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Estudante interrompido, músico frustrado, cozinheiro irregular e fundador (e membro mais controverso) do MBL - Movimento Brasil Livre.
Recebi uma carta de um seguidor chateado…

Quando a crítica é educada, uma resposta é obrigação

30/05/2019 01h59

A onda de ataques virtuais ao MBL na última semana ultrapassou qualquer limite do razoável. Uma quantidade monumental de notícias falsas e manipulações — refutadas aqui nesta postagem — foi utilizada como arsenal para destruição de reputações de um grupo de pessoas que trabalha incessantemente pela reforma da previdência, redução da máquina estatal e combate à corrupção.

Mas não foram apenas insultos e mentiras que recebemos. Na última terça-feira (28), recebi um e-mail muito educado de um rapaz chamado Gustavo Calais, de Barreiras, na Bahia. Ele se define como um conservador, e sentiu-se ofendido pela forma com que alguns de nossos líderes se manifestaram nos últimos dias. Irei reproduzir sua carta na íntegra. Após isso, vou comentar o que achei.

  Carta ao Movimento Brasil Livre,

  Me chamo Gustavo, sou estudante de medicina da Universidade Federal da Bahia. Escrevo-lhe a vocês, jovens do Movimento Brasil Livre, para falar dos últimos acontecimentos dessa semana e dos desentendimentos entre grande parte dos liberais e dos conservadores no país. 

  Reconheço, em um primeiro momento, a grande importância política do MBL como o movimento de direita mais organizado e com maior capilaridade no Brasil. Da mesma forma, percebo uma inexperiência política por parte do movimento conservador contemporâneo. Por muito tempo, as ideias conservadoras foram demonizadas nos setores da educação e na cultura e isso fez com que esse movimento, outrora muito articulado politicamente nos séculos passados e norteador dos grandes eventos nacionais, como a formação do estado brasileiro, em 1822, por influência de José Bonifácio, e ao longo do primeiro reinado e do segundo reinado, fosse perdendo a práxis na política e adquirindo uma conotação de movimento de contracultura e antiestablishment, uma vez que a cultura majoritária, pós regime militar, era progressista e o governo pós redemocratização era composto por uma aliança política de centro-esquerda.

  Com a educação se tornando cada vez mais hostil as ideias liberais e conservadoras e o sistema político composto por sua quase totalidade de agremiações partidárias de viés esquerdista, o movimento conservador contemporâneo possui, em uma certa medida e não de forma generalizada, um mal-estar com a política. Isso se agravou sobremaneira por meio dos grandes escândalos de corrupção da nova república, como o caso dos correios, o mensalão e o petrolão. Quase que de maneira inevitável, um forte sentimento de oposição ao sistema político e as suas engrenagens repousou sobre muitos conservadores. Um personagem que contribuiu para a criação desse mal-estar, de maneira proposital ou não, foi o filósofo Olavo de Carvalho. Um aluno assíduo de seu curso de filosofia pode perceber que o professor, constantemente, está em oposição a modelos de educação e políticas socialistas hegemônicas, como a metodologia de ensino do Paulo Freire e o foro de São Paulo, mas ao mesmo tempo Olavo diz não ter um modelo de sociedade ideal a propor. Isso não é uma critica ao Olavo de Carvalho, mas essa postura de desconstrução das ideias esquerdistas – o MBL, em um de seus pilares institucionais, também busca formar narrativas alternativas as hegemônicas progressistas – sem um esforço de construção faz com que parte do movimento conservador contemporâneo seja mais especializado em ser oposicionista, o que faz com que a habilidade de articulação política e de militância intersetorial, com deputados, senadores, governadores, instituições sociais e midiáticas, não seja muito satisfatória. A ascensão da direita na nova república é um evento muito recente e os liberais, como o MBL, puderam entender, de maneira mais rápida, a importância da práxis política, algo que ainda parte do movimento conservador não compreendeu e está tendo que fazê-lo hoje, em uma posição de muita responsabilidade, como o cargo da Presidência da República, e cometendo algumas “caneladas”.

  Por isso, escrevo-lhes a vocês, jovens do Movimento Brasil Livre, para clamar por uma maior compressão em relação a alguns grupos conservadores no país. Sei que uma parte desses grupos, como principalmente os que estão mais engajados nas redes sociais, tecem críticas, muitas vezes infundadas e desequilibradas, ao movimento de vocês. Mais do que isso, parte dessas pessoas se valem de pura difamação e calúnia, soltando frases de ordem como: “traidores da pátria, comprados!”. Mas gostaria de demonstrar a vocês, por meio dessa carta, que existem muitos conservadores que acompanham o trabalho de vocês e que não se posicionam dessa forma. Por não se expressar nos comentários de vídeos no YouTube, ou nas redes sociais, em muitos casos, pode-se dar a entender que esse público conservador inexiste. Contudo, isso não é verdadeiro. 

  Dessa forma, alguns membros do MBL deveriam ter um pouco mais de prudência e responsabilidade em algumas de suas colocações públicas. É evidente que a liberdade de expressão existe e é saudável no debate político, mas a transmissão ao vivo realizada pelo movimento no YouTube sobre as manifestações do dia 26 atingiu, de maneira inevitável, a muitos conservadores que não são “antidemocráticos” ou “antirrepublicanos”. Como supramencionado, nota-se que muitas pessoas, de maneira arbitrária, difamatória e de forma muito maldosa proferiram palavras de destruição e de ódio ao Movimento Brasil Livre e, possivelmente, se analisarmos em uma balança, essas palavras foram mais mal-educadas e raivosas do que as colocações proferidas por alguns membros do MBL. Mas como um brasileiro mais a direita e que entende a importância de uma articulação liberal-conservadora sólida para o desenvolvimento do Brasil – como o histórico período do segundo reinado, entre 1850 e 1870, por meio de uma alternância política entre liberais e conservadores no poder –, seria muito saudável para o MBL fazer uma declaração de retratação quanto a maneira pela qual alguns de seus membros se dirigiram a parte do público naquela transmissão ao vivo, pois muitas pessoas, as quais não compactuam com pautas totalitárias e golpistas, acabaram se decepcionando com o movimento. Peço isso a vocês pois o MBL se tornou, além de ser um movimento de militância liberal-direitista, um grupo com representatividade pública e muitas pessoas que se sentiam representadas pelo movimento se entristeceram, inevitavelmente, com essas colocações, por mais que elas não eram o público-alvo das colocações proferidas.

  Alguns simpatizantes do Movimento Brasil Livre são mais silenciosos e não aparecem em comentários nas redes sociais e são esses os apoiadores mais importantes. Uma parte desses, como eu, é cristão e acredita que Deus está no meio de vocês e deseja utilizar a força de vocês para realizar uma transformação no Brasil. Por isso, escrevo a todos vocês, membros do Movimento Brasil Livre, para que venham a se atentar a essas pessoas que menos aparecem. Se, por meio dessa carta, peço essa nobre e humilde ação de mea culpa é porque acredito que o movimento tem mais a ganhar do que a perder com isso e, dessa forma, a animosidade se esfriará. Reitero que muitos internautas se exaltaram e combateram de maneira arbitrária ao MBL, mas lembrem-se sempre que ninguém joga pedras em árvores que não dão frutos. Se o movimento não fosse relevante tudo isso não teria ocorrido. Vocês são muito importantes para a política brasileira e para a juventude no país, pois muitos jovens e, principalmente, adolescentes, estão tendo vocês como referência política. 

  Por fim, a situação de digladiação no espectro da direita é muito ruim para o Brasil. Estamos com os papeis principais da nossa “novela republicana” e estamos falhando não na apresentação em nossos shows, mas nos ensaios privados entre nós mesmos. Se escrevo a vocês, integrantes do MBL, é por que sei que vocês são jovens patriotas que teriam a possibilidade de amenizar esse estado de contenda instaurado, pois parte disso se deve a forma pela qual alguns membros se referiram a parte do eleitorado do Presidente da República – muitos não são “bolsominions” –, sem retirar a responsabilidade de alguns grupos governistas do outro lado, para que o país venha a aprovar todas as reformas necessárias ao desenvolvimento político-social e ao crescimento econômico.

Atenciosamente, 

Gustavo Calais Fonseca

Pois bem. Os grifos são meus. Gostaria, antes de tudo, de agradecer o Gustavo pela carta tão educada e conciliadora em meio a um mar de insensatez e agressividade desmedidas. Sim, Gustavo, alguns membros nossos — Eric, Eu e Guto, pra ser mais preciso — exaltaram-se em algumas de suas declarações. E se lhe ofendemos, peço minhas mais sinceras desculpas. Não era objetivo de nenhum de nós atingir pessoas de bem.

Vale lembrar, em nossa defesa, que todos os vídeos foram tirados de contexto por agentes políticos do Olavismo — youtubers, twitters e funcionários de gabinetes do PSL. Uma máquina de difamação foi mobilizada, ora motivada pela guerra, ora pelo oportunismo barato, para nos atingir ao longo da última semana. E que fique claro: gastaram dinheiro com isso. Lives e mais lives de desinscrição, divulgadas por bots no twitter — já devidamente expostos pelo antagonista — , e recheadas de fakes no youtube, foram mobilizadas pela estrutura de mídia do governo. Uma atitude preocupante.

Fico feliz que tenha percebido tal assimetria, e assinalado isso numa carta. Existe, dentro de setores da direita, a percepção de que a Olavo tudo é permitido. Ele pode humilhar publicamente seus desafetos, com piadas e trocadilhos infames, sem que qualquer um de seus alunos ou seguidores se levante, indignados com a injustiça, em nome de um “espírito cristão”.

Creio que o problema reside, especificamente, na teia hierárquica criada pelo filósofo ao longo dos últimos anos, e não em uma animosidade ideológica entre liberais e conservadores. E isso é animador para sua perspectiva de uma possível aliança entre os segmentos. Retirando a turma do professor da Virgínia, a relação de nós liberais com conservadores segue boa como tem que ser — a ponto de termos recebido a solidariedade de importantes lideranças conservadoras nos últimos dias.

Saiba que seremos sempre os primeiros a evitar contendas desnecessárias com figuras da direita brasileira. Não reagimos a anos de provocações de Olavo e seus membros mais proeminentes, e tampouco tomamos como pessoal as declarações de Bolsonaro sobre receber a marca MBL como presente na tentativa de fraude liderada por Alexandre Frota. Mas também não temos sangue de barata.

A lógica do confronto — que procura inimigos nos militares, na imprensa e especialmente na direita — uma hora ou outra encontraria no MBL seu inimigo da vez. Já esperávamos. Essa perspectiva, porém, não me parece ser das mais agregadoras, especialmente num momento em que Olavo e sua turma fazem parte do governo federal. É possível que se isolem cada vez mais: a despeito de cantarem vitória sobre os últimos dias, os sinais de insulamento tornam-se progressivamente mais claros. Não é bom para eles nem para o Brasil.

Concluo deixando a você meus mais sinceros votos de amizade, e uma firme convicção naquilo que você propôs: uma aliança altiva e frutífera entre liberais e conservadores, sem ameaças ou submissão. Nestes termos, seremos sempre os melhores parceiros. Agradeço demais sua carta e sugestão e lhe parabenizo pela iniciativa num momento tão turbulento da política nacional. Um abraço!