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Professor de Filosofia, violinista, coordenador do MBL Bahia e organizador do debate "Os EUA e a Nova Ordem Mundial" (Vide Editorial).
Os pudores dos isentões da direita

Recentemente, nós do MBL Bahia fizemos um ato bastante provocativo. Tivemos a ideia de ensaiar um “enterro”

21/11/2018 19h19

Recentemente, nós do MBL Bahia fizemos um ato bastante provocativo. Tivemos a ideia de ensaiar um “enterro” simbólico do PT, a fim de celebrar a perda de hegemonia desse partido, processo coroado na eleição de Jair Bolsonaro. O local que escolhemos para realizar o ato foi a Universidade Federal da Bahia (UFBA), palco de numerosíssimos – e, praticamente, exclusivos – eventos de protesto, homenagens, discursos, propagandas e toda sorte de expressões da esquerda baiana. Lá chegando, o coordenador Siqueira Costa Jr. viu um cemitério montado. O que seria aquilo? Era uma “obra de arte” em homenagem às vítimas do “feminicídio”. Ele não pestanejou: foi lá e fez a filmagem do “enterro” do PT no próprio cemitério deles.

Particularmente, achei um senso de oportunidade brilhante. O ato, em suma, não infringia a lei, não agredia ninguém, não usava nudez, nem tampouco destruía a “obra de arte” feita pelos vermelhos na UFBA. Apesar das precauções, o contexto era propício para a eclosão, lá do úmido habitat em que vive, dessas criaturas timoratas, pouco ariscas, porém sempre prontas a darem as suas opiniões insossas, a saber: os “isentões de direita”.

Acusavam-nos de sermos a “direita lacradora”, de fazermos pouco caso da liberdade, de provocarmos a esquerda sem necessidade, de caçarmos likes, de “perder a mão”, em suma, de nos excedermos. Longe de nós criticar a sensibilidade alheia. É justo não simpatizar com o ato? É justo não se ver participando do ato? Claro que é. O que nos chama a atenção, contudo, são os pressupostos elusivos da crítica, que escondem, afinal, uma compreensão fundamentalmente errônea do que é ser de esquerda e dos motivos pelos quais se deve combatê-la.

O isentão de direita não é bem um isentão. Ele não se põe “em cima do muro”. Antes enxerga certa superioridade intrínseca no modo mais educado, civilizado e “inteligente” com que ele, supostamente, combate a esquerda (pois a efetividade da ação do isentão é muito discutível), em contraste com o modo grosseiro e tosco com que a combateríamos. Assim, ele acredita que a esquerda é inferior porque bárbara, burra, lacradora, sensacionalista e que a direita pode ir pelo mesmo caminho ao copiá-la, ao emular os seus piores vícios, o seu modo essencial de ser.

Essa caracterização não é correta. A esquerda não é, essencialmente, nem bárbara, nem burra, nem lacradora, nem propriamente agressiva. A caricatura serve para desenhar o tipo de militante arraia-miúda comum hoje em dia, mas não resume a esquerda, tampouco revela os traços essenciais do fenômeno.  Plekhanov, Lukacs, Adorno, Meszaros, Antônio Gramsci são homens de erudição imensa, muito educados, refinados ao extremo e não consta que tenham sido particularmente agressivos na sua conduta pessoal. Stálin fazia calmos discursos no Politburo enquanto maquinava o assassinato de rivais. Um espião treinado pela Stasi aprendia a controlar as emoções e a agir com eficiência letal. Esses três tipos supremos – intelectuais, governantes, membros da polícia secreta – nem são burros, nem “bárbaros”, nem grosseiros, nem lacradores. E, no entanto, são representantes máximos do engajamento na esquerda marxista, em certo sentido, a esquerda arquetípica desde 1917.

A confusão provém do fato de que o critério do isentão não consegue apreender o essencial do fenômeno, visto se tratar de um critério estético superficial. O isentão se incomoda por questões, por assim dizer, de estilo. Ele não gosta do estilo da esquerda. Aquelas manifestações barraqueiras, a gritaria, a efervescência da bagunça, a gente tosca e feia acotovelando-se – tudo isso fere a modalidade urbana anódina do senso estético, que lhe parece um valor civilizacional elevado, abrangente ou mesmo universal. Essa é a raiz das expressões “direita xucra”, gente de “má estirpe” – e também da irritação acicatada por atos mais sensacionalistas. Tudo superfície.

A “lacração” nunca foi um princípio da esquerda. Ela é uma tática, de uso recente, mais convencionalmente utilizada a partir de maio de 68 e sistematizada nos meios de esquerda norte-americanos. Ela expressa também, ao nível da formação da militância, a sensibilidade estética em voga na esquerda contemporânea, atrelada que está a certos pressupostos das pautas identitárias. Entretanto, continua sendo uma mera tática, datada, específica, e cujo evidente malogro já tem alertado aos melhores espíritos da esquerda para a necessidade de substituí-la. O uso do sensacionalismo, atos ensaiados, provocações é também um uso instrumental, em contrapartida, eficaz nas mãos da direita. Tal eficácia se explica pelo clima de quebra de dogmas, de ruptura de sistemas que a direita tem, vez que se encontra em um polo contrahegemônico (onde não irá se conservar eternamente, convém lembrar). A essa explicação, se aduz a consonância de valores e imagens simbólicas com o nosso estrato psicossocial.

Mais ainda, a esquerda não é burra. Ela continua a ter, a meu juízo, clara superioridade intelectual média frente à direita brasileira. E a agressividade tampouco é o grande mal exclusivo dos gauche. Há militância de direita, no Brasil, bastante agressiva. O que a esquerda mostra, nas versões mais categóricas e representativas, em matéria de realização histórica, e que justifica o mais acirrado embate, não é agressividade, mas uma gigantesca profusão de crimes, que vão do genocídio e da eliminação de opositores até a manipulação psicossocial bruta, corrupção estrutural e várias modalidades de estelionato.

Opor-se a ela por questões de estilo, longe de mostrar qualquer superioridade, revela superficialidade, porquanto se baseia na elementar confusão de traços acidentais com traços essenciais. O nariz torcido do nefelibata da vez é uma pose e, como tal, exige ratificação pelos pares. Daí os isentões lamberem uns aos outros, incessantemente, se iludindo ao acreditarem que estão tentando preservar valores culturais ameaçados, mesmo quando não tem nem uma atuação no campo da cultura. Não que inexistam perigos à espreita. Os valores culturais, na nova direita brasileira, de fato, estão ameaçados (e na esquerda também, por razões algo diversas). Contudo, eles, definitivamente, não estão ameaçados por atos sensacionalistas, provocações, balbúrdias, pelejas, confusões. Tais subprodutos do embate das militâncias não ameaçam valores culturais. O que os ameaça, dentre outros perigos, e considerando o nosso cadinho social, é a preguiça intelectual e a arrogância. A direita peca pelo excesso de gente inculta em posições de prestígio cultural, leitores sem leitura, formadores de opinião cujas opiniões são as mesmas de todos os outros. Na direita, este problema não nasce do sensacionalismo da militância e nem se pode alegar, contra ele, que estamos ficando iguais à esquerda, pois os motivos significativos pelos quais se deve combatê-la são de natureza moral, histórica, civilizacional e espiritual. Quando se tornam incômodos em matéria de gosto e polidez perdemos o horizonte genuíno da luta. Essa é a razão pela qual o alegado repúdio da “direita fina” pela “direita xucra” não passa de mais uma tomada de posição falseada no teatro mental das auto-ilusões subjetivas.