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Escritor de meia dúzia de artigos, comentarista eventual do MBLNews.
Popularização política e paixões políticas

A influência política na vida ou a vida influenciando a política? A paixão política e a politização

13/08/2019 15h03

A influência política na vida ou a vida influenciando a política? A paixão política e a politização

O genial Nelson Rodrigues é eterno por descrever com absurda nitidez a natureza do comportamento humano. Sobre a paixão política decreta: “nada mais cretino e mais cretinizante do que a paixão política. É a única paixão sem grandeza, a única que é capaz de imbecilizar o homem”.

Agora pense nos assuntos mais debatidos nos últimos dias. Agora, faça a seguinte pergunta: O que isso tem a ver comigo? Pergunto, então: seriam assuntos políticos? Já notou que os assuntos que nos têm envolvido diariamente são políticos? Mas esses assuntos são políticos ou da política? Possivelmente, são assuntos da política. Se não são, são assuntos que foram politizados.
Mas a política teria assuntos próprios? Certamente. Os assuntos próprios dizem respeito a negociar – diga-se, não negociata – e viabilizar politicamente os assuntos de interesse público. Não seria assim a política um fim em si mesmo, mas um meio? Na prática, porém, a política estaria atendendo à qual fim?


Antes disso, é preciso observar que a onipresença da política nos assuntos gerais está relacionada com popularização do debate político. A popularização é um fenômeno importante, mas que atrai um novo problema, a massificação das discussões, fenômeno imprevisível ou que não é fruto de planejamento, que favorece a formação de grupos conflitantes e logo a polarização. A polarização é a forma mais suscetível ao controle de interesses políticos de quem deseja se beneficiar, seja pela maior evidência que proporciona com maiores resultados eleitorais, como instrumento político de poder.


As novas ferramentas de comunicação claramente foram as maiores responsáveis pela popularização, pois amplificam as discussões políticas, incluindo vozes que não tinham qualquer alcance. O fenômeno da inclusão também permitiu que pessoas que não podiam exprimir sua opinião passassem a encontrar ambientes para se manifestar e realizar o sentimento de pertencimento. Como resultado de massificação, a maioria deseja estar dentro dos debates. Inegável a importância desse fato, como também é inevitável, uma vez que independe da vontade ou opinião de qualquer um. Ser contra ou tentar evitar isso é como era lutar contra a globalização. O que importa verdadeiramente é como lidar. A primeira reação é o regramento e controle. Péssima ideia. Alguns argumentarão que os ambientes digitais resultarão em práticas reprováveis. Quem define as práticas reprováveis? Propõe-se, então, a exclusão do debate de vozes que não são socialmente desejáveis? Já dá para concluir onde a iniciativa desembocaria. Como toda manifestação espontânea humana tem demonstrado ao longo da história é preciso se adaptar, ou seja, civilizá-la.


Nesse ponto os assuntos acima se encontram. Todos sabem como os fatos e notícias atualmente se propagam com ultra velocidade e alcance extremamente amplo. A apuração dos fatos é prejudicada facilitando a manipulação e a reflexão impossível favorecendo a simplificação da análise e opiniões. Rapidamente, vimos o uso de ferramentas digitais como os “bots” para propagação de notícias, fatos, entre outros fatores que influenciam a opinião pública, com origem nos mais variados polos ideológicos políticos. Surgem ainda os conflitos de opiniões que se formam, causando a perturbação em relacionamentos nos diversos ambientes, onde o convívio era pacífico ou mesmo tolerável. Some-se a isso o fenômeno da “politização”, onde todos tem de ter uma opinião e posição política decorrente principalmente da ideologização generalizada, protagonizada pelo movimento progressista.


A politização de todos os assuntos e a polarização resultam na absorção do indivíduo pelo debate político, que muitas vezes está condicionando as relações individuais, em todas as suas esferas culturais, familiares, educacionais, econômicas etc. O brasileiro não precisa e não deseja saber sobre o que sai do intestino do presidente, mas o que sai do presídio, como acontece na concessão de benefício a presidiário assassino da filha no dia dos pais. Isso, verdadeiramente, toca a moralidade dos brasileiros, que não conseguem se conformar ao contrariar o bom senso em nome de uma intenção genérica que não se mede por resultados práticos. Os poderes deveriam se debruçar sobre isso, mas preferem seguir uma norma em descompasso com a realidade. O brasileiro não quer saber se o ministro presidente do Supremo Tribunal Federal tratou de um plano B para a instabilidade política, mas se o partido que governou o país por quinze anos, além de se aliar com empresas criminosas, para comprar votos de políticos criminosos, também mantinha um diálogo cabuloso com organização criminosa que assola a segurança nacional e a democracia.


Tratar de assuntos sem alguma importância à vida prática brasileira com desdém à inteligência popular, de maneira até escrachada, não é populismo, é “populacho”. É descer o nível do debate público para o patamar mais baixo, com o sentido de incitar as paixões políticas, como forma de controle de massas, ainda muito imaturas.


As paixões políticas como escrito por Julien Blenda em “A traição dos intelectuais” “seriam a vontade do homem afirmar-se na existência real”, que pode representar o querer: 1) possuir algum bem temporal; 2) sentir-se enquanto particular”. Comenta que “Toda existência que despreza esses dois desejos, toda existência que persegue apenas um bem espiritual ou se afirma sinceramente em um universal, coloca-se fora do real. As paixões políticas, e particularmente as paixões nacionais, na medida que reúnem as duas vontades mencionadas, nos parecem essencialmente paixões realistas”. Mas ao transportar o querer individual ao coletivo (tratando do sentimento nacional) resulta em “querer-se possuidor do temporal em sua nação, querer-se distinto em sua nação, é querer-se sempre possuidor do temporal, é querer-se sempre distinto”. Complementa que “essa concepção é, ao mesmo tempo, relacionar essas vontades não mais a um precário e passageiro, mas a um ser ´eterno´ e senti-las dessa forma; o egoísmo nacional não apensas não deixa de ser egoísmo, por ser nacional, mas torna-se egoísmo, ´sagrado. Completemos nossa definição dizendo que as paixões políticas são um realismo de uma qualidade particular, e que não contribui com pouco para sua força: elas são um realismo divinizado. Nesse sentido, o processo de incitação e movimento da paixão política “exprime que ela se torna mais realista, mais exclusivamente realista e mais religiosamente realista do que nunca”.


A discussão política proposta de forma caricata ou barulhenta com o propósito de agitar as massas e produzir o fenômeno da luta pelo objeto da paixão política é efêmera e tem efeito limitado, pois despreza a inteligência popular, que se cansa e tem senso crítico, passando a desprezar seus personagens. Algum equilíbrio e habilidade são necessários como proposto a séculos por Maquiavel (embora suas ideais sejam responsáveis pelo fenômeno), mas também preservar alguma virtude nos termos propostos à milênios por Aristóteles.


Independentemente da consciência dos agentes políticos, o meio de imunização que se propõe é começar por um questionamento óbvio: “qual a importância disso para minha vida?”. Depois disso perguntar: “seria um problema relevante para a comunidade na qual estou inserido e seria de resolução pelo meio político?”. Essas duas questões auxiliam em identificar se os políticos estão tratando de um interesse relevante politicamente, uma vez que é para a viabilização da vida coletiva que a política tem importância. Ao identificar apenas questões de interesse exclusivamente político, especialmente partidário, é possível estar diante de um problema de representatividade popular ou engodo público.


Não se trata de ignorar as questões políticas, mas propor o debate público pelos interesses da vida privada e não o contrário. É preciso deixar claro que não se trata de ignorar as questões políticas e ter uma opinião com posição ideológico, especialmente como forma de vigilância e exercício da cidadania, mas sim de não permitir que se condicionem às questões públicas às questões banais ou meramente de interesse do agente político.
A dedicação à informação ao público em geral e atenção aos assuntos de caráter útil aos brasileiros serão a única vacina, que tem como fim a imunização dos indivíduos para proteção política coletiva.