Escritor de meia dúzia de artigos, comentarista eventual do MBLNews.
Precisamos falar sobre a “cristofobia brasileira”

Sobre como o radicalismo anticristão da esquerda progressista alimenta o sectarismo governista

28/01/2020 19h25

Em meio às polêmicas e confusões auto-impostas pelo governo, um assunto segue preservado, a fé cristã brasileira.

O combalido discurso eleitoral veiculado pelo presidente foi abalado quanto ao combate à corrupção, pautas liberais econômicas, formação de um corpo ministerial técnico e impessoalidade, além de outros, mas quando o tema é a defesa de valores religiosos, o atual governo segue com prestígio, sustentando firmemente a sua base.

Pode parecer pouco relevante, mas não é.

A crise brasileira não é apenas socioeconômica e governamental, mas especialmente moral. A religiosidade ainda é um dos poucos referenciais morais da sociedade brasileira. A moralidade ocidental foi talhada em princípios cristãos – recomenda-se a obra de Christopher Dawson – e a brasileira produto da fé católica – indica-se a obra de Paulo Mercadante.

O catolicismo teve seu alcance reduzido pelo anacronismo institucional e assistiu a progressão das igrejas evangélicas com sua flexibilidade de organização descentralizada, muitas vezes constituídas por fiéis de comunidades periféricas por lideranças populares, mesmo que sem recursos econômicos. A mensagem oferece conforto no sofrimento diário e esperança para uma progressão na condição pessoal pela perseverança e fé, mas se engana quem acredita que se baseia apenas em progresso econômico, pois a questão reside no encontro de sentido, propósito, através do acolhimento, vida comunitária e espiritualidade.

Quando o brasileiro comum é defrontado pela tragédia nacional, com altos índices de violência e pobreza, é no sentido moral, baseado nos regramentos elementares religiosos, em que se assenta o seu juízo – “não é falta de dinheiro, é falta de fé”. Segundo essa mentalidade, não são as ideias políticas adotadas que fomentam esses males como aumento do roubo ou assassinato, corrupção de agentes públicos e empresariais, mas a ausência de uma austeridade moral, a desconstituição da família e abandono dos valores como honra e honestidade, sujeitos à repreensão superior. Sem esses freios morais, o sujeito é propenso ao caminho das tentações.

Esse aspecto é repudiado pela mentalidade antirreligiosa progressista que alimenta a indignação de uma maioria, que é cooptada por por sectários que ocupam cargos no governo.

É uníssono o entendimento popular sobre a influência negativa do conteúdo de mídias, que confrontam e ofendem à fé religiosa. Em geral, a classe artística e produtora de conteúdo tem sua inclinação progressista, encampando o discurso contra os padrões morais “impostos pela sociedade”, provando intencionalmente o escândalo. Sob o apelo da diversidade, há um entrincheiramento da resistência artística, que visa eliminar qualquer opinião ou reprovação moral com raízes religiosas.

O episódio do conteúdo do “especial de Natal” da trupe “Porta dos Fundos” na mídia “stream” “Netflix” é a encarnação dessa ideia antirreligiosa, que somente é capaz de manifestar a afronta ou ofensa, sem qualquer grau artístico de humor. A liberdade de expressão, dentre as quais se inclui a artística, é inviolável contra qualquer ato de censura estatal – ainda que não compreendida pela grande maioria, mas do ponto de vista da estratégia é pura desinteligência, pois a reação relevante não será de uma decisão arbitrária que seguramente será revogada, mas no campo onde o indivíduo pode manifestar mais agudamente sua posição, qual seja no processo eleitoral.

Isso esclarece a razão pela qual o governo adota tantas medidas na área cultural que afetam diretamente a classe artística, sob um viés religioso grosseiro, mas que tem uma repercussão positiva em grande parcela da população, onde está o “cidadão comum”. O combate da classe artística, sob a imunidade de expressão é compreendida pelo homem médio como uma imposição, que legitima a interferência nesse campo pelo governo eleito para defesa desse eleitorado.

Qualquer grau de reprovação ou defesa de uma visão pessoal é demonizada publicamente, com políticas e aparato estatal para repreensão, com prevalência do discurso “politicamente correto”, que tolhe um dos principais elementos que definem a personalidade e o sentido existencial do ser humano, sua liberdade de crença e opinião. A indignação e revolta é absoluta, pois é imposta a submissão e aceitação de ofensas religiosas, enquanto as manifestações religiosas são criminalizadas ou objeto de linchamento público.

Não é diferente com o que ocorre no campo da educação, onde a intelectualidade despreza a opinião e crenças dos grupos majoritários, dão vazão para “terraplanistas” no principal cargo para gestão dessa área.

A atuação dos partidos de esquerda progressistas que erguem as bandeiras da diversidade condena a visão moral de cidadãos pertencentes à grupos religiosos ou apenas compartilham desses valores. Declaram a finalidade vital do seu propósito político a desconstrução social de padrões e valores morais, que são representados pelo sujeito comum, impondo sua visão de forma vertical, visando para tanto a obtenção e aumento da representação política para implementação das pautas de costumes.

O embate é transferido do campo dos costumes para a política, não sendo, por isso, surpreendente o crescimento dos políticos que integram a bancada religiosa ou compartilham desse discurso. É por essa razão que as políticas declaradas pelo Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos, através da ministra Damares Alves, com seu linguajar simples, goza de popularidade, para espanto daqueles que habitam um universo paralelo da classe política, artística, autoridades públicas e juventude universitária, elitismo a ser subjugado pela realidade.

No raciocínio imanentista e materialista da esquerda progressista, o interesse da maioria pobre brasileira é apenas de ascensão social e econômica, oferecendo promessas de benesses e prestações sociais, com políticas de combate à desigualdade, subestimando a capacidade de entendimento daqueles que, motivados pela fé – evangélica – sabe que o esforço pessoal e perseverança será recompensado com os resultados disso, como promessa bíblica, sem sacrifício dos mandamentos cristãos.

É a religião da maioria que está sendo subjugada pela representação das minorias, que tem alta representatividade em partidos políticos de esquerda, autoridades públicas, juventude universitária cosmopolita e intelectualidade.

Não é surpreendente que o Partido dos Trabalhadores, com vistas sempre à retomada do Poder, adote como estratégia a mudança de discurso e tenha pautas de aproximação desses grupos, orientados por sua liderança supra – provisoriamente em liberdade.

O caldo cultural que se extrai dessa situação fática permite compreender as aparentes contradições entre as imposturas presidenciais, as vezes autoritárias, toleradas pela sociedade, que conduz a uma sólida caminhada para a reeleição.

A radicalização do discurso religioso é muitas vezes produtos dessa repreensão de uma defesa política, que milita para a supressão da voz opositora. O autoritarismo ou sectarismo desse governo é o espelho do autoritarismo da religião secular e ideológica progressistas.