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Estudante interrompido, músico frustrado, cozinheiro irregular e fundador (e membro mais controverso) do MBL - Movimento Brasil Livre.
Ora ora…o hacker era brasileiro! O que isso explica em tempos de ‘narrativas’ políticas?

Como ficam os ‘pavões’ nessas horas?

23/07/2019 22h03

E pegaram o hacker responsável pelas invasões ao celular do ministro Sérgio Moro. Aleluia! Soava como escárnio que um grupo de criminosos cibernéticos tenha invadido os aparelhos celulares de toda uma operação contra a corrupção — incluindo aí juízes, promotores e até o ministro da justiça — impunemente, com um procedimento tão fácil.

Sei disso pois o celular do meu irmão, Alexandre, foi alvo de invasão similar — provavelmente do mesmo grupo. Alguns jornalistas, que cobriam a Lava Jato, também. Sabíamos desde o início que era uma operação articulada, com objetivo específico e endereço certo.

Os detalhes das prisões de Walter Delgatti e Gustavo Henrique Elias Santos, ainda não revelados, trarão muitas informações sobre os meandros da operação criminosa. Quem foi o mandante? Qual a escolha dos alvos? Houve pagamento? Por que a escolha do Intercept?

Muitas dúvidas estão postas sobre a mesa — mas determinadas certezas já podem ser cravadas. A primeira é que a hipótese originalmente aventada por muita gente — a de que Glenn Greenwald possuía ‘vazamentos’ de procuradores ligados à Lava Jato — não tem muita chance de prosperar.

A própria natureza dos vazamentos — conversas específicas entre Moro e Dallagnol, por exemplo — já demonstrava isso.

A segunda — e mais, digamos…hypada na direita — remete à teoria conspiratória do ‘Pavão Misterioso’, um perfil falso ligado a grupos bolsonaristas no twitter, que chegou aos trending topics apresentando supostos vazamentos de Glenn Greenwald. Sua tese mescla bitcoins, hackers russos e Interpol — uma receita perfeita para doidivanas do chapéu de alumínio.

A hipótese ganhou corpo através de youtubers como Bernardo Küster e Nando Moura, ainda que não apresentasse sinal algum de materialidade em suas alegações. Mas em tempos de ‘pós-verdade’ e ‘guerra de narrativas’, de que importa? Milhares — possivelmente até milhões! — de pessoas caíram no truque barato da rede bolsonarista, ao ponto de até filhos do presidente da República, como Carlos Bolsonaro, repetirem a mentira com ares de sabichão.

Alguns poderão alegar ‘Renan….mas não era importante deslegitimar esses vagabundos acusando a Lava Jato?‘ — no que eu respondo: com mentiras, jamais! O que fizeram com o debate público nos últimos meses — do Intercept aos perfis ligados ao governo — é de uma barbaridade atroz.

Aproveitaram-se da agonia de uma população indignada para testar métodos de manipulação, técnicas de narrativa e discursos histéricos para inglês ver. Bots e fakes mil foram utilizados; um povo inteiro foi feito de otário com essa situação.

Quem acompanhava a história de perto sabia que os hackers eram brasileiros. Diálogos em bom português , conhecimento profundo sobre a Lava Jato, conversas se passando por promotores e juízes: era óbvio que as invasões aconteciam por aqui.

Além disso, a própria natureza da invasão dos celulares — um truque de ‘protocolo SS7’, que tem até tutorial no youtube — demonstra que ‘grandes hackers russos’ não eram necessários. A operação podia ser tocada daqui.

Melhor. Com os criminosos em cana, poderemos descobrir, de fato, se foi uma operação isolada ou organização criminosa. Eventuais dúvidas sobre a ligação com o site Intercept ou mesmo financiamento por parte de partidos e investigados na operação Lava Java poderão ser esclarecidas.

O sucesso da operação da PF traz luz não apenas a um caso tão imporante, mas também a um debate público tomado de mentiras. Que a verdade venha à tona, pois como gostam de falar nas plagas da direita ‘Deus Vult’, ela vos libertará!