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Escritor de meia dúzia de artigos, comentarista eventual do MBLNews.
Política, futebol e religião

Breves palavras sobre fiéis, torcedores, militante e dirigentes amadores

07/11/2019 09h02

A máxima popular diz que: “– política é como futebol e religião: não se discute!”.

Independentemente da correção da assertiva, é preciso salientar a sapiência comum, que consegue captar elemento importantíssimo civilizacional, o “fenômeno das massas” e seu comportamento.

Os três assuntos envolvem questões coletivas, que são conduzidas a partir da prevalência das emoções em detrimento da razão, cada qual afetando uma forma de crença, resultando em conduta volátil, impulsiva e irascível, sendo, por isso, altamente sugestionada e crédula.

Não é difícil encontrar exemplos de comportamento do fanático religioso que se enfurece como um torcedor de arquibancada e age como um revolucionário de uma causa política. Independentemente de seu intelecto, um cientista ou um metalúrgico podem defender suas convicções, com o mesmo argumento e grau de agressividade, demonstrando a força das emoções de massa.

Os padrões de comportamento são similares, de modo que as vezes o político parece um líder religioso ou dirigente de clube e seus seguidores pessoas fanáticas.

Ao observar a estratégia e comportamento do atual governo, não é difícil compará-lo à gestão política do passado do meu clube de coração, a Sociedade Esportiva Palmeiras, conhecida por sua vida turbulenta e atitudes passionais, fanáticas de seus torcedores e dirigentes.

O time passou por uma fase de sofrimento, acumulando derrotas e vexames, enquanto seus dirigentes se digladiavam, utilizando os mais artifícios de boicote e obstrução de qualquer ação em prol da instituição, em vistas de acúmulo de poder em torno da manutenção na direção.

Nada era tratado de forma discreta ou internamente, sendo recorrente e constrangedoras as revelações das disputas internas. Aparentemente fora da dinâmica eleitoral política, estavam grupos de torcida organizada, que supostamente serviam para os interessados em apoiar o esquadrão em campo, agiam de forma externa para intensificação e interferência nos problemas internos da agremiação, sem termos a exata compreensão das motivações, além da chamada “Torcida do Amendoim”, cuja manifestação sempre ressoava no gramado sagrado.

Fora isso, havia os apaixonados pelo clube, quase a unanimidade, que sustenta sua vida e justifica sua existência, sempre dispostos a apoiar, mesmo em fases terríveis, sempre na expectativa de superação e êxitos. Entre os torcedores, o normal é a discussão de opiniões sobre as escolhas e atuações, sem qualquer sentido racional ou baseado em informações adequadas, bem como a defesa veemente contra os demais adversários, igualmente sustentado por um professor e um operário.

Acompanhando esse cotidiano, é nítido como um país pode ser dirigido como um clube, de forma amadora e apaixonada, com caneladas recorrentes, traições, conflitos explícitos beirando a baixaria. Para compreensão, basta observar o dito popular enunciado.

A breve obra de Gustav Le bon, “A psicologia das multidões”, brilhantemente destrincha o fenômeno. Demonstra o raciocínio coletivo prejudicado, que distorce o pensamento e entendimento sobre os fatos objetivos:

Os raciocínios inferiores das multidões, tal como os superiores, baseiam-se em associações, mas as ideias associadas pelas multidões só têm entre si laços aparentes de semelhança ou sucessão. A associação de coisas dissemelhantes, que apenas têm relações aparentes, e a generalização imediata de casos particulares são as características da lógica coletiva.

A razão mostra-nos a incoerência de tais imagens, mas a multidão não se apercebe dela e, por isso, tudo o que a sua imaginação deformadora acrescentar ao acontecimento será confundido com o próprio acontecimento. Incapaz de estabelecer a separação entre o subjetivo e o objetivo, a multidão aceita como reais as imagens evocadas no seu espírito e que, a maior parte das vezes, só têm uma relação longínqua com o fato observado
.

O entendimento sobre essa dinâmica favorece a manipulação em desfavor do raciocínio lógico e moderado, que carece dos mecanismos e linguagem para convencimento das massas, como realiza o atual projeto de poder, lideranças religiosas e clubes de futebol:


São associações deste tipo que são sempre apresentadas às multidões pelos oradores que as sabem manejar, pois são as únicas capazes de as influenciar; uma sequência de raciocínios rigorosos seria completamente incompreensível para as multidões e por isso se pode dizer que elas não raciocinam ou raciocinam erradamente ou não são influenciáveis pelo raciocínio.

Como a multidão só se deixa impressionar por sentimentos excessivos, o orador que a quiser seduzir terá de usar e abusar das afirmações violentas. Exagerar, afirmar, repetir e nunca tentar demonstrar o que quer que seja pelo raciocínio, são os processos de argumentação utilizados pelos oradores das reuniões populares.

A paixão e mobilização devem ser constantes devido à sua condição volátil e inconstante, alimentando a crença de forma cada vez mais fundamentalista, incapaz de assimilar as diferenças e discordâncias, deformando os fatos para eliminar as contradições, como vemos com torcedores, militantes e fiéis:

O autoritarismo e a intolerância são, para as multidões, sentimentos muito claros, e suportam-nos com a mesma facilidade com que os praticam. Respeitam a força e pouco se deixam impressionar pela bondade, que facilmente consideram como uma forma de fraqueza, sempre favorecidos pela sensação de não identificação e irresponsabilidade:
A violência dos sentimentos das multidões, e sobretudo das multidões heterogêneas, é ainda ampliada pela ausência de responsabilidade. A certeza da impunidade, tanto mais forte quanto mais numerosa for a multidão, e a noção de um poder momentâneo bastante considerável, devido ao número, tornam possíveis no grupo sentimentos e atos que eram impossíveis no indivíduo isolado. Nas multidões, o imbecil, o ignorante e o invejoso, libertam-se do sentimento da sua nulidade e da sua impotência, que é substituído pela consciência de uma força brutal, passageira, mas imensa.

A compreensão dessa dinâmica permite assimilar a estratégia empregada pelo grupo político no poder, que investe na dissensão interna com esvaziamento dos grupos opositores, incitando a indignação externa para pressão em seu favor e pouco espaço para raciocínio e mais para ações apaixonadas, como ocorreu ostensivamente na política do time alviverde.

Nesse contexto, havia um grande problema, a falta de resultados e vitórias. Durante os tempos de sucesso em campo, qualquer ação era tolerada e irregularidade ignorada, mas a sucessão de derrotas e ausência de conquistas importa na desmobilização das bases de apoio, aumento da pressão interna e externa e maior dificuldade de direção no poder.

Se há um aprendizado nisso, é: presidente, declarado torcedor alviverde, a estratégia de condução das massas é arriscada e insustentável, sempre exigindo além da motivação com palavras, resultados e conquistas para que sua torcida siga lhe apoiando fanaticamente.

De outro lado, é preciso compreendermos a necessidade de ferramentas de comunicação e linguagem que atinjam à alma das massas para fazer frente à força que a conduz no momento, evocando o poder dos símbolos e emoções dignas cravadas em seu interior.
Precisamos apreender a discutir política como futebol e religião, compreendendo os mecanismos das massas.

Sobre isso, o grande Nelson Rodrigues dizia: “Muitas vezes é a falta de caráter que decide uma partida. Não se faz literatura, política e futebol com bons sentimentos.”