística” publicada pela Folha de São Paulo no caso das “disseminações de robôs de whatsapp”.

Até o presente momento, caso os veículos não se enquadrem à boa prática jornalística, o jornalismo encontra-se em risco por uma agenda politizada adstrita a veículos de imprensa. As mensagens que atribuem um suposto repúdio ao Movimento Brasil Livre não o impedem de aguerrir com sua missão primordial de continuar a defender o combate a corrupção. Mesmo que se comprovem verdadeiras, o que é altamente duvidoso, a opinião do então juiz Sérgio Moro sobre o movimento é irrelevante e não ganha cunho depreciativo ao que o Movimento defende.

A liberdade de imprensa é inalienável, poderosa e necessária em qualquer democracia. O deferimento sobre as questões opinativas, políticas ou de qualquer natureza devem ser preservadas dentro de constructo de regramentos que norteiam o jornalismo. Neste diapasão, e como responsáveis pela comunicação nacional, deve-se agir com responsabilidade. Deve-se, em primeira instância cobrar todo o material que estes possuem; encaminhar para uma validação fática (escrutínio público); e após isso pode-se integrar o escopo do jornalismo opinativo.

Malogro qualquer visão de admissibilidade, nosso jornalismo coloca-se em risco pelas práticas perigosas no qual estamos vivendo.

Administrador, Jornalista, Professor e Pesquisador. Graduado em Administração e Comércio Exterior. Pós-graduado em Direito, Docência e Gestão Pública. Mestre em Economia pela UnB.