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Professor de Filosofia, violinista, coordenador do MBL Bahia e organizador do debate "Os EUA e a Nova Ordem Mundial" (Vide Editorial).
Verdade e linguagem política

Cabe aos formadores de opinião restituir as palavras à verdade

20/02/2019 13h16

A linguagem política sempre se mostrou especialmente vulnerável a adulterações. Desde a Antiguidade, se lamentam os sábios das mentiras convenientemente brandidas pelos retóricos. Também desde os tempos antigos, se conhece o engodo do fanatismo, nas épocas de estremecimento do mundo, quando a linguagem das virtudes dá lugar à verborragia da propaganda. Conta Tucídides que antes do início da guerra do Peloponeso os discursos dos oradores já haviam se deteriorado. Temeridade passava por coragem, blandícia por serenidade, o ódio mais funesto era sinal de valentia, nomes e palavras nada mais significavam em si mesmos. Essa mistagogia da escumalha teve um alto preço. A invasão fatídica de Plateia em 431 a.C cumpriu-se de modo terrível: com ela começou o longo conflito fratricida, após o qual se dissipariam os sonhos do pan-helenismo orgulhoso de Atenas.

O exemplo de Tucídides mostra com meridiana clareza uma dura verdade histórica, muito repetida e poucas vezes devidamente meditada pela nova direita brasileira. A decadência da linguagem política precede tragédias. Foi assim nos anos conturbados da República de Weimar, onde a mais rude violência de rua se unia à mais completa abjeção panfletária. O sucesso de público da enorme literatura antissemita atesta o declínio do gosto do alemão médio. O público se tornava mais ávido para consumir, nos anos entre a Primeira Guerra e a ascensão do Reich em 1933, a linguagem política do apelo direto e vulgar à brutalidade étnica. A caricatura do judeu pouco devia à imagem tradicional do fariseu encarniçado, que açulou a plebe para condenar o Messias. Judeu era o comerciante e o financista; os cafetões que prostituíam as filhas da Alemanha eram judeus; os invejosos que conspiravam pelo subjugamento do povo alemão ao estrangeiro eram judeus; os inimigos internos da pátria eram manipulados por judeus. O hebreu cínico de nariz adunco, esfregando as mãos com o maquiavelismo típico da raça, passava por fidelíssimo desenho. Às distorções tópicas se conjugava a contrafação da ciência de Haeckel e Darwin, nas cavilações dos ilustres Gobineau, H.S. Chamberlain e do muito menos ilustre formigueiro de grupelhos racistas e antissemitas do período. Dentre essas doutrinas pseudocientíficas, havia aquelas que punham o acento na inferioridade racial do judeu frente ao germânico, completando o esboço de uma tragédia anunciada.

Há poucos anos, no Brasil, tínhamos o gênero da mentira política monocromática. A hegemonia cultural da esquerda, fenômeno sobejamente comprovado sobre o qual não precisamos insistir, produzia mentiras unilaterais. Na visão da esquerda, a direita era uma síntese contraditória de todos os traços negativos que se podem assinalar no caráter de um homem. São os traços psicológicos do “fascista”: a direita era preconceituosa, vaidosa, fútil, inculta, racista e misógina. Hoje, temos mentiras de várias cores. E a direita tem se mostrado talentosa no ofício de distorcer a linguagem política em nome da propaganda.

Recentemente, tive a oportunidade de ver, em um grupo de discussão na internet, a comparação entre os procedimentos de achaque dos formadores de opinião com os expurgos stalinistas. Carlos Bolsonaro faria o papel de Stálin ou, no mínimo, de Jdanov (o filisteu soviético que cuidava de controlar os artistas e cientistas em nome da glória da URSS). Os formadores de opinião que sofrem o achincalhe nas redes seriam os dissidentes, expurgados como o foram tantos membros do partido. Para se ter um relance da abrangência dos expurgos, entre 1933 e 1939, 1,8 milhão de membros do PC foram expulsos do partido. Só na região rural, em menos de um ano (agosto de 37 a 38), quase 2 mil execuções foram realizadas. O comitê ucraniano foi destroçado e reduzido a três participantes. A famigerada ordem 0046 chegava às famílias dos condenados por tribunais militares: suas esposas deveriam passar 8 anos em tratamento correcional no sistema de campos de concentração. Lendo sobre a vida de comunistas fiéis, quadros exemplares do partido, nos impressiona a ambiência de sinistro terror que vigorava nas altas cúpulas. No ensaio de Vladimir Tismaneanu sobre Ana Pauker, vemos um retrato até comovente da stalinista fanática que caiu em desgraça pelas maquinações de Dej: no fim da vida, ninguém a visitava, recusavam-lhe o título de comunista. Não havia para Ana Pauker mais amigos, ela virara uma espécie de fantasma; escapando da morte por pouco, sofrera um golpe tremendo. E alguns sofreram ainda mais, entre os quais genuínos dissidentes como a grande poeta russa Anna Akhmátova.

Parece uma descrição fiel dos padecimentos dos nossos formadores de opinião? Difícil crer. Do mais raquítico ao mais notório formador de opinião perseguido por Carlos Bolsonaro, nunca vi quem tivesse sido sequer escorraçado da mídia por fazer-lhe críticas. Essas pessoas continuam vivas, bem alimentadas, usando suas redes sociais, o círculo de amigos dela não sumiu. Elas ainda tem os mesmos empregos — embora a contragosto da malta. Nada lhes aconteceu comparável aos sofrimentos indizíveis dos dissidentes nos regimes totalitários. Parece-me, inclusive, um profundo desrespeito à memória destes homens e mulheres heróicos se atrever a fazer tais comparações. Pois se Carlos é um mini-stálin, Felipe Moura Brasil seria Anna Akhmátova?

Se ainda insistem com a analogia, objetando que se trata da mesma “mentalidade”, sem os meios de ação, é bom lembrar que esse vago argumento serve para tudo sob o céu plúmbeo do Eclesiastes, debaixo do qual só há vaidade. Posso dizer que um partido com um programa relativamente moderado (embora com traços autoritários) como o PT tentou implantar um totalitarismo no Brasil. Tentou mesmo? Quantos foram presos, deportados, envenados? A mídia foi fechada? O exército foi cooptado? Não havia mais poderes paralelos atuantes? Quanto e com que constância o PT tentou implantar o “totalitarismo”? O PT é um partido leninista? A organização do PT é composta a partir de qual modelo? É lógico que essas assimilações indevidas são apenas uma peça de propaganda política, destinada a estimular nas pessoas a urgência em se construir uma oposição. Infelizmente, as distorções convenientes da linguagem política, a despeito das mais límpidas intenções a justificá-las, sempre trazem o espinho. Quando se ensina que tudo é comunismo, não surpreende que, em breve, você também seja chamado de comunista. Se não há critérios claros para dar os significados, comunista é quem alguém quer que o outro seja. E quem detém a força da palavra final na matéria pode não ser você.

Muita gente na direita gosta de chamar todo mundo de extrema-esquerda e comunista. Parece um truque maroto. O raciocínio subjacente é o seguinte: quanto mais se empurra a esquerda para o extremo do espectro político, mais a direita fica ao centro. Com isso, a direita se fortalece e a esquerda se isola, espremida mais e mais no limiar do espectro político. As distorções intencionais da classificação atingem um alvo quando elas se refletem em uma mudança de atitude pragmática. As distorções vão refluindo no tecido social, através das redes, da mídia alternativa, da internet. Quando o último esquerdista houver sido colocado no mais extremíssimo polo — digamos, um plácido quadro do PSDB denominado de comunista totalitário – teríamos concluído a atividade civilizatória. Não haveria mais o antigo centro. Só a direita e a extrema esquerda teriam sobrado. E Deus descansaria no sétimo dia, pois viu que a criação era boa.

Há muitos problemas com esse raciocínio, dos quais destaco apenas um, problema decorrente do improvável sucesso do procedimento. Ao contrário de atributos como sabedoria e beleza, a direita não é um atributo metafísico tal que, quanto mais se têm, mais se aproxima do Bem. Quanto mais sábio e belo é algo, melhor ele é. Não funciona do mesmo jeito com “a direita”, ainda que o caráter ambivalente da coisa possa frustrar algumas pessoas muito convictas da sua intrínseca superioridade diante dos adversários políticos. Quanto mais direitista um objeto é, mais direitista ele é. Não melhor. No limite, o máximo de direitismo possível é a extrema-direita — grupos, partidos, tendências, movimentos sendo corretamente classificados como pertencentes à categoria. E como vimos, a ação histórica da extrema-direita não assegurou o advento do Reino do Espírito Santo.

Já outra parte da direita, que se alega esclarecida e de fato demonstra ser melhor que sua contraparte doidivanas, identifica, corretamente, alguns problemas de boa parte da militância bolsonariana. Eu mesmo já escrevi a respeito do assunto. Essa militância tem se tornado progressivamente mais agressiva, unitemática, enxergando comunistas em todas as pessoas, e, por fim, aceitando a ilusão lisonjeira de que um formador de opinião é uma espécie de funcionário dela que sabe usar redes sociais. Todavia, para identificar estes problemas não preciso inventar nomenclaturas duvidosas. Já ouço mesmo as expectorações da linguagem em febre: expurgos stalinistas, o “totalitarismo” de Bolsonaro, o fim da liberdade, a “extrema-direita revolucionária”. Como o pobre homem achacado por espíritos, ouço-os sussurrando desde os quatro cantos — termos e expressões equivocados a denotar que, mesmo nessa fileira alegadamente sensata, a insensatez na distorção da linguagem grassa. Novamente, a desculpa se faz presente: são as tais razões pragmáticas, como se o abuso das palavras fosse sinal de superior habilidade prática. Para mim a questão há muito foi definida: é preciso restituir as palavras ao seu justo sentido. É preciso ensinar as pessoas a verdade. A função do intelectual público é sanear o debate público, não confundi-lo. Eu não me lembro, tampouco, se o pregador da Galileia disse: “A direita libertar-vos-á”. Acho que não. Não parece ter dito também, numa versão do Evangelho mais próxima da leitura de um Anatole France: “A direita de boa estirpe libertar-vos-á”. O que foi que ele disse era que a verdade nos libertaria. Cabe aos formadores de opinião restituir as palavras à verdade, antes que nos acometa uma tragédia, talvez não a hecatombe da guerra e do sangue, mas a mais comezinha tragédia da estupidez.