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24 anos, formado em Relações Internacionais (ESPM) pós-graduado em Ciência Política (FESPSP) e mestrando em Gestão e Políticas Públicas (FGV).
O verde e amarelo como bandeira eleitoral

A polarização entre cores nos últimos anos e seus simbolismos

20/09/2019 15h26

As manifestações de 2014 precisavam se distinguir de alguma maneira das manifestações dos 20 centavos e das manifestações dos “vermelhos”. Pois bem, o MBL e diversos outros grupos assumiram a estética verde e amarela para suas manifestações (em menor grau Aécio Neves já utilizara na disputa presidencial de 2014).

Antes de escrever esse texto, debati com um amigo que acreditava que a tônica verde e amarela já existia, mais precisamente por meio do futebol em tempos de copa do mundo. A diferença é que em 2002, 2006, 2010 e junho/julho de 2014 até mesmo a turma “vermelha” se vestia de verde e amarelo pra torcer pela seleção canarinho. A partir das manifestações, que ocorreram após a vitória de Dilma Rousseff, uma estética de manifestação foi criada para que ficasse clara a diferença entre os “vermelhos” e os “verde e amarelos”, e claro, para que aquelas manifestações não fossem tomadas pela confusão generalizada dos atos de 2013. Sendo evidente a necessidade de mostrar a diferença entre os atos, criou-se a visão de que, se você quisesse se manifestar contra o governo “vermelho”, precisava utilizar as cores da bandeira brasileira e vice-versa. Mais a frente, o “verde e amarelo” virou coisa de “coxinha”. O “vermelho”, tão utilizado nos últimos anos, virou coisa de “petista”, “comunista”, etc.

Essa simplificação tola de debate por paleta de cor começou a escalonar com o passar do tempo, existindo grupos pró-impeachment que disputavam para ver quem, supostamente, era mais brasileiro. A disputa em torno das cores chegou a fazer com que pessoas que não utilizassem as cores da bandeira brasileira ou a cor vermelha em sua respectiva manifestação, fossem repreendidas por isso. Eu mesmo já ouvi de uma senhora que deveria retirar meu relógio vermelho do punho enquanto discursava em uma manifestação contra o governo Dilma Rousseff.

A separação de cores por preferência ideológica continua existindo, o que fez com que alguns oportunistas do patriotismo alheio surgissem com o intuito de se mostrarem os verdadeiros patriotas e, portanto, líderes dessa onda – principalmente durante o processo eleitoral.

Você já deve ter lido que o MBL reconhece que contribuiu para o cenário polarizado em que nos encontramos (https://mblnews.org/blogs/o-mbl-3-0-e-a-memetizacao-da-politica-ou-que-diabos-esse-cara-ta-falando/), eu faço um adendo à reflexão do meu amigo Renan Santos: o MBL contribuiu para a cafonice que hoje é mimetizada por Luciano Hang.

Luciano Hang, dono das lojas Havan e um “grande patriota”, é um sujeito que coloca uma Estátua da Liberdade na frente de cada loja de sua empresa. Um nacionalista “patriota”, como Dr. Enéas, diria que Hang é um braço dos yankees infiltrado no Brasil para extrair nossas riquezas. Além do bilionário, esta semana o deputado federal Bibo Nunes (PSL-RS) discursou com um traje completo com as cores do Brasil, desafiando o bom senso estético.

Alguém que pare pra refletir sobre esse fenômeno acredita que Bibo ou Hang são “muito brasileiros” por se vestirem de tal forma? Ou alguém acredita que estes dois se travestem de bandeira do Brasil por amar muito o nosso país?  Um país sem debate ou discussões políticas sérias está fadado às polarizações e, consequentemente, às simplificações. A simplificação atrai esses personagens desse tipo, que basta vestirem uma roupa extravagante para ganhar destaque midiático. Será que o mero uso da roupa colorida seja um valor em si ou suficiente?

É importante salientar que não importa a cor que você usa, ela não mostra que você defende mais ou menos o seu país, de acordo com suas convicções. Você, amigo petista, não precisa ficar com medo de vestir a camiseta da CBF e nem o amigo patriota, que também pode vestir aquela bonita camiseta vermelha sem se tornar automaticamente um fã de Lula.

Se pintar inteiro de verde e amarelo não lhe torna mais patriota, ainda mais quando a maioria destes que o fazem adoram se submeter ao patriotismo norte americano ou não arcam com suas dívidas com a sua “amada” pátria.

A política é regada de simbolismos e justamente por isso o verde e amarelo se tornou bandeira político eleitoral para muitos.