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Escritor de meia dúzia de artigos, comentarista eventual do MBLNews.
O poder do mito

A farsa do mito está durando pouco

11/09/2019 00h38

É um tanto elucidativo o apelido atribuído ao presidente: mito.

Poderia ser por acaso, mas os processos que culminaram na vitoriosa campanha rumo à cadeira presidencial não permitem essa conclusão. O uso equivocado não pode ser desprezado, em especial para denunciar o processo maquiavélico que sustenta o projeto do atual governo.

Os símbolos e palavras ocupam um espaço caro para os intelectuais ou representante da ala política de direita. É preciso dizer que os símbolos, especialmente mitos, permeiam e definem a sociedade, formando seu inconsciente, como singular e brilhantemente descreve Paulo Mercadante em “A coerência das incertezas”, especialmente quanto à formação luso brasileira. Os símbolos comuns às sociedades por milênios para sua unidade se retiraram do plano religioso para o político-econômico por influência da técnica e ciência, que promovem um sentido de progresso infindável e inevitável. Esse processo gera uma necessidade de ressignificação, deslocando o sentido de vivência em grupo para o indivíduo. Joseph Campbell, no epílogo de “O herói de mil faces” decifra esse processo explicando:

“O problema da humanidade hoje, portanto, é precisamente o oposto daquele que tiveram os homens dos períodos comparativamente estáveis das grandes mitologias coordenantes, hoje conhecidas como inverdades. Naqueles períodos, todo o sentido residia no grupo, nas grandes formas anônimas, e não havia nenhum sentido no indivíduo com capacidade de se expressar; hoje não há nenhum sentido no grupo – nenhum sentido no mundo: tudo está no indivíduo. Mas, hoje, o sentido é totalmente inconsciente. Não se sabe o alvo para o qual se caminha. Não se sabe o que move as pessoas. Todas as linhas de comunicação entre as zonas consciente e inconsciente da psique humana foram cortadas e fomos divididos em dois”.

A mudança promove uma nova função da figura do herói na representação atual da sociedade, servindo de norteador para o homem moderno buscar o sentido espiritualmente relevante para alcançar a maturidade no contexto contemporâneo. Define Campbell:

A tarefa do herói, a ser empreendida hoje, não é a mesma do século de Galileu. Onde então havia trevas, hoje há luz; mas é igualmente verdadeiro que, onde havia luz, hoje há trevas. A moderna tarefa do herói deve configurar-se como uma busca destinada a trazer outra vez à luz a Atlântida perdida da alma coordenada. 

Evidentemente, esse trabalho não pode ser realizado negando-se ou descartando-se aquilo que tem sido alcançado pela revolução moderna; pois o problema não é senão o de tornar o mundo moderno espiritualmente significativo – ou (enunciando esse mesmo princípio de forma inversa) o de possibilitar que homens e mulheres alcancem a plena maturidade humana por intermédio das condições de vida contemporânea.

Partindo dessas definições, a figura do herói encenada por Jair Bolsonaro é um enxerto improvisado necessário para a tomada do poder político por um grupo seduzido pela oportunidade de ocupação do vácuo do deserto legado pela esquerda. Para isso, é preciso revisitar alguns pontos desse processo.

A história política brasileira abunda em exemplos de oportunismos, não sendo diferente no caso da caminhada de Bolsonaro até o Planalto. O espírito anárquico que emergia das ruas após as manifestações de 2013, fruto do descontentamento contra os políticos, seguidos da devastadora operação lava-jato que escancarou a organização criminosa com ligações entre empreiteiras e principalmente o PT, permitiu que figuras à margem do mainstream tivessem voz. Surgem vozes de movimentos populares, jornalistas e comentaristas formadores de opinião e intelectuais com propostas estranhas para o viciado debate público brasileiro, tão influenciado pela dominância da esquerda. Boa parte desse período está registrada e apresentada no magistral documentário “não vai ter golpe” produzido por Alexandre Santos e Fred Rahul.

A adesão crescente e rápida não possibilitou o surgimento de uma liderança consistente, que apresentasse uma trajetória que convergisse com o discurso de oposição ao poder estabelecido, disposto a redefinir os ditames éticos políticos e restaurasse um ambiente de divergência política saudável em torno de um projeto consistente de salvação econômica e restauração institucional.

O senso de oportunismo sempre está acompanhado da urgência. A direita em formação foi capitaneada por algumas figuras que cederam à tentação de Siracusa, impulsionada por um movimento virtual alternativo que conseguiu ser amplificado durante o processo de acirramento político e consequentemente polarização.

A transfiguração dessa revolta contra o projeto criminoso que tomou o poder por quase quinze anos, combinado com a insatisfação contra a falência do estado em prover as demandas sociais (arraigadas no espírito nacional), ocorreu com o desconhecido deputado federal Jair Bolsonaro. O personagem sem destaque nacional, atuação inexpressiva como parlamentar, acumulava polêmicas com políticos petistas e seu nome causava calafrios pela associação ao regime militar. O capitão, antes um mero defensor de interesses corporativos, enraizado no gabinete do congresso nacional, progenitor de políticos regionais, passou a ser a esperança de muitos. A tentativa de assassinato fixou no imaginário dos seus defensores como o indivíduo designado divinamente para resgate da nação.

As mentes que entenderam a abertura política aplicaram o que foi devidamente descrito e condenado por JulienBenda em “A traição dos intelectuais”, que abandonam o sentido universal e firmam seus entendimentos a partir de um movimento particular, temporal, flexionando o sentido moral, admitindo, para fins políticos, a ofensa, divisão, conflito, como princípio a serviço de uma “guerra cultural”, que, na verdade, significa uma moralidade seletiva ou imoralidade autorizada.

Apesar disso, antes do imaginado, mas previsível, a áurea mitológica do presidente da república está em decadência. Muitos daqueles que embarcaram na empolgação das eleições estão constrangidos e já negam o apoio. Outros que tinham certa expectativa de moderação após o processo eleitoral, perderam a fé. Sobram fervorosos apoiadores, que ainda nutrem a figura do herói contra o esquerdismo e triunfe para fazer o Brasil uma nação justa e próspera. 

A trajetória apresentada em síntese revela o um personagem muito diverso do sentido do mito ou melhor do herói. Os elementos que integram a sua figura resultam da soma de indignação, rejeição à política, insatisfações e até preconceitos velados. A sua real natureza foi de um agente político embrenhado no sistema político, sem grandes ideias ou propostas para desenvolvimento individual ou social, acostumado com benesses concedidas à classe política e perpetuação pessoal e familiar em cargos, dentre outras, características comuns a qualquer político pertencente ao estamento tradicional. Nada mais representa o personagem político encarnado pelo presidente do que um projeto político, com sinais e ideias invertidas ao petismo, mas igualmente nocivas. 

Apesar de ser antagônico ao petismo, como qualquer um que detenha algum entendimento sobre as ideais “de direita”, o bolsonarismo carece da característica mais cara ao espírito conservador, a virtude, que é representada ou transmitida pelo herói.

As práticas que se sucederam à eleição, somente revelam a natureza acima enunciada.

O instrumento para preservação e concentração desse poder outorgado apenas ao “mito” ou “herói” é o medo impulsionado pelo sentimento escatológico, uma guerra do bem contra o mal, cuja missão salvacionista o presidente encarga. A manipulação é o meio de preservação do poder e concessão de uma aparente legitimidade, praticando-se os ensinos de Carl Schimitt como política de oposição.

A confusão entre o poder político e os fins transcendentes depositados sobre o poder estabelecido é resultado da “religião civil do estado moderno”, desenvolvida singularmente nesse solo nacional, por Nelson Lehmann, como comenta:

Que a substância da política é o poder, observa Voegelin, é a mais típica proclamação do pensamento político moderno. A tradição clássica e cristã, por outro lado, ensina que poder político diz respeito a apenas uma parte, e parte inferior, dos interesses humanos. É para assegurar paz e ordem e promover o bem comum, sem arrogar-se jurisdição que ultrapasse essas finalidades.

Se o poder vem a ser entendido como a própria finalidade da ação política então este se revela como um conceito vazio e irracional e, quando institucionalizado, transforma-se em terror. Se a existência tem de ser mais do que mera existência então o poder tem de estar subordinado ao espírito. O espírito será mestre do poder assim como é senhor do corpo.

As decisões, movimentos e discursos desse governo estão longe de atender ao espírito conservador, que pressupõe a orientação virtuosa. A guerra cultural, que exige para si o monopólio da verdade, é o mote para o uso indiscriminado de ofensa e agressões, com a busca de eliminação do adversário, que se caracteriza por qualquer oposição. A atuação prática governista, especialmente o núcleo íntimo e familiar, revelam apenas o que está calcificado em décadas de mandatos, ou seja, o patrimonialismo, o fisiologismo, fragilização institucional, que representam o estamento burocrático brasileiro. 

Sinto dizer, Bolsonaro não é mito, é somente um produto do establishment.