Estudante de direito, jogador de futebol quando a dor nas costas permite e um liberal radical
Os dilemas bolsonaristas

A “direita verdadeira”: nem verdadeira, nem direita

21/01/2020 09h04

O primeiro ano de governo Bolsonaro foi consumado. Foi um ano intenso, com conquistas importantes: aprovamos a reforma da previdência, a mais importante, hoje, para o país; a economia cresceu, resultado da confiança passada por Guedes e do trabalho feito anteriormente por Temer; os níveis de segurança melhoraram, graças ao trabalho do Ministro Sérgio Moro; dentre outras tantas mudanças positivas. Mas nem só de flores vive o governo. A crise moral e existencial que atinge o planalto é grave, desde discursos e expectativas eleitorais quebradas até a distorção da realidade para manter o mínimo de dignidade.

“O mito vai mudar tudo”. Esse foi o discurso adotado pela militância pró Bolsonaro durante o pleito presidencial, em 2018. É um discurso que apela para o páthos – fala voltada para a emoção do receptor. Nesse caso, apelou para a indignação do povo que foi às ruas protestar contra o Partido dos Trabalhadores, contra a corrupção e contra o modo de governar que ficou popularmente conhecido como velha política. Bons exemplos dessa política carcomida: o loteamento de ministérios, as negociações pouco virtuosas, o congresso pautado pelo fisiologismo…

O atual Presidente da República utilizou desse sentimento de aversão ao establishment para se posicionar como um outsider, aquele que nunca foi tocado pela mão tóxica da velha política, mesmo estando no sistema por quase três décadas. E, por isso, seria a pessoa mais indicada ao cargo e à resolução dos problemas da nação de maneira imediata.

Sim, o “mito” foi eleito, mas não mudou tudo. E o preço de promessas imediatas é a cobrança imediata. Na verdade, o ritmo das mudanças não condiz com o imediatismo prometido na época de campanha. Outras ações do governo também não foram vistas com bons olhos, como a possível indicação do filho para a embaixada. Afinal, as indicações seriam todas técnicas, livres de interesses pessoais e de olho no melhor para a nação.

Consequentemente, a população ficou insatisfeita, como apontam as primeiras pesquisas de popularidade. Nessa situação, os influenciadores governistas começaram a mudar o discurso para “ao menos acabou a corrupção” ou “na época do PT era pior”. Inegavelmente, o Partido dos Trabalhadores roubou bastante. Contudo, utilizar a maior organização criminosa da história desse país como régua moral me parece, no mínimo, tolo. No entanto, a narrativa parecia estar dando certo. Os “engenheiros de narrativa” do Governo Federal só deixaram um acontecimento de lado: o caso Queiroz. Caso este que, antes mesmo da posse de Jair, assombrava o governo. No fim das contas, é um escândalo que envolve um dos filhos e um amigo e funcionário de longa data do presidente.

Com os desdobramentos do caso, a população foi percebendo que o sobrenome Bolsonaro não era sacrossanto. Principalmente no momento em que Flávio pediu para barrar as investigações, medida aceita pelo ministro e presidente do STF Dias Toffoli. As ações do Executivo também não ajudaram. Ao demitir o chefe do COAF, Roberto Leonel, por criticar a decisão e intervir na PF do Rio de Janeiro (órgão responsável pelas investigações do filho), Jair Bolsonaro evidenciou que o esqueleto no armário o assombra.

Agravando ainda mais a situação, o Presidente da República fechou uma espécie de “acordão” com Dias Toffoli, Rodrigo Maia e Davi Alcolumbre, presidentes do STF, da Câmara dos Deputados e do Senado Federal, respectivamente. Esse acordo consiste em uma série de medidas para enfraquecer o combate à corrupção e sustentar a impunidade. Parte desse acordo também culminou no enfraquecimento da operação Lava Jato, na indicação de Aras para a PGR (homem conhecido por dar festas à cúpula Petista), dentre outras consequências. Em razão disso, houve mais uma redução na base de apoio do presidente, os “lavajatistas”.

Restou aos youtubers oficiais do governo adotar a narrativa desesperada do petismo, aquele mesmo inimigo que Jair jurou combater. Era necessário, afinal, deixar o homem trabalhar. Ora pois, o governo descobriu os números da economia, ministrada pelo liberal Paulo Guedes. Por que não os explorar? Afinal, o brasileiro quer saber é do próprio bolso. Foi assim que João Santana reelegeu Lula pós mensalão. E, sinceramente, o que mais Jair poderia fazer após seu isolamento e enfraquecimento na esfera da direita? Muito pouco. Cabe aos seus youtubers oficiais esgoelarem os números obtidos pelos liberais.

Por fim, os marqueteiros do Twitter precisam fazer o cada vez mais enxuto grupo de apoio do presidente se manter fiel. Nessa luta retórica vale tudo, até mesmo criar campos de distorção da realidade. Para tal, criam uma nova verdade a partir de elementos de razão cuidadosamente apresentados. Definem comportamentos, gostos, sentimentos e desejos. É a criação de um novo axioma, em determinado tempo e espaço. Mas algo planejado, controlado, que abrange um grupo cada vez menor de pessoas.

Enquanto a base do governo diminui, a militância enxuta continua no mundo da lua e os liberais se tornam a salvação. É a história se repetindo.