Escritor de meia dúzia de artigos, comentarista eventual do MBLNews.
Uma nação à deriva

A imprudência fatal dos covardes

24/03/2020 22h31

Winston Cruchill, entre suas milhares de frases célebres, disse:

“O preço da grandeza é a responsabilidade”

Em tempos de crise, semelhante a guerra ou calamidades ambientais, não se pode escapar de um plano nacional, que exige, em primeiro lugar, a definição de um comando superior com definição de planos e das diretrizes das ações e comunicação – em outros termos comando / autoridade.

O compasso entre informações, estratégias e ações é fundamental para os resultados, exigindo o compartilhamento entre os atores envolvidos. Há a necessidade de construção de bases de atuação descentralizadas, mediante o consenso das lideranças locais. 

A arte política ou o ofício político é essencial nesse momento e se distingue pela capacidade de dirigir pessoas à superação de antagonismo com priorização de interesse público. A viabilização do diálogo, cumprimento das decisões e consenso são medidas dessa capacidade. Em momentos de exceção, a capacidade ou incapacidade são ostentadas, empurrando o político para o isolamento político ou consagração. 

O estadista supera o personagem político, pois se consolida como um símbolo nacional, representando uma ideia, um sentimento, uma expectativa. É necessária a visão política, o espírito público, respaldado pela imaginação moral, que investe em autoridade e constrange os demais para cooperação.

A obra de Irving Babbitt “Democracia e Liderança” revela os caminhos. 

A população é a mais sensível e busca o seu líder ou líderes. A liderança é representada pela confiança, sinceridade, austeridade, habilidade e atributos semelhantes. O apoio é resultado da identificação, geralmente emocional e não racional, desse tipo de personagem. O uso do argumento meramente racional ou, especialmente, político, é totalmente o mais ineficaz.

É provável que, cessado o tempo de crise, encerra-se sua participação, como um eleito que atendeu ao verdadeiro chamado.

As autoridades não se deram conta do efeito disruptivo da crise, preferindo viver em uma segunda realidade, na qual seriam capazes de manter as práticas políticas tradicionais ou evitá-las com argumentação política.

O maior exemplo disso é do presidente, que representa o “antiestadista”. Frente ao dilema, prefere escapar da responsabilidade. 

O estadista enxerga a realidade, geralmente mais que os demais. O reconhecimento da demanda de saúde causada pelo vírus é o primeiro passo para iniciar o processo decisório da abordagem a ser implementada. O simples fato de admitir a crise, independentemente da mensuração da sua extensão, já implica na necessidade de uma decisão, que o compromete. Logicamente, o inverso é verdadeiro, ou seja, negando a crise, não se compromete com qualquer decisão importante. Negar foi o primeiro ato manifestado do presidente frente a crise, escapando da responsabilidade.

A consequência natural desse posicionamento é a “delegação” em sentido vulgar aos agentes de natureza técnica e “permissão” para outros ocuparem o vácuo de poder. 

A reação imediata foi emitir declarações erráticas, contraditórias e dúbias, enquanto atuava o ministro da saúde, mas na medida que este se destacava passou a ser desautorizado ou contrariado pelo presidente com preocupações no âmbito político. Os demais agentes políticos tomaram o latifúndio de poder legado pelo presidente, agindo cada um sponte propria

À medida que os efeitos da crise se avolumaram, alheios a existência de um Presidente da República, este para fins políticos agiu na construção de uma narrativa que possui relevância para atenuar suas decisões anteriores, apontando para as decisões, que preferiu negligenciar, como absurdas para preservação da economia. Apenas ataca a credibilidade das informações que embasam as medidas sanitárias, valendo-se, especialmente, dos grupos de apoio que se utilizam da desinformação ou teorias conspiratórias. 

A outra frente de atuação que caminha pari passu é a sustentação de um inimigo político erguido sobre a tese de culpa na origem da doença, no caso a China comunista, com propósito de criar o colapso mundial econômico. Logo, quem defende as medidas de saúde está ao lado dos ditadores comunistas chineses.

A base de apoio, sem menor apreço para o ser humano, é capaz de criar “não fatos” alegando que não existe morte por “Covid-19” ou criando incidente diplomático, polemizando, gerando a reação, se tornando um fato retumbante, tornando tudo político e frugal, a serviço do método político. 

A artimanha é manter o problema de Estado nas mãos do ministro da saúde, enquanto politicamente cria uma tese de destruição econômica pelas forças opositoras que sustentam as medidas como o “lockdown”. 

Não é surpreendente que as classes econômica e política mais próximas lançam cobranças sobre os efeitos econômicos decorrente da paralização da atividade pelo isolamento social. O vírus invisível e com tese de baixa letalidade que impede a população de circular e trabalhar com o tempo vai criar uma pressão social, gerando a prevalência popular da sua tese. Dizer que é apenas uma gripe que “só” matou 50 pessoas não justifica tudo isso é um discurso popular de fácil assimilação. A descoberta de um medicamento também é uma possibilidade que pode reverter o processo. Uma aposta cara.  

Ao fim, se vencida a crise da saúde seria mérito do seu governo e o prejuízo econômico culpa da China e seus opositores. Se vencido, as medidas formam executadas e a economia prejudicada pelos mesmos inimigos.

Estranhamente, apesar de ser o mandatário maior do executivo, nenhuma posição alternativa é ofertada em face do dilema, digno de quem sempre foge à responsabilidade é da realidade, evadindo-se pra esfera da polêmica política.

A estratagema do presidente é “politizar” a questão que é de Estado. Os fatos são flexíveis, a realidade instrumentalizada. A vida política é apenas um holograma que aceita a distorção dos fatos, na qual ele constrói a segunda realidade. A expressão da imaginação diabólica elaborada por Russell Kirk.

Trata-se do inverso do estadista necessário, típico de um político carreirista e oportunista.

O abandono nacional pelo presidente é o maior exemplo da sua recusa em governar por medo de assumir responsabilidade.

O enfrentamento da crise não é esgotado com a mera delegação de autonomia ao ministro da saúde, pois exige um comando ou lideranças. Essas podem se reunir em um pacto de salvação nacional espontaneamente, suplantando o lapso de poder deixado pelo presidente. O problema, também, é o mesmo espírito político que afeta todas as esferas do poder.

Nunca precisamos tanto de um De Gaulle, Churchill, quiçá Disraelli!

A realidade irá se impor, só não diga que não vai ter golpe!

Encerro com as palavras de Macbeth (Ato V, Cena V):

A vida é apenas uma sombra ambulante, um pobre cômico que se empavona e agita por uma hora no palco, sem que seja, após, ouvido; é uma história contada por idiotas, cheia de fúria e
muita barulheira, que nada significa.