Escritor de meia dúzia de artigos, comentarista eventual do MBLNews.
O jornalismo ficcional do “Fantástico”

Como a pauta identitária desumaniza.

10/03/2020 13h22

A definição de minoria considera um grupo de pessoas sob um fator isolado comum. A tese discriminatória. O tratamento comum gera a eliminação das diferenças internas do grupo sob o prisma ideológico e resulta simultaneamente na descaracterização das pessoas, que detém suas individualidades e peculiaridades.

Há mais diferenças internas de cada grupo do que existe entre grupos. Esse elemento é fundamental para se atribuir causas para uma condição do grupo. As diferenças internas são determinantes para avaliar o fenômeno que afeta um grupo, muito mais real do que comparações entre determinados grupos. As mesmas diferenças internas de grupos distintos poderiam servir de análise e solução dos problemas igualmente.

O método é aplicado por Thomas Sowell em seu livro “Discriminação e Disparidades” e outras obras de seu vasto trabalho tratando do tema.

A ignorância – ou a desonestidade – sobre isso gera pautas ideológicas identitárias com avaliações e tratamento de um ser humano particularizado, existindo apenas nas mentes de seus militantes. O indivíduo real, com seus defeitos, problemas e capacidades sub aproveitadas não é útil para a militância política.

O ser humano é instrumentalizado para fins ideológicos. O drama individual é deslocado para um campo artificial, criado apenas para servir de motivações de luta política, desprezando o ser humano. Isso sempre resulta em abordagem inadequada, que impossibilita uma solução real, protelando a viabilização para mudança da condição que aflige aquele grupo.

A partir desse procedimento, os movimentos e outros agentes sociais se apropriam dos grupos “identitários”, em geral a partir de uma difusão da ideia nos principais meios – educacionais, mídia, arte, política – e se tornam os seus representantes exclusivos em conformidade com uma causa específica.

O drama é real e capaz de tomar os corações de gerações frágeis e ultra sentimentalista.

Gerações sucessivas que se tornam cada vez mais frágeis são incapazes de lidar com os resultados e responsabilidades individuais, perdem a capacidade de julgamento e o discernimento entre uma conduta virtuosa baseado nos verdadeiros dramas humanos – superação, mérito, esforço, honra, disciplina, entre outros e os vícios – condutas contrárias.

Os valores são substituídos por causas abstratas (falso humanismo da vitimização) a partir de um sistema que atribua toda a culpa para a sociedade. O determinismo social permite a isenção e afasta o drama existencial que está no caminho para o crescimento virtuoso. Se a culpa é da sociedade, não posso me responsabilizar por algo inevitável.

A questão é abordada por Theodore Dalrymple no indispensável livro “Podres de Mimados”.

Há, por outro lado, o ganho de se tornar o acusador da sociedade. Em um ato simples de adesão, o sujeito obtém a satisfação para seu ego, ao se sentir superior moralmente. O ganho de serotonina resultante gera uma satisfação contínua e dependência. Um vício que sempre exige o mais alto grau de comprometimento. A vítima ou grupos minoritários são um meio de satisfação pessoal. O pensamento crítico é impossível.

Uma ideologia é capaz de cooptar esse pensamento e fomentá-lo: o progressismo.

Divide a sociedade entre aqueles que estão de acordo com a pauta e os que são contra. A causa é sempre a defesa de grupos vitimados pela sociedade. A divisão consiste em dizer que um determinado grupo é responsável pelas mazelas de outro, as vezes até criando as mazelas, a partir de um fator genérico, que explica singelamente as causas.

A validade da opinião é baseada no apoio ou não à pauta. Se a favor, é uma pessoa com uma visão humanista em prol do indivíduo e se contra, um cidadão execrável preconceituoso.

A divisão torna os sujeitos uma massa homogênea, que pode agregar qualquer sujeito com os mais variados comportamentos, considerando apenas uma opinião, trazendo-lhe “virtudes” ou “deformidades”, a depender do posicionamento.

É impossível a abordagem de problemas sociais sob outra visão. A apropriação dos grupos sociais impede a formulação de propostas aos problemas reais. Oferecer uma visão ou solução alternativa é taxada de insensível a serviço de manipulação de pessoas preconceituosas e que desejam manter seus privilégios.

A manobra permite que um sujeito de comportamento socialmente irrepreensível seja tratado como o pior ser humano por apoiar uma pauta e um hipócrita e mau caráter ser o mais digno apenas por estar de acordo com a causa, por exemplo. Em termos simples, se você concorda comigo é bom, se discorda é ruim. O autoritarismo virtual é estabelecido sem qualquer adesão à realidade e valores mais elevados, autorizando as mais variadas formas de relativização moral.

O engajamento é o único elemento necessário para sua inclusão social e ganhos particulares de sentimento de superioridade moral. Nada mais narcisista. Afeta sujeitos das mais variadas personalidades, do mais articulado ao introvertido, do mais inocente até o mais cínico. O ganho é fácil e imediato. Basta que encontre a pauta e pessoas que tenham uma opinião diversa.

O comportamento é massificado. As facilidades da adesão e a oferta de benefícios permitem que as pautas se tornem uma preferência de um determinado público. Inevitavelmente, o “mercado” – em seu sentido mais abrangente, incluindo cultural, artístico, publicitário, comercial, etc. –, mesmo sob o disfarce de virtuosidade, passa a ser um produto lucrativo para oferta e consumo. Além do ganho moral há a possibilidade de lucro efetivo (quando não confronta com a capacidade do consumidor de não aderir a “causa”).

O ciclo se fecha. A mentalidade predomina. O processo é naturalizado e se automatiza. A divergência, discordância ou resistência é escândalo. A reação é o “cancelamento”, que consiste em uma reação massificada contra o indivíduo, empresas ou instituição. Nesse processo é impossível estar errado.

O sujeito engajado segue o procedimento padrão de formular uma “narrativa” – storytelling, que dispensa a checagem de fatores individuais, pois a causa é sempre uma “injustiça social” contra um determinado grupo. A checagem das causas é absolutamente desnecessária, sendo inadmissível conceber que a causa de determinada circunstância que afeta indivíduos de um grupo tem origem em suas próprias condutas, decisões e infortúnios.

Seguindo esse padrão, chegamos ao episódio da condição carcerária de transexuais.

Confesso que é uma questão muitas vezes desprezada. Sim, muitas vezes por preconceitos de pessoas que confortavelmente não assumem qualquer medida para resolução do problema. Nisso é real a importância do trabalho desenvolvido pelo Dr. Dráusio Varella.

Essa deveria ser a linha de produção do programa Global “Fantástico”. Seria se limitar à retratação da condição de exclusão de presos geradas por ausência de um regramento e tratamento de pessoas sujeitas a abusos, violência e condições degradantes, como, diga-se, que também afetam outros presos por causas diversas. O ser humano sob custódia estatal prisional tem de ter resguardada sua integridade física e psíquica pelos agentes públicos. É importante dizer que o mesmo direito assiste a vítimas ou qualquer outro cidadão.

Para isso é necessário se compreender onde a exclusão é causada, se pelo estigma social sobre pessoas transexuais ou por suas próprias condutas individuais, no modelo sugerido por Thomas Sowell.

É nisso que falhou a produção do programa, que, partindo da ideia pré-concebida de que toda exclusão dos presos transexuais é culpa da sociedade preconceituosa, não cogitou a possibilidade de o isolamento ser causado pela conduta atroz, vil, diabólica, hedionda, do personagem Suzi. Basicamente o procedimento foi: “– se Suzi está isolada e abandonada há 8 anos é porque sofre preconceito por ser transexual”.

O programa veiculou uma falácia. Ao publicar uma matéria de jornalismo, ignorou um fato relevante que contrariava a narração: o preso não foi excluído por ser transexual, mas por seus crimes gravíssimos. O fato é determinante para o juízo do telespectador. A omissão proposital é grave. A omissão por entender que não afeta os fatos é descomprometimento com a verdade jornalística.

Um descuido causado por uma mentalidade ideológica e militante, que realmente tinha mais do que um propósito informativo, mas a finalidade de produzir engajamento em seu público.

Sim, houve um erro do Programa ao retratar, injustamente, Suzi como vítima do preconceito social. A resposta comprova a postura ideológica analisada no início. Insistem que tudo é causado por preconceitos, culpa da sociedade, sobre determinado grupo, excluindo todas as características individuais e escolhas pessoais, além das consequências de seus atos.

O programa prestou um certo desserviço ao problema real. Apenas fomentou um debate circundado por fatores ideológicos. Em se tratando de um programa dito jornalístico, houve preferência à “causa” em detrimento da retratação dos fatos. Isso até fomenta mais preconceito e falsas desculpas para atos discriminatórios.

É a comprovação de que a mentalidade progressista é capaz criar personagens irreais, tornando um homicida e abusador sexual de crianças em vítima da exclusão social. O “conflito social” elimina um elemento essencial e suas nuances, no caso, a ação humana.

Esse grande problema da sociedade midiática atual remete ao tema do livro de Richard M. Weaver “As ideias tem consequências”, especificamente ao apontar o problema de se rejeitar a natureza humana e a personalidade do indivíduo, criando um mundo paralelo do desejo.  

A adesão do público também é prova do comportamento massificado e dessa nova moralidade social progressista, que permite com simples adesão à causa manifesta, a satisfação pessoal, que supostamente é capaz de modificar a sociedade e eliminar seus problemas.

O público se engajou na solidariedade cínica, que dispensa qualquer sacrifício pessoal e ainda oferece uma grande satisfação ao ego.

A mentalidade do programa e do seu público sentenciou no caso Suzi: “A culpa é sua”, ou seja, de toda a sociedade, isentando o sujeito de qualquer consequência de suas ações.

Não enxergar o problema demonstra que está preso em um “Presídio Ideológico Mental”.

É preciso registrar que o grande problema gerado pelo programa não pode ser igualmente instrumentalizado por grupos ideológicos contrários às pautas, sob pena de agir do mesmo modo, apenas com sinal trocado. A agressão, eliminação da voz discordante, boicote, entre outros, serve apenas aos fins pessoais ou preferencias, que revela a absoluta irresponsabilidade individual, descomprometida com a resolução dos problemas reais.

Se é incapaz de se solidarizar com o problema da condição precária e social de transexuais, igualmente se “desumanizou”.

Assim, na esteira do Documentário ficcional de Petra Costa, o Fantástico produz o Jornalismo ficcional, que prestigia apenas a ideia, em desfavor dos fatos.