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Estudante interrompido, músico frustrado, cozinheiro irregular e fundador (e membro mais controverso) do MBL - Movimento Brasil Livre.
Vídeo do Lobão, ofensas e insubmissos

Quem se opõe à loucura vira traidor; caos e impasse não podem ser opção.

29/05/2019 15h15

Os últimos dias foram tomados por ataques, insultos e confusões dos mais diversos por conta de um posicionamento não alinhado do MBL com o governo. A atuação — somada a algumas declarações exageradas e tiradas e contexto — foi o estopim para uma já esperada investida da máquina midiática governista, comandada em última instância por Carluxo e Olavo de Carvalho.

Para quem nos acompanha com assiduidade, é sabido que esse movimento não concorda com as teses políticas professadas pela tal “ala ideológica”; que desde o impeachment possui profundas discordâncias com os fins e os métodos autoritários de um grupo personalista e cultista, que ora clamava por “invasão do congresso para jogar políticos no lixo”, ora desenhava estratagemas para permitir uma intervenção militar no Brasil.

É sempre importante lembrar que Olavo se opôs ao impeachment de Dilma Rousseff, posto que desejava uma “destruição total da classa política” — ou golpe de estado, em bom português — liderado por seus alunos e puxa-sacos de plantão. Duvida? Confira este print fabuloso:

Vejam que as previsões de Olavo não se cumpriram. A Lava-Jato avançou e derreteu estruturas de poder do PMDB, PSDB e PP; as eleições de 2018 representaram uma queda importante de oligarquias já bem estabelecidas — Jucá e Eunício que o digam — e um recuo das tais elites políticas no legislativo e executivo. Sem precisar de uma “democracia plebiscitária”, cheia de assembléias e malucos revolucionários.

É importante lembrar isso pois o grupo de Olavo é quem dá as cartas na condução política do governo. Um grupo que se confrontou com a grande vitória democrática do impeachment — pois queria um golpe! — agora articula uma política de confronto institucional cujo método e objetivo é apenas um: o caos. Qualquer cidadão minimamente informado deve se opor ao estratagema. E é isso o que faremos: denunciaremos todo e qualquer tipo de ação revolucionária no seio do governo federal . Ponto.

Preocupa também a retórica e a condução personalista da comunicação do presidente. Vivemos um lulismo de sinal trocado, em que pessoas choram ao ver o presidente e gritam “Bolsonaro, eu te amo” em praça pública; grupos e movimentos passam a ser apêndices de um projeto político — e não fiscais, como deveria ser –; presença político-partidária em caminhões de som, bandeiras e cartazes viram a tônica de manifestações, em detrimento da independência de outrora. Basicamente, tudo o que era rechaçado em 2015/16 virou padrão em 18. E ai se alguém discordar!

Assusta o vídeo postado por Lobão em seu twitter. O paralelismo com o Lulismo de outrora provoca arrepios.

Eu não acho que Carla Zambelli ama Jair Bolsonaro. Carla é uma sobrevivente política. Fará o necessário para se manter viva no jogo — até protagonizar cenas constrangedoras como essa. Eu gosto dela, é uma pessoa bacana. No fundo, sabe bem a razão do que faz. É medo de ser destruída, é submissão como método de sobrevida. Para alguém que foi massacrada por Olavo nos primeiros meses do ano, essa é a redenção planejada.

O problema é que as coisas são um pouco mais complexas. Na ânsia de colocar toda a direita de joelhos, o bolsolavismo isolou-se com seu público — ainda engajado e bastante numeroso — e com formadores de opinião ora oportunistas, ora coagidos. Os coagidos guardam ressentimento, e deixarão sua vingança para o momento adequado. Os oportunistas procurarão ganhos fáceis oferecendo seus serviços ao grupo dominante.

Tente imaginar um caminhão de som governista em 2013, 15 ou 16. Imagine o que fariam com essa bandeira. Será que algo mudou?

Todo o resto, porém, percebeu suas reais intenções. E ainda que feridos, agredidos, insultados — e incluo aqui o MBL, Vem Pra Rua, Antagonista, Danilo Gentilli, partido Novo, Janaína Paschoal, Pondé, Lobão, Luciano Ayan, Alexandre Borges, Augusto de Franco, Rodrigo Constantino, Vera Magalhães, Carlos Andreazza, Hélio Beltrão, Joel Pinheiro, Madeleine Lakso e muitos outros –, firmaram posição na defesa de uma perspectiva republicana e pé-no-chão da política brasileira.

Distante das milícias virtuais e próxima de um diálogo cidadão, tal approach ainda levará tempo para se firmar no debate público. É mais sofisticado, menos intuitivo, distante de simplificações cretinas como “toda articulação política é crime” e “ao presidente da república cabe protocolar os projetos, e ao legislativo aprovar tudo“. Mas é realista. E a realidade uma hora se impõe.

O que propõe os insubmissos é um caminho para além do caos e do impasse conduzidos pela ala autoritária e extremista. É um caminho de conciliação e pacificação, mas não menos efetivo no combate ao estado patrimonial que tanto extremistas quanto republicanos repudiam.

A crise política está apenas em seu começo. Torço para que o lado bom do governo se imponha e esse tipo de discussão não mais ocupe o debate político. Mas não me iludo. Essa é uma pretensão, infelizmente, ainda muito distante da realidade…