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Escritor de meia dúzia de artigos, comentarista eventual do MBLNews.
O mundo mágico dos millennials no teatro da ONU

A elite progressista se esconde atrás de adolescente e a direita que só discursa

24/09/2019 22h16

Os millennials foram agraciados com o seu “Mágico de Oz” do século XXI. A Dorothy escandinava foi levada pelo furacão, provocado por mudanças climáticas, para um país em local incerto de fantasia, mais conhecido como o “Reino de Nações Unidas”. A personagem dócil foi atualizada para uma versão irascível e agressiva. Lá encontrou a conhecida Bruxa malvada do Oeste branco judaico cristão, que não é mais verde, e busca vingança contra ela por ser uma impiedosa defensora da preservação da residência em um meio ambiente que logo se extinguirá. A bruxa ordena o ataque de seus macacos alados, que ateiam fogo em florestas. Ela protege seus amigos/chefes e líderes de estado, o espantalho, o leão e o homem de lata, desprovidos das virtudes, que prometem segui-la na busca da realização de seus desejos, na trilha do ouro, que os levarão até o grande mágico de Oz. Apesar de sua atuação inicial tê-la elevado ao reconhecimento de líder e heroína, ainda não foi trilhado o percurso que irá revelar quem seria a pessoa por trás da farsa do grande mágico, tampouco levou a menina para a realidade.

O patético espetáculo protagonizado na cúpula do clima das Nações Unidas somente revela o grau de infantilização da “liderança” mundial, que direciona todos os holofotes para a adolescente, que vocifera contra a humanidade, por pecados “do capital”, condenando a todos por ter-lhe tolhido do seu futuro, roubando seus sonhos.

O discurso agrada à elite descolada e progressista, ao contrário da maioria das pessoas comuns que logo estranha o comportamento muito acima do tom, mas muito artificial e encenado. A personagem é perfeita para representar a atitude progressista ao demonstrar todo autoritarismo e alarmismo em forma da conhecida retórica e estética contra o inimigo – a abstração chamada humanidade –, que destrói seu paraíso natural para erguer um império econômico que deve ser condenada no tribunal moral a se sujeitar a sua vontade e comando.

Estranhamente, não houve qualquer enfrentamento às nações mais ao leste, como seu vizinho russo, que enfrenta alguns problemas ambientais de grandes proporções ou um país totalitário que vem devastando e poluindo há décadas, poupados pelas autoridades embasbacadas pelo discurso. Infelizmente, jovens que lutam nas ruas de “Hong Kong” contra um inimigo real, buscando uma liberdade que Greta nunca teve ameaçada, não têm voz em um mundo progressista que tem rabo preso no passado ideologizado.

Seria mais convincente se a convidada fosse uma jovem de uma nação subdesenvolvida que convive sem saneamento básico ou em assentamentos em confrontos fundiários, sem muita perspectiva de futuro, mas nutre seus sonhos para alterar sua realidade. 

Hoje foi a vez de adultos falarem no palco da Assembleia Geral das Nações Unidas. Bolsonaro fez o discurso inaugural como é tradição. Quem se surpreendeu, não foi pelo conteúdo, mas por soar naturalmente coerente com o discurso de um chefe de estado que está sob ataques de países que aproveitam a onda verde para seus propósitos econômicos e eleitorais.

Como diz a famosa fala do filme original: “Não há lugar como o nosso lar”.

Aqui a esquerda adere ao discurso da jovem (mesmo que aqui tenhamos milhares de jovens com mais coisas paradizer e com futuro de fato perdido) e condenam a postura do representante brasileiro, seguindo os modismos do progressismo internacional, especialmente europeu. Esquecem do brasileiro real, que consegue se enxergar no discurso desajeitado e cru do presidente em defesa do seu país contra uma elite política europeia e estranha o discurso histérico patrocinado por nações com passado imperialista. Quem diria? A esquerda abandonou o que a ligava ao povo, demonstrando o absoluto descompasso, que lhe faz perder qualquer representatividade popular e permite a ocupação por personagens que sempre odiou.

Os fãs do mito, por sua vez, aplaudem efusivamente – acredito que mesmo antes do discurso começar – por enfrentar os comunistas e defender a soberania nacional e a família brasileira. Nesse terreno, o bolsonarismo não tem realmente enfrentado um grande opositor, pois tanto a esquerda, como a imprensa ainda não compreenderam a natureza do discurso popular e a ideia de “guerra cultural”, utilizando modelos ultrapassados, por preguiça ou soberba. 

A grande questão é que o brasileiro apresenta um certo esgotamento com questões de debates e discursos sobre questões ideológicas, esperando resultados práticos em áreas como emprego, renda, violência, corrupção e outras que são mais urgentes que a guerra cultural, prioridade da ala ideológica e mais política do governo. 

As razões que conduziram o Bolsonaro ao cargo têm maior impacto na imaginação e consciência nacional do que o problema da guerra cultural. O brasileiro, provocado pelo projeto totalitário e corrupto que dominou o país, deseja uma nova mentalidade que busca basicamente eliminar os padrões de patrimonialismo, clientelismo e burocracia, intrincados na identidade nacional, como descrito nas obras essenciais de Paulo Mercadante (A coerência das incoerências); José M. O. Penna (“O dinossauro” e “O psicologia do subdesenvolvimento”); Raymundo Faoro (“A República Inacabada” e “Os donos do Poder”). A insurgência nacional não é passageira e o governo precisa adota-la para que não seja breve.

O discurso é uma coisa, a prática é outra. 

Não há o que celebrar, pois tudo não passou de uma obra ficcional.