Estudante de direito, jogador de futebol quando a dor nas costas permite e um liberal radical
Os gurus em: o (des)combate à corrupção

Zé Dirceu e Olavo de Carvalho lançam narrativas contra o combate à corrupção

12/02/2020 08h35

O combate à corrupção, no Brasil, continua sofrendo fortes ofensivas. Dessa vez, entretanto, as ofensivas não foram exclusividade da esquerda, a ala mais radical da direita também entrou nessa patota.

Em artigo publicado na sua coluna/blog no Metrópoles, o principal estrategista político do PT, José Dirceu, alega que: “Em resumo, todos os presidentes que fizeram governos genuinamente nacionalistas e com medidas pró-trabalhadores foram atacados por campanhas anticorrupção”. Em bom português, na cabeça do petista, o combate à corrupção é uma ferramenta usada pelos poderosos para prejudicar os pobres. No intuito de adotar ideias socialmente aceitas/aceitáveis, Dirceu diz que o combate a corrupção é necessário. Contudo, deve ser voltado às grandes empresas privadas e detentoras do capital. A FIFA, por exemplo.

Por fim, em uma conclusão controversa – para não dizer canalha – o petista afirma:

“A bandeira da corrupção e a militância político-partidária também já levaram outros nomes, além de Sergio Moro, da estrutura do Judiciário para a arena política. E são exemplos que vão de mal a pior, como Demóstenes Torres e Pedro Taques. Ostentar tal bandeira mexe com egos e projeta a construção de heróis nacionais, personagens que trazem, infelizmente, mais danos do que benefícios para a democracia”.

Isto é: a corrupção é errada, mas justificável, e é o meio para manter a democracia. Sem ela, os governos populares anti-capital não conseguem proteger o país contra os imperialistas e exploradores.

Em pensamento análogo, Olavo de Carvalho e alguns de seus discípulos começam a marginalizar o combate à corrupção. Nos tweets do astrólogo: “A “LUTA CONTRA A CORRUPÇÃO” dirige a ira popular contra meros símbolos para desviá-la do inimigo substancial”, “ “Luta contra a corrupção” é METONÍMIA”, etc.

Ou seja, o combate a corrupção é um mero pão e circo, não há efetividade real no dia a dia das pessoas que querem saber de segurança pública. Dessa maneira, se não mostra resultados, pode ser descartado. Enorme engano.

O combate a corrupção, principalmente na Lava Jato, foi um fator fundamental para a derrocada da esquerda e ascensão da direita. Nega-lo é renunciar a principal origem do nosso espectro político.

Outrossim, Olavo parte de uma premissa verdadeira: a segurança pública é tão importante quanto o combate a corrupção. No entanto, as conclusões obtidas são distorcidas pela necessidade de se adequar à militância cega ao presidente e seu sobrenome – mesmo que isso signifique fugir da realidade.

Ambos os gurus, Dirceu e Olavo, tecem suas narrativas – o xadrez 4D, em dialeto bolsonarista – com a imagem de um líder a ser salvo, de um ser metafísico que deve ser isento de toda e qualquer crítica. É o ser que está acima de qualquer erro mundano. Afinal, a luta dele não é humana, é heróica. Os erros no caminho são necessários para alcançar o fim maior: a pátria livre dos exploradores capitalistas, para Lula; e a pátria livre do comunismo, para Bolsonaro.

A experiência mostrou que o brasileiro não quer saber de impunidade para corruptos, independente de qual seja seu espectro político. Excluem-se dessa equação os gados e mortadelas – desses dois não há nada a se esperar além de subserviência, venda nos olhos e indignação seletiva.