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Estudante interrompido, músico frustrado, cozinheiro irregular e fundador (e membro mais controverso) do MBL - Movimento Brasil Livre.
Tiro no pé de Crivella é chance de ouro para ascensão de Felipe Neto

A política como espetáculo deu seus primeiros sinais na eleição de Tiririca. Não há sinais de que irá parar…

09/09/2019 15h10

Um desastre anunciado. Marcelo Crivella, prefeito do Rio de Janeiro, sempre foi bom de bico. Fala manso, convence os fiéis, segundo na hierarquia da Igreja Universal. É um homem contido, mas confiante, dono de retórica peculiar e eficiente.

Não é porém, um homem das redes sociais. Tampouco entende da lógica que se estabeleceu nos últimos anos — polarização, enfrentamento, redução de base. É, em suma, um peixe fora d’água, ainda que matreiro para entender — e ele é esperto o suficiente para compreender isso — que é necessário se juntar ao jogo vigente nas redes.

O youtuber deu um baile no prefeito.

Vejam só. Crivella apoia o presidente. O presidente se benzeu — de joelhos — para seu bispo-mor, Edir Macedo. O presidente mita, o presidente oprime. Assim como bem oprime Wilson Witzel, governador do seu estado. Os estímulos para que Crivella entre na brincadeira estão todos aí. E ele entrou.

Desengonçado, Crivella pensou “e se eu acabar com a putaria nas HQs? Trarei todos os conservadores de redes sociais para mim!“. Bastaria uma ação barulhenta — o confisco das HQs — , um vídeo pras redes e pronto!, teríamos um mito no pedaço.

Pois é. Deu tudo muito errado. Crivella obteve apoio marginal da ala mais retrógrada do Bolsonarismo e de setores evangélicos — e ficou por isso mesmo. Foi engolido pela esquerda, pelo centro, pela imprensa, pelos liberais. Conservadores com dois neurônios juntaram-se ao coro; restou apenas o barulho dos imbecis, que quedou-se ínfimo diante das gritas por liberdade.

A HQ, que passaria desapercebida, tornou-se objeto de culto. A imagem dos personagens gays se beijando converteu-se em ícone — e de ícone virou meme. Crivella tornou-se motivo de piada. Decisões favoráveis na justiça foram revertidas pelo STF; o prefeito perdeu nas redes, nas ruas e nas cortes.

Mas não parou por aí; Felipe Neto, maior influenciador digital do país, resolveu partir para o ataque. Ele, que mais erra que acerta, encaixou finalmente um golpe de mestre, e distribuiu cerca de 14 mil livros com temática LGBT na Bienal carioca. Mais: serviu de divulgador do ato em prol da liberdade de expressão que rolou no próprio evento, coroando o fiasco da ação do prefeito.

Seus posts engajaram mais que qualquer outro influenciador no twitter, desbancando inclusive o presidente da República; atacado por deputados do PSL, retrucou com firmeza, derrotando as investidas governistas. Felipe Neto sagrou-se vencedor na aventura populista de Crivella. E isso acende alguns alertas.

A política como espetáculo deu seus primeiros sinais na eleição de Tiririca. O último pleito, porém, abriu as portas do inferno: gente sem a mínima capacidade — mas muito barulho — ascendeu aos cargos mais importantes da República. Significa.

Se alguém imagina que isso iria parar, talvez seja hora de repensar. Felipe Neto vem aí.

E ele ganha o que quiser.