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Estudante interrompido, músico frustrado, cozinheiro irregular e fundador (e membro mais controverso) do MBL - Movimento Brasil Livre.
Sucesso Emo, Fresno declara guerra a Bolsonaro. Vão terminar chorando?

‘Liberdade sem voz é prisão’ diz a banda em ‘Convicção’.

18/07/2019 12h54

A tradicional banda Fresno, outrora badalada na cena EmoCore, resolveu adotar o caminho político para ressurgir das cinzas. Foi o que descobri na última terça-feira ao me deparar com uma matéria do UOL sobre seu recente álbum ‘Sua Alegria foi Cancelada’, o oitavo da banda.

Sei que já tratei de temas mais importantes neste espaço. Mas não nego que determinada abordagem sobre o fútil, o tolo, por vezes esclarece um problema com mais brilho do que resenhas bem escritas sobre o drama político do momento.

Já adotei procedimento semelhante em posts recentes. Foi quando comentei as desventuras dos novos reis do pedaço na política brasileira, os ‘youtubers de direita’. (Sim, são um grupo que assim se denomina. Sim, defendem revolução caminhoneira e ‘Art 142 já'(vulgo golpe) . E sim, foram recebidos pelo Presidente da República com pompa e circunstância.)

Mas voltemos aos emos (rimou!). A Fresno dispensa apresentações. É o último sobrevivente de uma cena roqueira que infestou o país na última década. De seus concorrentes diretos, o NX0, nada restou. E mesmo de seus dissidentes, como o fura-olho Tavares — ex-baixista da banda e ex-amigo de PC Siqueira — pouco ouvimos falar.

Vivem o drama de um gênero que perde função e relevância mundo afora. E agora prometem reacender sua carreira inaugurando letras políticas contra Jair Bolsonaro. Foi o que fizeram em ‘Convicção’, uma das canções do novo álbum:

Print retirado da matéria do UOL

A música é meio bobinha. Mas, vá-lá, faz parte da proposta musical da Fresno (no feminino). O que me interessa, no entanto é a abordagem lírica de sua composição — e a leitura política da banda sobre o momento atual. Convicção foi publicada no youtube em agosto de 2018 — vésperas das eleições presidenciais. E mesmo o teste do tempo foi incapaz de dar vida aos seus versos confusos e adolescentes:

É madrugada e os que acordaram /Estão prontos pra entrar em ação/ Mas em silêncio, pois eles dominam /Os jornais e a televisão / Os jornais e a televisão / Apenas um nessa multidão/ Na voz, o eco da revolução / Eu sempre segui o meu coração / Uma ideia em ebulição / Essa corrente de alta tensão / Não tenha culpa de ter convicção

Existe, como vemos, uma intenção política na letra do conjunto emo. Mais que isso, porém, se destaca a inadequação histórica do discurso. Lucas Silveira — provável compositor da obra — canta uma condição política idealizada, emulando uma época que passou e que não encontra eco nos dias de hoje.

O eu lírico é uma espécie de ‘underdog‘, um Holden Caulfield do século XXI, cuja desarmonia com o discurso dominante — expresso ali nos donos dos jornais e a televisão — lhe permite caminhar em meio à multidão, resoluto, tomado de convicções mil em meio ao ‘eco da revolução‘. Tudo muito bacana — pena que Lucas não mora em 1974.

O jogo político mudou muito desde então. Os ‘loucos e desajustados‘ dos anos 60 e 70 converteram-se na elite em revolta que domina o debate público nas últimas décadas. O espírito do jovem indignado emulado pela Fresno se tornou o discurso dos jornais e a televisão — os mesmos que renderam fama ao emocore de Lucas Silveira — que eles tentam converter, sem sucesso, em representação da estrutura de poder dominante de Jair Bolsonaro.

O problema de 1 bilhão de dolares, que seu ‘rock contestador’ é incapaz de resolver, é que a própria contestação fetichizada da Fresno — e de seus colegas de outras correntes e expressões artísticas — é hoje o ‘inimigo a ser combatido’ perante boa parte da população. Mais: o voto em Bolsonaro — goste ele ou não — é visto como uma travessura muito mais material que suas rimas terminadas em ão .

O mesmo acontece com Donald Trump, Matteo Salvini e outras forças políticas da direita neo-populista, que ascendem ao poder enquanto expressão de rebeldia diante de suas respectivas elites políticas e culturais. E veja só: isso não os exime de crítica, posto que seus métodos são muitas vezes questionáveis. A questão fundamental é que a Fresno — e boa parte do pop engajado brasileiro — mais fala bobagem que (boa) crítica em seus ataques ao fenômeno.

Não há resistência no rock, pois nem rock mais há. O mérito da crítica, porém, deveria residir num entendimento maior da realidade, coisa que mesmo artistas infinitamente mais tarimbados que Lucas, como Caetano Veloso e Liniker, são ainda incapazes de fazer. A esquerda encontra-se perplexa, em estado de espanto. Perdeu as ruas, as redes, o gueto, o nicho, a revolta.

Existe uma saturação no discurso de seus formuladores, ainda presos à receitas antigas que não explicam a realidade com a devida precisão. Suspeito que parte deles encontra-se devotada por demais ao faccionalismo político ao qual servem de prosélitos — e não mais leitores da realidade. Isso compromete o julgamento e a ação.

A falta de autocrítica e de norte político se reflete, ao final, nos gritos inúteis da Fresno em meio à multidão. Sua canção diz que ‘Liberdade sem voz é prisão‘. Bacana. O problema é que existe liberdade e voz. Eles só não sabem o que fazer com elas.