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Estudante interrompido, músico frustrado, cozinheiro irregular e fundador (e membro mais controverso) do MBL - Movimento Brasil Livre.
O ‘MBL 3.0’ e a ‘memetização da política’. Ou: Que diabos esse cara tá falando?

O debate público foi pro vinagre. Como melhorar tal situação?

01/08/2019 18h34

Caros amigos, esse é o primeiro texto que escrevo após a necessária — e barulhenta — entrevista de domingo pra Folha. O exposto ali surpreendeu muita gente; resumidamente, expus que o MBL ajudou a simplificar por demais a política — a tal ‘memetização’ que muitos não entenderam — e foi demasiadamente agressivo com alguns personagens (Luciano Huck, por exemplo) sem nenhuma necessidade.

Foi um pedido de sanidade no debate público. O crescimento de youtubers picaretas, a naturalização de fake news travestidas de piada (pavão misterioso, por ex.) e a retórica anti-congresso que dominou o discurso político da direita neste ano, tudo isso, colocou sob nossas costas uma imensa responsabilidade: qual foi o papel do MBL em permitir que esse tipo de tese ganhasse espaço?

O que tentei resumir através do termo ‘memetização’ é o que cremos ser a verdadeira razão do problema: uma hipersimplificação do debate político, reduzido a conceitos fáceis — e até por isso burros — que permitem uma percepção quase instantânea do ‘momento político’ por parte do cidadão comum.

Isso se dá através de uma linguagem simples e impactante, do uso da polarização e da criação de um sentimento de ‘devir revolucionário’ — alimentado pela derrocada petista, pela crise econômica e pela operação Lava Jato.

O teor de nossa linguagem fomentou o fenômeno, e foi importante e meritório durante boa parte do processo. Mais: dada a assimetria da cobertura da imprensa — e o poderio econômico dos agentes antagonistas — , não fosse a linguagem que ajudamos a desenvolver, muitas das vitórias da sociedade civil nos últimos anos ( impeachment, pec do teto, reforma trabalhista, condenação de poderosos, etc ) não teriam sido possíveis.

Posto isso, é aí que reside o problema: mesmo necessário, tal ferramental não opera impunemente. Como externalidades, temos o personalismo, a ausência de reflexão, o clima de ‘guerra permanente’ e uma simplicidade operacional que funciona como faca de dois gumes: se por um lado nos permitiu um enfrentamento com agentes mais poderosos, por outro se tornou tão prosaico e corriqueiro que qualquer agente — em especial os mais irresponsáveis — o usassem à exaustão.

A partir de 2017, tal linguagem tornou-se o padrão dentro da direita. Mesmo setores da esquerda passaram a utilizar algumas das inovações, ainda que ancoradas (uso o termo aqui como demérito) pelo peso da defesa do lulismo. A retórica explodiu no pós-eleições 2018 — contrariando quem imaginava uma ‘calmaria’ –, e o primeiro semestre de 2019 representou um agravamento da situação. É, hoje, impossível discutir política de forma séria no Brasil.

A crítica submeteu-se ao faccionalismo; setores dominantes da esquerda e da direita — lulismo e bolsonarismo, para ser mais claro — contam com as narrativas chave para suas respectivas áreas de influência. Isso impede qualquer tipo de debate interno, sendo o autor da crítica alvo de intensa patrulha. Vale mais a pena submeter-se à narrativa hegemônica do que defender valores e apontar inconsistências. É um problema extremamente grave.

Além disso, o faccionalismo serve como instrumento de promoção política: demonstrações solenes de fidelidade à ‘narrativa mãe’, somadas aos elementos já citados (simplificação, agressividade e polarização denuncista) criam incentivos perversos para que os piores produtores de conteúdo ascendam na hierarquia política e nos views nas redes sociais.

Nesse ambiente hiperconcorrido, vence quem estica mais a corda. Coerência, fontes e respeito ao interlocutor ficam para trás; foca-se naquilo que dá mais audiência, que permite a ascensão mais rápida. Pela lógica particular do fenômeno, ele acelera tanto em seu crescimento quanto no radicalismo — até que freie diante de limitações óbvias, como o tamanho do público ou as contradições entre aquilo que é dito e a realidade factual.

Um exemplo é o discurso intervencionista, que tornou-se mainstream na direita de internet: proliferam influenciadores que incentivam uma submissão do legislativo ao executivo, posto que o ‘presidente teve 57 milhões de votos e representa a vontade popular. Para isso, deve-se invocar o Art 142 — que supostamente garante uma ‘intervenção militar constitucional’ — com a ajuda providencial de nossos leais caminhoneiros.

Entenda-se: esse discurso é mais relevante nas redes sociais que qualquer apelo à racionalidade, ao tão surrado Estado Democrático de Direito e a conceitos áridos para o grande público, como a tripartição de poderes e os ‘pesos e contrapesos’. Questioná-lo, pela lógica de incentivos atual, representa trair a facção política ao qual supostamente faz parte, e aliar-se aos ‘corruptos do centrão’ e da ‘velha política’.

Para nós do MBL, tal estado de degradação não pode mais ser ignorado. E como conselho, se fosse bom, seria vendido — e não dado –, resolvemos fazer nós mesmos a lição de casa; iremos, ao longo dos próximos meses, rever práticas, alterar nossa linha de comunicação, e fomentar uma participação mais virtuosa no debate público, ainda que abdicando de parcela importante de nossa audiência.

Os primeiros passos já estão sendo adotados em nosso canal de YouTube e perfil oficial de Instagram; conteúdos sensacionalistas ou meramente laudatórios, como ‘Parabéns, Moro!’ ou ‘Kim humilha sindicalista’ dão lugar a material explicativo com teor crítico. A gestão de nossos núcleos municipais, o conteúdo opinativo de nosso blog, a postura combativa de nossos porta-vozes também passarão por alterações: não perderemos nossa coerência nem fraquejaremos em nossas convicções, mas mudaremos a forma em nome do bom debate.

Não há precedente na história recente que justifique a tomada de tal decisão. Ela é arriscada e PONTO. Ainda assim, não haveríamos de aguardar uma auto-crítica vinda da esquerda — mais submissa do que nunca ao lulopetismo –, ou da direita bolsonarista, posto que ela simplesmente não virá.

Sabendo disso, o leitor deve se perguntar: por que diabos faremos isso? A pergunta é válida. O movimento, prestes a completar 5 anos de seu surgimento, pode muito bem perder bastante neste processo. O provável é que realmente perca. Faz parte. A questão para nós, porém, é outra. Perdemos muito mais fazendo coisas que não acreditamos — e estamos realmente infelizes com nossos dois últimos anos.

Há um algo mais nisso tudo, também. A ideia de voltar a inovar na linguagem política — justamente aquilo que nos motivou a nos reunir num projeto absolutamente improvável, em 2014 — é especialmente sedutora para todos nós. É o que realmente nos da tesão e motiva sair de casa.

É, enfim, o MBL raiz ressurgindo após anos de equívocos estratégicos.