fbpx
Escritor de meia dúzia de artigos, comentarista eventual do MBLNews.
O país do futuro vivendo no atraso

Viveremos mais uma década perdida?

27/08/2019 19h52


O grande Roberto Campos dizia:


“- Sou chamado a responder rotineiramente à pergunta: haverá saída para o Brasil? Respondo dizendo que há três: o aeroporto do Galeão, o de Cumbica e o liberalismo”


Os últimos dias têm revelado como a frase é atual.

Poucas vezes o Brasil seguiu a última recomendação do brilhante economista e nessas ocasiões mais por imposições das circunstâncias do que por convicção de nossos governantes. Os motivos remontam ao nosso passado pouco afeito à liberdade.

A implementação de medidas liberalizantes implicam em alterações estruturais, afetando governo, empresas e interesses, moldados a partir de um modelo baseado no dirigismo e intervencionismos. A carência de uma tradição liberal prejudica a convicção dos atores sociais e gera desconfiança dos afetados, no caso pequenos empresários ou empreendedores, como a população em geral. O clientelismo e paternalismo são políticas muito eficientes nessa terra próspera em recursos naturais e carente em desenvolvimento econômico e humano.

Diferentemente das duas soluções aeroportuárias, o liberalismo exige um pouco mais de tempo para produzir algum efeito em nossas vidas. A atual crise econômica brasileira decorrente de uma política “desenvolvimentista” (aliada ao projeto corrupto de poder) parece ser a oportunidade de ouro para seguir a “lanterna na popa” rumo a um novo modelo liberal, sendo mais uma imposição das circunstâncias e não por um plano político liberal, mero capricho de acadêmicos ou do capital especulativo internacional.


Não por acaso, as reestruturações econômicas liberais sucedem grandes crises econômicas proporcionadas por modelos intervencionistas, endividamento estatal e redes de proteção social extremamente abrangentes e muitas vezes implementadas por políticos que sequer tinham um viés liberal.

O histórico do presidente Jair Bolsonaro como deputado não autoriza incluí-lo na estirpe dos políticos liberais, embora não isso seja fator impeditivo para seguir o receituário da liberdade econômica, a qual foi materializada pela nomeação do Ministro Paulo Guedes, anunciada desde a campanha eleitoral. Ainda que por oportunismo para formação de um político de “direita” e angariar o público para cooptação de seu eleitorado contra os candidatos de “esquerda”, a prática poderá comprovar seu discurso de campanha.


O grande problema é a urgência demandada para uma recuperação imediata, impelida pelo o esgotamento do orçamento público que ameaça o cumprimento de obrigações a curto prazo, o crédito é escasso, a taxa de ociosidade da indústria é alarmante, o consumo está em níveis incapazes de movimentar a econômica para o crescimento, o endividamento do brasileiro é altíssimo, as estimativas do Produto Interno Bruto vêm sofrendo reduções sucessivas.


Não se pode acusar o Ministro da Economia de não ter implementado medidas liberalizantes para a retomada do crescimento econômico, tendo efetivado propostas e alterações que sequer seriam toleradas em outros tempos.


Apesar disso, ao contrário do otimismo depositado nas medidas propostas e nova direção do governo que assumiu no início do ano, a economia não parece dar sinais de reversão da trajetória de agravamento rumo à recessão. Os inimigos do liberalismo já celebram os resultados negativos, avocando-se a razão e autoridade pelo cumprimento da profecia da qual se esforçam para fazê-la cumprir utilizando de qualquer meio para sabotar qualquer chance de êxito econômico do atual governo.


Algumas medidas denunciam um certo grau de impaciência da equipe econômica. As indicações de um novo tributo vinculado à movimentações financeiras, aos moldes da extinga “CPMF”, carregada de alto grau de rejeição pela sociedade brasileira, sob o argumento de não impactação para população e tributação de recursos de oriundos de ações ilícitas, atrelado à desoneração da folha de pagamento, que resultaria em aumento de consumo, demonstram que a ala econômica do governo está transmitindo explicitamente a mensagem para agitar os agentes econômicos, sob pena de reversão da estratégia econômica.


Há alguns fatores, porém, que fazem parte do raciocínio econômico que estão intimamente relacionados ao comportamento humano.


O Presidente nunca escondeu sua carência de conhecimento na área econômica, comprovada pelo histórico de atuação como deputado. Ao nomear a equipe econômica, entendia que a recuperação econômica seria irrefreável, bastando a adoção de medidas de ordem técnicas. A postura baseava-se na expectativa da decolagem da economia, que lhe outorgaria toda a força política necessária para se impor sobre os adversários e críticos.

A retomada não veio e o governo acumula polêmicas. Se ocorresse uma recuperação da economia, tudo não passaria de uma idiossincrasia, um estilo “popular” de governar, entre outros formas de “amenizar” as atitudes do presidente e sua trupe. Ao contrário, os resultados desfavoráveis só esgotam o capital político e a fé do povo brasileiro.


Ficou evidente que decolagem econômica não se efetivou, isso porque, se desprezou durante todo esse tempo de governo a influência política sobre o processo de recuperação econômica. Possivelmente, por ignorância confessada, não proporcionou algo que lhe competia como principal dirigente político, a estabilidade ou previsibilidade. Guedes esperava a movimentação dos agentes financeiros e do mercado, mas parece que a postura errática de governo, gerando inúmeros incidentes, tornou-se um fator de alto risco para esses agentes, que somente é favorável quando há a promessa de alto retorno financeiro, o que não é o caso, inibindo a tomada de decisão. O fator político pode justificar a paralização do mercado e atração de recursos para retomada do nosso crescimento, apesar de todo esforço de natureza liberal.


Além disso, os esforços exigidos de todos os brasileiros não têm sido correspondidos por atos do próprio Presidente, que parece não enxergar qualquer problema em efetivar gastos no cargo tão criticados e rechaçados pelo brasileiro, perpetuando a mais legítima tradição patrimonialista. A promoção da família, seja abonando atos de sua prole, que não integram a Presidência, ou impondo a nomeação de seu filho inabilitado para o cargo mais importante da embaixada brasileira. Complica-se a situação ao se tentar promover as mais diversas intervenções na estrutura dos órgãos de fiscalização, que afetam diretamente seus interesses pessoais. Tudo isso representa uma personificação do cargo, atentando contra o ideal republicano, que é observado pelos agentes econômicos para fins de emprego do capital na economia nacional. Quaisquer sinais de uma gestão autocrática (antirrepublicana) ou iliberal é sinônimo para o investidor de instabilidade política e de atos de fragilidade dos recursos econômicos por vontade política.


Uma lição que se extrai do governo Michel Temer é que a economia pode caminhar apesar da política, mas, somente, até certo ponto.


Junte-se a todo esse cenário a crise econômica mundial, que envolve uma complicada disputa política entre gigantes como os EUA, China, nações europeias e Rússia, além de um prenúncio de estagnação ou recessão mundial. Frente à fragilização do mercado brasileiro, os competidores do mercado internacional, que adotam as práticas mais mercantilistas dos últimos tempos, veem a oportunidade de ocupar o único papel significativo que tempos na economia global, o agronegócio.

O governo reagiu aos ataques e destruição da imagem internacional do Brasil no caso das queimadas na Amazônia em tom bélico, enfrentando a França como principal opositor na pessoa do Presidente Emmanuel Macron. O presidente brasileiro ignorou a nossa real importância e tamanho global, acreditando que realmente as nações que integram o G7 estavam incomodadas com a ascensão do atual governo, rejeitando recursos ofertados, confundindo um integrante com o grupo, do qual fazem parte EUA e Reino Unido, supostos aliados políticos. Enquanto isso, Vladmir Putin, se reunia com Macron, até então adversário político, mesmo com graves incêndios que afetam a Sibéria, formalizando as pretensões diplomaticamente para readmissão no grupo, para restabelecer o G8, afastado após o incidente da anexação da Criméia. O presidente Donald Trump já sinalizou com a possibilidade. Ao que parece, o Brasil segue como anão na política internacional e continua sentado na mesa das crianças, sem poder se assentar na mesa onde estão aqueles que participam do grande cenário mundial.


Resta saber se Bolsonaro se irá insistir e garantir a política de Paulo Guedes, aguardando os resultados econômicos ou se deixará sua natureza falar mais alto e decidir adotar medidas mais drásticas com mudança de direção para um resultado imediato, ao melhor estilo presidente de clube de futebol brasileiro.


A frase de “Bob Fields” faz mais sentido do que nunca, ou a economia decola ou nós que decolaremos.