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Estudante interrompido, músico frustrado, cozinheiro irregular e fundador (e membro mais controverso) do MBL - Movimento Brasil Livre.
Previdência: o teste de fogo de Jair Bolsonaro

Por Renan Santos Não deu tempo nem pra ressaca. Tão logo a noite de domingo se encerrara,

30/10/2018 17h40

Por Renan Santos

Não deu tempo nem pra ressaca. Tão logo a noite de domingo se encerrara, entre lamentos da esquerda e rojões da direita, os desafios reais de um país em crise estacionaram na porta da residência do presidente eleito, sem qualquer cerimônia, e de lá não saíram até o momento presente. A crise fiscal que o país passa, somada às altas expectativas depositadas pelo mercado financeiro, impuseram que a discussão sobre a reforma da previdência – esquecida desde as tristes desventuras de Joesley Batista – voltasse ao centro do debate nacional.

Deixemos o que é acessório de lado: o debate moral e as dúvidas acerca do espírito democrático do capitão campineiro pautaram a disputa eleitoral, mas são de pouca serventia para a resolução dos problemas nacionais. A implementação de um novo modelo previdenciário e trabalhista – conforme planejado por Paulo Guedes – terá reflexos em todos os setores da economia e permitirá um fôlego orçamentário ímpar ao novo governo. Se bem executado, ensejará a Jair a construção de sua popularidade e seus planos de Brasil Potência – com bandidos em pânico e nióbio valorizado – em meio à bonança econômica que tanto deseja.

O primeiro passo a ser dado passa pelo governo atual; o presidente eleito deverá negociar junto ao congresso e seu antecessor a aprovação da aguada e conservadora reforminha de Meirelles, que altera alguns parâmetros do modelo previdenciário de partilha. Sua função é a de um tapa-buraco, um remendo de luxo em roupa rota. Permitirá, quando muito, uma queda na explosiva curva de déficit nas contas públicas. Algo longe de resolver o problema.

Durante sua pré-campanha, Jair Bolsonaro mostrou-se contrário à reforma de Temer, e prometeu votar contra. Fez uso de discurso por vezes falacioso, por vezes mal-informado; seu périplo pelo Nordeste fora marcado por falas atabalhoadas acerca da medida, confundindo sobrevida com expectativa de vida – conceitos diferentes e fundamentais para compreensão da tese da idade mínima. Mas aquele era o Bolsonaro em campanha – falando o que precisava ser dito para diferenciar-se do governo Temer e do tucanismo de adesão. Jogou a conta do déficit na “roubalheira” e correu para o abraço, aguardando a chuva de votos reservada para o ano seguinte.

O cenário perfeito para a equipe econômica de Jair conta com a aprovação desta reforma ainda em 2018, sob os auspícios de Michel Temer e Rodrigo Maia. Permitiria um clima de confiança perante os mercados e ofertaria tempo para que Paulo Guedes trouxesse à baila, ao longo do ano seguinte, seus ambiciosos planos para a economia brasileira. Mas falta combinar com os russos, diriam os exegetas de ditados futebolísticos. É pior: falta combinar com o próprio time.

A segunda-feira foi marcada por discursos contraditórios de Onyx Lorenzoni e Jair Bolsonaro. O primeiro rechaçava a ideia de reforma ainda este ano; o segundo, na Record, reafirmava sua necessidade e prometia reunir-se com Temer, na próxima quarta feira, para acelerar sua aprovação. O clima de bate-cabeça reforça a ideia de que o aparato político do presidente eleito ainda não se encontra entrosado, o que é natural neste primeiro momento. Mas a demanda por uma reforma desta monta – um gol de placa, caso resolvida – esconde desafios e dilemas que tirarão o sono de Jair e sua equipe.

É sabido que a boa vontade do establishment para com Bolsonaro tem prazo de duração e preço definido. As negociações com raposas da velha política – e não há julgamento de valor algum aqui – representarão uma sorte de atividade pública não muito praticada pelo time recém eleito. Terão que lidar com as contrapartidas da administração atual e as ambições de Rodrigo Maia, que pretende se reeleger na presidência da Câmara para os próximos dois anos. Arriscamos dizer que é este, exatamente, o temor de Onyx – entregar-se rapidamente ao Centrão que tanto combate encontrou nas fileiras do Bolsonarismo.

Praticar a boa política e manter os valores intactos parecem ser os guias fundamentais do discurso de Bolsonaro, e assim espera-se que seu governo seja conduzido nos próximos quatro anos. Outrossim, as expectativas por reformas e mudanças na linha econômica do país não poderão ser frustradas, e empurrarão a nova administração, inexoravelmente, para as mesas de negociação de gente cujo espírito republicano não é, exatamente, sua maior característica. Será um desafio e tanto.

O elemento surpresa poderá ser a opinião pública: recheado de legitimidade, o novo governo poderá contar com a boa-vontade – e a militância – dos milhões de brasileiros que batalharam por sua eleição nos últimos meses. As postagens na página do MBL e os discursos do deputado recém-eleito Kim Kataguiri reforçam essa expectativa.

Agora é aguardar e compreender os novos acontecimentos. Bolsonaro terá, finalmente, seu tão aguardado teste de fogo enquanto presidente.