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Estudante interrompido, músico frustrado, cozinheiro irregular e fundador (e membro mais controverso) do MBL - Movimento Brasil Livre.
‘Vocês são viados e comunistas’! Ou ‘Como o debate público virou pó…’

O que chamamos de direita vem se transformando num gueto de oportunistas. Existe solução?

03/07/2019 14h31

Os últimos ataques baixos ao MBL, mais notadamente a tentativa frustrada de linchamento via assessores do PSL, deixaram clara uma perspectiva um tanto quanto estranha no debate público recente.

O que chamamos de direita vem se transformando num gueto de oportunistas; gente que nunca leu um livro se comporta como fiscal ideológico, determinando quem pode ou não utilizar-se da alcunha de liberal, conservador ou o rótulo que preferir.

A prática tornou-se mais comum no youtube, onde proliferam canais histéricos com audiência altíssima. Foi-se o tempo de Nando Moura, Arthur do Val ou Ideias Radicais. Onda após onda, como invasões bárbaras, novos palpiteiros surgem, com qualidade decrescente e ansiedade galopante. Alimentam-se do desespero de uma classe média à procura de amparo, debatendo-se entre narrativas de whatsapp e memes simplificadores.

Sim, antes que se pergunte, caro leitor, temos sim culpa no cartório. Ao MBL cabe uma reflexão sobre seu papel na dissolução do debate público em mero espetáculo fugaz, que desvanece no ar tão logo a próxima narrativa toma corpo no palco das redes. Será um doloroso momento de reencontro com os erros do passado para compreender o presente.

O show de horrores surpreende pois além de burro, é tosco. Teses que consideramos mortas, como a intervenção militar, voltam à tona em meio a um governo administrado por … militares! É um universo de confusão, onde heróis anônimos (o “caminhoneiro do áudio”, o “cabo e o soldado”, o “general que não quis se identificar”) se misturam a figuras reais e já deificadas, como Bolsonaro, Moro e Olavo de Carvalho.

Assista isso. Esse cara é muito mais influente do que você imagina…

É um ciclo de destruição criativa. Vem Pra Rua e MBL tornam-se obsoletos ao defender coisas demodê como independência e republicanismo. Estado democrático de direito? Virou piada de salão! Conheço amigos no mercado financeiro que validam a retórica do “fechamento do congresso” em nome do “andamento das reformas”. É gente com MBA em Finanças na PQP comprando narrativa de caminhoneiro de zap-zap.

Os novos ingressantes surgem, canibalizam o espaço dos “traidores” e “infiéis” e encontram seu lugar ao sol. No processo de aceleração, onde some a qualidade e aumenta a quantidade, outros ingressantes surgem em velocidade ainda mais rápida, predando os antigos predadores. Já existem cisões dentro da direita bolsonarista “de rua”: os “Lobos Patriotas“, por exemplo, não se dão com setores dos “Youtubers de Direita

O material produzido, além de simplório, é esteticamente … curioso. É como se senhores de 60 anos tivessem finalmente acesso ao universo digital e ali imprimissem seu estilo e suas referências. Tornam-se porta-vozes de uma geração que fora impedida de ter voz — a geração dos meus pais — , e que, devido ao momento político e econômico atual, entregam aos seus filhos um país pior que receberam. Sei que é desesperador.

Essa é a cara da nova direita. Não gostou? Então você é comunista.

Mas isso não justifica a transformação do ambiente político num circo horroroso, num monumento de simplificações. Assistam o vídeo abaixo do canal “Universo“. Um senhor, parecido com o Roberto Carlos, palpita sobre temas nacionais com muita indignação e ironia, mas nenhuma substância. Suas frases são intercaladas por risadas digitais que ele aciona através de um botão. Digam o que quiser deste homem. Ele representa o espírito do nosso tempo mais do que qualquer um de nós:

Assistam. Simplesmente assistam.

Essa turma é cada vez mais relevante. E encontra representação política num universo onde os fundamentos da histeria são plantados pelos semeadores de meta-narrativas, como o filósofo Olavo de Carvalho. É dele grande parte dos chavões e sensações que se materializam na raiva presente nos discursos dessa turma. E os exemplos são claros.

Na última manifestação, um jovem do MBL do Rio de Janeiro foi agredido por um homem que se identificava como ativista do “Direita Caxias“. O homem levara uma faixa à manifestação atacando o MBL; interpelado por uma de nossas líderes, ele justificou sua repúdia ao movimento pelo fato do MBL ser “uma tesoura”. Sim, uma tesoura. Está registrado em vídeo.

O homem articulava seu raciocínio de forma débil, mas observava um padrão definido por Olavo de Carvalho e difundido por sua teia hierárquica. “Tesouras”, ou melhor, “a estratégia das tesouras” é uma suposta manobra utilizada pelo PT e PSDB para se revezar no poder indefinidamente e implantar o socialismo “na maciota”, impedindo o ingresso de conservadores no planalto.

A tese foi popularizada pelo Brasil Paralelo no curso “O teatro das tesouras”, produzido pelo meu amigo Henrique e vendido pelo meu amigo Arthur. Os considero, ambos, brilhantes. Mas não consigo concordar com a tese — e os resultados políticos dela. Membros do MBL apanharam na rua pois são “tesouras”, e tesouras o são pois não aderem integralmente ao bolsonarismo. Por não aderir, só podem ser tucanos, e sendo tucanos, são parte da “estratégia das tesouras”.

É um fenômeno complexo. Existe populismo? Existe. Existe um fenômeno revolucionário? Existe. Existe economia do click, técnicas de bait e oportunismo digital? Existe. Existe crise geracional? Existe. Existe crise econômica? Existe. Existe revolta das elites? Existe. Existe a falência dos instrumentos de mediação e do próprio estado democrático de direito? Existe. É tudo isso e muito mais, misturado, fervilhando, fermentando. Vai dar merda.

A ilusão do espetáculo e o mundo da narrativa são fictícios. Vende-se sonhos e expectativas, binóculos e caleidoscópios para que uma massa indignada enxergue o mundo ao seu redor. Mas a ilusão narrativa não encontra substância. Em última instância, a competição por atenção só pode levar — ao menos em discurso — ao extremismo total e ao colapso das instituições. Mas não o fará por ser apenas espetáculo.

Assim como espetáculo foi a atuação de Alexandres Frotas, Tios Trutis e Juliens Lemos do PSL, que venderam discurso revolucionário em campanha e entregaram patrimonialismo em seus mandatos. A realidade não sustenta a narrativa. Haverá, em algum momento, uma normalização do fenômeno, quando o espetáculo e a histeria não encontrarem pé no mundo real. Tal qual uma bolha econômica, irá estourar. Mas a que custo?

O ambiente político torna-se cada vez pior, motivado por uma retórica viral e virulenta. Dilemas, dramas e nuances — essência das relações humanas e políticas — são jogados para debaixo do tapete em nome de explicações pequenas e rasteiras — memes, sendo claro — , que reduzem o debate a um show dicotômico, simples e até por isso burro.

O Brasil não vai bem. E não existe, no momento, resposta para o problema. Existem narrativas. Aos montes. Você as encontrará no mercado livre das redes sociais. Verdade, porém, é material escasso. E chegou a hora de procurá-la, custe o que custar.