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23 anos, professor de matemática e coordenador do MBL na cidade do Rio de Janeiro.
Sérgio Moro deveria renunciar?

É possível que não reste outro caminho para o ministro

26/08/2019 18h15

No blog que me antecedeu esta semana, o meu correligionário mineiro Caíque Januzzi escreveu a respeito da desconfortável encruzilhada na qual se encontra o patriarca da “semimonarquia” bolsonarista: manter-se coerente com um discurso de campanha, o de tolerância zero contra a corrupção; ou livrar-se da obrigação de lançar o seu filho Flávio, enrolado até o pescoço na Justiça, ao mar.

Complemento, então, observando a outra face dessa moeda, o dilema vivido por Sérgio Moro atualmente: seguir engolindo sapos enquanto arauto do presidente da República; ou romper definitivamente com o mesmo, preservando a sua biografia. Cada vez mais, parece não haver terceira via possível para o ministro da Justiça.

Desde o princípio, a nomeação para a equipe do governo de turno era muito mais vantajosa para o presidente eleito do que para o então juiz da 13ª Vara Federal de Curitiba. Além de ser a figura pública de maior prestígio popular no país, Moro contava com uma carreira consolidada de magistrado. Abriu mão de toda a sua estabilidade para se tornar um agente político, cuja existência depende, pelo menos por enquanto, de Bolsonaro.

Inicialmente, a proposta era até bastante alvissareira. Jair Bolsonaro garantia total autonomia para o novo “superministro” levar a sua agenda à frente, uma vez que o combate à corrupção seria prioridade no governo. Hoje em dia, o que se tem visto é bem diferente. Depois de quase nove meses, não faltam episódios em que Moro levou bola na costas, com a sua palavra sendo descredibilizada. Exemplos:

  • a prometida vaga para o STF, agora, segundo Bolsonaro, deverá ser de algum jurista “terrivelmente, evangélico”;
  • o Pacote Anticrime, principal pauta do ex-juiz à frente da pasta da Justiça, de acordo com o presidente, não é visto com urgência pelo governo;
  • assim que quatro hackers do Caso Intercept foram presos pela polícia, Sérgio Moro anunciou que o material apreendido seria destruído, porém foi desmentido por Jair Bolsonaro, que afirmou que essa decisão não cabe ao ministro, mas sim à Justiça;
  • Roberto Leonel, indicado de Moro para o COAF (agora, UIF), importante órgão de inteligência financeira para investigar a operação do crime organizado, foi derrubado por Bolsonaro;
  • em meio às estranhas intervenções na Polícia Federal, que é subordinada ao Ministério da Justiça, o presidente alfinetou: “Eu que indico [o diretor-geral da PF] e não o Sérgio Moro”.

Os únicos desses casos em que dou razão para o militar reacionário do Palácio do Planalto são as divergências sobre o decreto das armas e a contratação de Ilona Szabó. Afinal, realmente, não há o menor cabimento em impor uma agenda desarmamentista em pleno Governo Bolsonaro. Seria, inclusive, um verdadeiro estelionato eleitoral.

No entanto, como todos os tópicos anteriores evidenciam, há sim uma real traição aos eleitores bolsonaristas em curso, que consiste na pauta anticorrupção. Nessa, muitos alimentaram esperanças e foram enganados profundamente. O Mito — outrora, um jacobino caçador de vagabundos — agora, sabota e humilha Sérgio Moro sem rubores na face, é simpático a Dias Toffoli (ex-advogado do PT), protege o seu 01 investigado e é afeito a “acordões” pouco republicanos.

Seria Flávio Bolsonaro um indesejado calcanhar de Aquiles e a única motivação de tamanha hipocrisia do presidente? Não. Claramente, a cizânia com Moro é muito mais abrangente. O que estamos testemunhando, na verdade, é a tentativa de fritura pública do único nome no Brasil capaz de largar na frente de Johnny Bravo para o pleito presidencial de 2022.

Para os governistas mais convictos, lamentavelmente, a escolha já se tornou inevitável: ou você é 100% Bolsonaro ou defende a Lava Jato. Os dois ao mesmo tempo? Não dá mais.