Escritor de meia dúzia de artigos, comentarista eventual do MBLNews.
O realismo fantástico de Petra Costa

Um conto pessoal

04/02/2020 16h48

A cineasta oficial do grupo político que ocupou o poder é uma artista que já pode ser considerada vanguardista na categoria em que concorre ao glamouroso prêmio da “academia” de cinema da indústria hollywoodiana.

A engajada diretora inaugurou o realismo fantástico em documentário.

Muitos argumentaram que se trata de uma visão pessoal da diretora. Penso que vai um pouco além, me parece que é uma imaginação pessoal.

A visão pessoal documentada em trabalho artístico, revisitando as memórias pessoais se encontra em diversos trabalhos artísticos do realismo fantástico, como da escritora argentina Silvina Ocampo em “La promessa“, companheira de Adolfo Bioy Casares, que produziu “Diário de Guerra do Porco”, que mantiveram amizade intensa como Jorge Luiz Borges, autor de “A Biblioteca de Babel” – monumento da literatura mundial – onde poderão ser encontrados todos os livros mencionados e o próprio roteiro do documentário, a ser lido e decifrado por leitores ávidos por absorver os segredos desse “universo”.

Caso seja possível reconhecer o filme como documentário, creio seja admissível incluir “Peixe grande e suas histórias maravilhosas”, “Indomável Sonhadora” ou  “O mundo imaginário do Doutor Parnassus” nessa categoria.

O próprio título do filme remete a ideia de uma atmosfera política – vertiginosa – perturbada dentro da qual teria se desenrolado o embate em torno da destituição da ex-presidente Dilma Rousseff. A despeito de todos as percepções evocadas pelo trabalho, de fato, o público é acometido pelo conteúdo vertiginoso.

A vertigem produzida não é causada pelo que contém no filme, mas pelo que falta – ou é omitido, deslocando o telespectador brasileiro para uma dimensão que desconhecia, onde pedaços da história real que foi efetivamente vivenciado são conectados canhestramente, com atenuações e intermitências, gerando um absoluto estranhamento da realidade trazida no fio narrativo.

O mal-estar é provocado pela ocultação de fatos imprescindíveis nesse processo, ainda que pudessem ser abordados sob uma visão pessoal, de maneira oculta pairam sobre a história narrada e são os reais responsáveis pelo ambiente nauseante.

O encadeamento de elementos na composição do trabalho, produzido durante o processo e com intenções inequívocas de servir ao propósito político, é vertiginoso porque não é natural ao divergir forçosamente da percepção de quem vivenciou os fatos históricos.

No caso, a vertigem é a confusão produzida pela storytelling, evocando elementos emocionais, a pretexto de uma “visão pessoal” dos fatos – que implicitamente inocula argumentos sobre uma realidade paralela captada dentro da narração da autora, que autoriza a produção “em formato documental” de um conto.

A imaginação trazida por sua “visão pessoal” incute um surrealismo ao ponto de o brasileiro não conseguir reconhecer a história que efetivamente vivenciou.

A prática não é exatamente vanguardista. Ao contrário, repousa em diversos campos da cultura, educação, música, conduzidos por artistas de muito talento. Não se distância muito da categoria do estilo literário – embora de qualidade incontestavelmente inferior – empregado por Ernesto Sábato em “Sobre Heróis e Tumbas”, trazendo as memórias dos personagens sobre os tempos de luta política e conflitos amoroso e relacionamento, sempre atormentados por assombrações, de forma a produzir emoção e visão política concomitantemente. Quem não se emociona e se envolve com os contos do autor das “Veias Abertas da América Latina”, Eduardo Galeano, que muito se ocupava do tema político, com um espírito altivo e sensibilidade cativante?

A novidade, em solo nacional, vem da importação desses elementos para a categoria documentário, já observados em algum grau em trabalhos como “Mi amigo Hugo” do cineasta militante Oliver Stone ou em “Uma verdade inconveniente” do político aposentado Al Gore, atual publicitário ambientalista. A peculiaridade do trabalho de Petra está nessa estética que logra manipular as emoções seja nos apoiadores, como nos desavisados ou opositores políticos, transportando tudo para uma esfera onírica, escatológica e depressiva. O surreal fica por conta do encadeamento de fatos que somente fariam sentido com algo oculto ou manipulador presente nas entranhas do Poder.

Hollywood já se enganou ou agiu propositadamente premiando a peça publicitária do fim do mundo de “Al Gore”, cuja profecia ainda não se cumpriu, sendo adiado para próxima década. Como Hollywood iria reagir se acaso soubesse que o “documentário” reconhecidamente “tratou” fotografia no trabalho? A ética e credibilidade devem ser o maior ativo de uma premiação, acima de audiência ou palco de militância progressista. Mas, em se tratando de Hollywood, é possível ignorar ou silenciar por trinta anos as agressões sexuais de um diretor prestigiado também, depois de muito tempo, fazer barulho para o público progressista engajado. Há muitas “éticas” nesses casos.

Notoriamente, o público internacional que assistir não irá sentir a mesma “vertigem” que a maioria dos brasileiros, tampouco se importará em conhecer melhor as circunstâncias, fatos e documentos de nosso solo pátrio, como nós próprios fazemos em relação aos demais documentários de outras nacionalidades concorrentes ao prêmio. A arte engajada, pode se dar ao luxo de ignorar a realidade, mesmo se tratando de documentário, apreciando apenas o que lhe é comum e consonante com suas visões.

A negação dos fatos pode ser assimilada e se consolidar como uma verdade que ofusca nossa visão se articulada corretamente e repetida com insistência, não se permitindo aproximar de fatos e provas de contradição, que se aproximam de elementos proibidos, profanos, que deturpam a revelação das entidades terrenas que merecem o louvor e sacrifício no altar da política. O filme, portanto, é real, ao menos para a herdeiras dos revolucionários empreiteiros, e para quem quer acreditar nessa visão.

Quem assistiu a entrevista da Diretora para divulgação do filme no programa “Amanpour & Co” no canal americano CBS, não se surpreende que o filme seja efetivamente a sua visão pessoal, que mesmo no plano da realidade ofereceu respostas surreais. Realmente, se deixassem “Dom Quixote” produzir um “documentário” seria igualmente uma visão pessoal.

Considerado correta a crítica de Pedro Bial, em entrevista para Rádio Gaúcha, ao dizer que o filme é um “non sequitur”:

“É um filme de uma menina dizendo para mamãe dela que fez tudo direitinho, que ela está ali cumprindo as ordens e a inspiração de mamãe, somos da esquerda, somos bons, não fizemos nada, não temos que fazer autocrítica. Foram os maus do mercado, essa gente feia, homens brancos que nos machucaram e nos tiraram do poder, porque o PT sempre foi maravilhoso e Lula é incrível.”

Se não procura uma peça fantasiosa baseada no impeachment e não tenha medo de enfrentar os fatos, é lógico que recomendo o Documentário “Não vai ter golpe”.