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Estudante interrompido, músico frustrado, cozinheiro irregular e fundador (e membro mais controverso) do MBL - Movimento Brasil Livre.
Previdência: uma epopeia política enfim resolvida. Aos responsáveis, uma homenagem…

Ainda que num momento atribulado, os agentes políticos tiveram a sabedoria de fazer o que deles não era esperado.

11/07/2019 01h39

Custo a acreditar nos memes recém postados no instagram do MBL. De fato, ao longo da última quarta-feira, dezenas de milhares de pessoas entregaram seu like — ou uma inocente “joinha”, se preferir — às postagens referentes à Reforma da Previdência, tema que tomou de assalto o debate público e não mais o devolveu até o fim da última tarde.

O brasileiro, por diversas razões, comprou a pauta da reforma. Seja pela crise econômica, pelos 2 anos de convencimento, pelo carisma do presidente ou pelo trabalho de Rodrigo Maia, o fato é que uma alteração importante se deu na mentalidade da classe média: aprovar uma reforma impopular importa. E isso fez toda a diferença.

As corporações não foram decisivas como eram outrora. Parte de seu poder fora mitigado pela opinião pública já citada; outra parte, corroída pelos efeitos do fim do imposto sindical — pauta capitaneada pelo amigo Paulo Eduardo Martins e objeto de luta do MBL desde 2016.

Sendo honesto, as únicas forças corporativistas a terem algum apelo político na reforma foram os professores e as forças de segurança. Os primeiros foram parcialmente atendidos, ato sábio; os segundos — contando com os auspícios do presidente da república — apenas barulho fizeram.

O resultado disso foi uma reforma robusta, potente, capaz de fazer frente a um déficit fiscal galopante. O Brasil ganhou sobrevida.

O assombro refletiu-se no placar: 379 deputados votaram favoravelmente à PEC, número muito acima do esperado por boa parte dos analistas. Diversos deputados do PSB e PDT fizeram sua parte; os ditos sabotadores do Centrão fecharam questão; as obstruções da extrema-esquerda foram vencidas e a votação foi coroada com um belo discurso em prol da (boa) política proferido pelo presidente da casa. Eduardo Bolsonaro e Ônyx aplaudiram.

Maia foi o protagonista no legislativo; cumpriu seu papel de líder da reforma na Câmara, mesmo sob fogo cerrado das redes ligadas aos filhos do presidente. Alvo de todo tipo de ataque, conduziu um processo próximo do sui generis junto ao dito Centrão: acostumados à bonança carguista nos tempos de PT e MDB, roeram o osso duro de Jair Bolsonaro. E entregaram os votos.

Bolsonaro também merece seu quinhão de mérito. Nunca me pareceu convicto na matéria, mas teve sabedoria em dar a ela o peso merecido. Seus 6 primeiros meses de mandato tiveram a reforma como protagonista — justo o que o Brasil precisava — , mesmo que sua cabeça estivesse entretida com outras agendas. Poderia ter feito mais? Sim. Mas como o resultado mostra, fez o suficiente.

É mérito seu o apoio incondicional a Paulo Guedes, autor da reforma aprovada pela Câmara. O economista conferiu a credibilidade necessária para um presidente cujo histórico liberal nunca convenceu. Entregou, tirou o peso das costas. Construindo pontes, pode ser a primeira de muitas reformas a serem conduzidas por este governo. Guedes sabe disso.

Nessa toada, seria injusto não citar Rogério Marinho, Mansueto e o time que participou do trabalho técnico e político no ministério da fazenda. E os especialistas, como Pedro Nery, que militam pela causa desde o governo anterior — tempos em que o atual presidente ainda era contrário à matéria.

Deve-se parabenizar também a equipe econômica de Michel Temer — em especial Henrique Meirelles e sua fala embolada — por ter trazido o tema da reforma à tona, com popularidade na casa dos 3% e Joesley batendo à porta. O debate sobre a reforma nasceu ali, gostem ou não os triunfalistas sem memória.

E memória não faltou ao nosso time de ativistas, que desde 2016 levantam a bandeira da reforma. Kim Kataguiri fora espécie de embaixador da previdência nas redes já em 2017; à época, protocolou emenda contendo regime de capitalização, formulada pela FIPE, sob tiroteio intenso da esquerda e da….direita. A “direita de verdade“, diga-se. O Brasil tem lá suas peculiaridades.

E se é pra voltar no tempo, não podemos nos esquecer de Hélio Zilberstejn e Stephen Kanitz. O primeiro, professor na FIPE, por defender uma ampla transformação no modelo previdenciário brasileiro — ainda não atendida — faça chuva ou faça sol no debate público; o segundo, por expor o tamanho do problema em idos de 1981 (!!!) , enquanto colunista da Revista Veja. Era um solitário arauto do desastre anunciado.

Não mais, Stephen!

As notícias correm rápido. O Wall Street Journal volta a falar do país com o otimismo de dez anos atrás. A reforma — ainda que paramétrica, sem incluir a capitalização — é poderosa o suficiente para motivar o espírito animal dos investidores. Será o suficiente para nos tirar do buraco? Creio que não. Mas evita o crash iminente.

É momento de comemorar. E de parabenizar os já citados — e tantos outros ora esquecidos! — pelo importante trabalho na reforma. A previdência foi uma pequena epopeia política; passou por Lula, Dilma, Temer e foi desaguar no governo Bolsonaro, em meio a uma crise política e econômica. Que não esqueçamos jamais aqueles que a trouxeram até aqui.

Boas articulações são feitas de momento, conversa, sola de sapato e convencimento. Não foi diferente desta vez. Ainda que num momento atribulado, os agentes políticos tiveram a sabedoria de fazer o que deles não era esperado. Surpreende? Sim. Foi diferente.

O Brasil agradece.