Escritor de meia dúzia de artigos, comentarista eventual do MBLNews.
O Protelador da República

Bolsonaro faz tudo, menos governar.

27/02/2020 23h34

Poderia ser até ser divertido ou útil ter um líder nacional que ousasse romper paradigmas da política.

Os brasileiros ansiavam por isso. Uma vã esperança foi um metalúrgico, que acabou como um grande apreciador de luxo, favores de amigos empreiteiros e se tornou presidiário. A nova aposta foi em um sujeito que se expressava com aspereza nas palavras, como um cidadão comum em suas opiniões, que ignorasse valores plastificados por jovens moderninhos e exalasse honestidade.


Apesar disso, o que surgiu não foi a imagem e semelhança dos brasileiros, mas apenas uma caricatura bem distorcida. A excentricidade é honesta e superficial, porque não esconde nada mais interessante.

Não há o que ser revelado. Apenas um cidadão crú, sem grandes realizações, exceto ser um parlamentar de baixo clero e conquistador de votos.

Como bom e velho deputado, Bolsonaro faz o que sabe, apontar os outros como obstáculos que impedem suas realizações. Difícil que fosse diferente, afinal, foram mais de vinte anos nessa tocada, sem projeto relevante aprovado ou participação destacada em alguma comissão.

O seu governo teme governar. Lá no início já disse: “o Brasil é ingovernável”; “O congresso impede o andamento dos projetos do governo: noventa por cento do governo passa pelo congresso”; “A imprensa só sabe me atacar, não faz um elogio”; “O partido só pensava em dinheiro e o fez abandonar e criar seu próprio partido”.

O inimigo é a desculpa pra não governar.
Como um empregado incompetente que cria desculpas para o não cumprimento das tarefas e ao ser cobrado para entregar o trabalho é capaz de atear fogo no escritório para que não descubram que passou o tempo todo em frente ao computador no Twitter.
É como se tudo servisse de desculpa para não governar.


O que assusta no autoritarismo de Bolsonaro não são as atitudes agressivas, mas a ausência de qualquer ideia que seja objeto de imposição.


Há autoritários (isso não é um elogio) que tinham planos e ideias bem definidas contra as quais as pessoas poderiam se opor frontalmente. No caso, não há nada e tudo é caracterizado como opositor, passível de combate e perseguição por traição.

Claramente ele combate pessoas, instituições, empresas, que são motivos para mostrar contrariedade. Mas em nome de qual ideia especificamente? São sempre platitudes, generalização, abstrações, tudo sempre vago. Sempre porque alguém é supostamente um obstáculo, oposição ou, como diz o grupo de apoiadores, contra o mito.


É um estranho caso de autoritarismo que carece de autoridade. Autoridade pressupõe obediência (legítima ou ilegitimamente) que exige uma ordem que está relacionada a um objetivo. Esse governo tem dois objetivos: ficar no cargo e ganhar nova eleição, o que é insuficiente para ordens com o fim de dirigir, governar, administrar uma nação.

Como o grande clássico com Peter Sellers “o rato que ruge”, bradar contra o inimigo é suficiente , o perigo é vencê-lo.


A desordem causada pela falta do imperativo, como identificava Rosenstock-Huessy, provocando a crise. A ordem é “me obedeçam”, mas se perguntar “qual ordem”?”, a resposta é “apenas concorde”. Eis a nossa crise.