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Escritor de meia dúzia de artigos, comentarista eventual do MBLNews.
O mal estar brasileiro

O novo caminho a ser trilhado objetiva a formulação de uma nova comunicação

12/07/2019 16h25

Inauguro este blog com imenso prazer, apesar do tom melancólico que o título deste texto carrega. Escrevo ao som de “New Noise” do “Refused” (vídeo) tentando expressar uma sensação dilacerante de quem não consegue encontrar correspondência na voz da liderança política que toma o cenário nacional.

Os debates em torno do impeachment revelaram a seara fértil da discórdia, ou pior, da polarização, que já era semeada há algum tempo. As pontes para o consenso foram sendo implodidas pouco a pouco. As feridas do espectro político de esquerda foram abertas. Despidos de toda dignidade após as comprovações dos mais variados crimes em proporções inimagináveis e destituídos do poder, restou-lhes a via da indignação fingida, ignorando os próprios erros, denunciando alucinadamente a narrativa da injustiça. Puro ressentimento. A acusação de “golpe”, perseguição política, ativismo judicial, reacionarismo, somente poluiu o debate, inviabilizando a conversa política civilizada.

Resultado disso foi a eleição presidencial pautada pelo discurso miserável limitado às acusações entre as partes. A acusação da direita contra o comunismo corrupto degenerado da esquerda e a esquerda acusando a direita de ser violenta, reacionária e ignorante. O grupo vencedor estava à frente. Não negou a adjetivação, ao reverso, dobrou a aposta, produzindo os mais variados conteúdos esteticamente bizarros, de humor duvidoso, sádico, disseminado por uma horda de tiozões malufistas com a Veraneio na garagem, garotadas sem contato com a realidade, youtubers de direita, entre outras figuras peculiares, exultantes, celebrando a “chegada da sua vez” na política. Sabiam que este seria o ambiente ideal para conquista do pleito.

Os destituídos lamuriam, lamentando não ter contemplado todo o poder necessário para sufragar a indignação contra seus desmandos, crimes e planos malfadados. São agentes do passado, que entoam gritos ultrapassados, pois são tolos sem imaginação que pensam que tudo se resume a militares, minorias, eleições e economia. Atuam de forma quixotesca contra o retorno da ditadura militar, incapazes de notar que o que estão enfrentando é justamente um subproduto da democracia que afeta diversas nações mundialmente. O sistema democrático está enfrentando dilemas, fissuras esgarçadas por nações que jamais nutriram qualquer apreço por ele, por isso, talvez, encontrando seus defeitos com maior facilidade. 

Os eleitos parecem ser mais astutos. Já conhecem os mecanismos por meio dos quais se controla as massas. Apesar de adotarem uma política de governo aparentemente errática, até o momento têm sido capazes de alcançar minimamente as demandas momentâneas, catalisando o que entendem ter real importância, o domínio da mentalidade popular. A agenda de poder é o que importa, sendo a agenda de governo um aspecto secundário. Empregam métodos simples, mas eficazes para o projeto proposto. Apontam quem são os inimigos do projeto de salvação brasileira, atribuindo a pecha de traidores, corruptos, comunistas, conspiradores, etc, com o fito de marginaliza-los sob pena de frustrar o grande projeto de nação.

O argumento da unidade da direita é extremamente útil para submeter os governistas à condição servil perante a nova elite estabelecida, caso queiram fazer parte deste “seleto” grupo e todos os insubmissos submetidos ao tribunal virtual para condenação por sua sedição como traidores e inimigos a serem eliminados violentamente. Unidade aqui é sinônimo de totalitarismo. Aliados são meros instrumentos, sempre postos em condições de inferioridade, servis à vontade soberana. Empregam linguagem simples, direta, provocativa, até mesmo tosca, mas estão sempre na propositura do debate público.

A desinformação é um instrumento habilmente utilizado, manejado através dos novos meios de comunicação e redes sociais ávidas por contribuir com o debate político estéril, deturpado, ou seja, maçante. A imprensa é inofensiva, não sabendo com o que está lidando, formulando críticas apenas ao projeto governista, não sendo capaz de denunciar os aspectos autoritários do plano de poder, especialmente por adotar uma mentalidade enviesada daqueles que já estão derrotados e fora do páreo político, que também tinham um projeto totalitário.

O resultado disso é uma batalha constante entre assuntos efêmeros, substituído constantemente por um novo tweets ou post, que sabemos resultará em nada relevante, mas efetivamente farão com que familiares, amigos e muitos outros se bloqueiem e parem de se conversar. As relações estão se deteriorando, em sentido reverso do que deveria se propor a política. 

Em geral as propostas para esse dilema passam por maior participação política, ou seja, o problema da nossa democracia se resolveria com mais democracia. Posso parecer pessimista, mas nesse campo já perdemos, pois, o atual projeto de poder adota a estratégia de dinamitar todos os caminhos nesse sentido.

Afigura-se, assim, o problema da linguagem, tal como apontado por Rosenstock-Huessy em “A origem da linguagem”, como forma de estabilização ou degeneração social, explicando: “A linguagem compreende os atos de escutar e falar, de articular e repetir. Um grupo da fala saudável usa termos velhos para novos fatos (repetição), termos novos para velhos fatos (articulação), dirige-se a novas pessoas (falar) e inclui todo ouvinte que valha a pena (ouvir).

Os quatro atos envolvem muitos riscos. Mui frequentemente malogram. A guerra, a revolução, a decadência e a crise são as quatro formas de malogro. Na guerra, as pessoas que julgam que devem ser escutadas são excluídas; na crise, pessoas que querem escutar não são incluídas. Na revolução ordens que esperam ser cumpridas são ridicularizadas; na degeneração, gritos que esperam ser compreendidos permanecem inaudíveis.

  • Surdez diante do inimigo;
  • Mudez diante do amigo;
  • Gritaria contra a velha articulação;
  • Estereotipagem da nova vida

A problemática e possivelmente a solução está na linguagem. Não por acaso, gênios literários e não os políticos são capazes de identificar o mal-estar da sua época e anteciparam ou expressaram a crise, como Thomas Mann em “A montanha mágica” e Robert Musil em “O homem sem qualidades”. 

Submetendo os conceitos ao nosso contexto, incontestável a presença de tais elementos que culminam na crise política atual. Inegável que está travada uma guerra, não no sentido literal, mas em disputa entre grupos, que negam dar ouvidos ao lado contrário. Não se pode negar a atitude revolucionária que incita hordas barulhentas e agressivas contra instituições em defesa do projeto de poder, sem qualquer proposta construtiva. A crise econômica tem raízes na gestão anterior, mas não se pode ignorar a incapacidade de encarregar as pessoas adequadas para a superação do atual momento. O estilo, estética e produção de conteúdo está prejudicada, formulada em termos adequados nos estritos termos do discurso.

O novo caminho a ser trilhado objetiva a formulação de uma nova comunicação que abarque a linguagem adequada para transmissão dos valores e propósitos adequados para a reformulação do ambiente de discussão, na linha proposta pelo mesmo autor: 

“Mas quanto aos diagnósticos, fico com minhas armas. Que o diagnóstico é correto vê-se no processo de cura. Uma guerra termina com a escrita de um tratado de paz. Uma revolução acaba numa nova ordem da sociedade. A queda da França é superada por sua vigorosa ressureição; e uma crise termina com a restauração do crédito ou com o estabelecimento de uma nova confiança. 

Pois bem, todos esses remédios são de natureza “linguística” ou gramatical. 

Confrontemos doenças e remédios:

  1. A guerra como surdez, e a paz como disposição para escutar;
  2. A revolução como gritaria, e a ordem como capacidade de formular;
  3. A crise como mudez, e o crédito como disposição de encarregar.
  4. A decadência como estereótipo, e o rejuvenescimento como nova representação.

A forma e os meios que foram utilizados até o momento estão prejudicados. O ambiente virtual está entulhado. O consumo de informação está limitado a forma de “memes” ou algo que o valha. Qualquer crítica ou conteúdo é seguido de ataques de grupos de militância virtual. Os assuntos são repetidos e formatados para que o divulgador se torne uma personalidade política. 

A solução é a adoção de uma nova linguagem, não necessariamente política, mas que seja capaz de transmitir conceitos mais elevados e perenes caros para humanidade, favorecendo o fortalecimento da imaginação moral, identificada por Edmund Burke, contra a imaginação idílica apresentada por Irving Babbit e a imaginação diabólica denunciada por Russell Kirk. Os valores e padrões morais serão o conteúdo, a linguagem apenas a forma.  

Exemplo desses valores seria a própria restauração do diálogo civilizado entre familiares, amigos e político, divididos por inclinações ideológicas. Também a busca de um novo padrão de discussão respeitando regras e comportamento civilizados. 

As vantagens da nova linguagem estão na incapacidade criativa que permeia o ambiente do debate político, seja em grupos de esquerda ou direita, além do esgotamento que afeta a maior parte das pessoas, cansadas da pobreza e chatice das discussões. 

A linguagem deve ser inovadora (interessante) e capaz de penetrar em grupos com viés ideológico distinto.

Não se pode subestimar, porém, o conhecimento e capacidade intelectual dos grupos governistas e aliados, que sabem exatamente do que estamos falando, sendo capazes de neutralizar iniciativas nesse sentido.

Como diz a letra da música que embala a produção do presente texto: 

Great words won’t cover ugly actions

Good frames won’t save bad paintings

We lack the motion to move to the new beat

Yeah!

We lack motion

We dance to all the wrong songs. 

We enjoy all the wrong moves. 

We dance to all the wrong songs. 

We’re not, leading!

Yeah!

Yeah!

Yeah!

The new beat!