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Estudante interrompido, músico frustrado, cozinheiro irregular e fundador (e membro mais controverso) do MBL - Movimento Brasil Livre.
Olhos vazios de Bolsominion

Um encontro com um amigo que foi fisgado pelo fanatismo

16/05/2019 11h53

Esse não é um texto fácil ou bacana — tampouco constatação para publicar nas redes do MBL. A maioria das pessoas que se engajam nessas discussões é pouco afeita a críticas a seus ídolos, e sente-se especialmente afrontada quando analisamos alguns comportamentos humanos que por vezes….passam dos limites.

Estive ontem em Brasília, numa curta passagem após dois dias em Goiânia, com o MBL local. Visitei o Kim, discutimos política, almoçamos. E caminhei pelo salão verde — que estava estranhamente quieto para uma quarta feira — até ser abordado por um amigo que trabalhava na Congresso e hoje está no governo federal.

Não vou revelar seu nome nem maiores detalhes pois seria deselegante. Mas é um amigo, desde a época do impeachment. Alguém que nos ajudou e orientou na luta contra o petismo, nas pequenas vitórias que construíram a queda de Dilma Rousseff. Alguém que não só eu, mas boa parte do MBL devota admiração.

Esse amigo foi direto ao ponto. Falando sem parar, sem dar pausas para minha réplica, afirmava que estávamos sabotando o Brasil. A razão? Éramos o único movimento a não “estar” com o governo. Era isso mesmo: o fato de não estarmos 100% alinhados com a presidência da república nos converteu em sabotadores, torcedores do “quanto pior melhor“.

Não sei exatamente onde foi o ponto de inflexão em que ser independente tornou-se problema. Lembro-me dos tempos de impeachment. Ser independente era condição sine qua non. Criticávamos — com razão — o servilismo de movimentos, grupos de pressão e sindicatos ao petismo. Gritávamos aos quatro cantos nossa independência. Ser governista era motivo de vergonha, e não apenas pelo governo da ocasião! Era demanda das ruas…

Mas agora é sabotagem. Já havíamos percebido isso. Amigos de outrora, convertidos ao governismo, rompem relações com quem critica o presidente e seus prosélitos. Outros tantos, desde os tempos de pré-campanha, já haviam se engajado na missão santa em nome do ocidente, da luta contra o establishment, da restauração da alta cultura. Tornaram-se escolhidos, ungidos, selecionados. Cruzados de uma nova era. Gente estranha, que não te olha nos olhos, e parece vidrada em uma missão maior que o mundo, que apenas poucos podem compreender. Eles no caso.

Já vi isso com amigos petistas na época da faculdade. Não aceitavam, em idos de 2005, que se ousasse criticar os rumos adotados pelo governo. Fechavam a cara, abandonavam o bar, cortavam relações. Ensimesmaram-se na sua missão sagrada até descolarem-se da realidade, num mundo particular onde o mensalão era ficção e Lula não sabia de nada.

É o mal do fanático. Perde a humanidade, torna-se vazio. Não quer saber de mais nada. Enxerga apenas aliados e inimigos. Aliados, no caso, servis. Não aceitam parcerias altivas, gente insubmissa. Ou baixa a cabeça ou é traidor. Da revolução. Do Brasil. Do bem.

Meu amigo sabe que o bolsonarismo atacou minha família, sem piedade, buscando deslegitimar o MBL. Que apoiou a tentativa de roubo de nossa marca, para fechar nosso escritório e tirar nossas redes do ar. Que é instrumentalizado por um filósofo maluco que tentou golpe militar e “intervenção popular”– leia-se invasão do congresso — durante o impeachment de Dilma Rousseff. E que teve, como retribuição, apoio no segundo turno e uma campanha incansável pela previdência e as privatizações no atual governo.

Mas para o fanático, isso não é o bastante. Querem todos de joelhos, longânimes, obedientes. Querem que nos tornemos aquela gente estranha, com olhos vazios, que denunciava o “golpe” contra a presidenta honesta enquanto o mundo caía ao seu redor. Eram olhos vazios de petista.

Hoje, meu amigo tem os mesmos olhos. São olhos de Bolsominion.

Fico triste por ele.