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Professor de filosofia e diretor de jornalismo do MBL. Entusiasta da filosofia, [geo]política, economia e literatura.
O ‘jeitinho patrimonialista’

Aos amigos tudo, aos inimigos a lei

22/11/2019 16h17

Mais conhecido como “jeitinho brasileiro’, essa prática que define a identidade da nação muitas vezes é vista como algo positivo, um charme ou sinal de esperteza. Se analisada com frieza, é possível perceber os malefícios que este modus operandi impregnado em nossa natureza pode causar.

Antes de mais nada, é necessário entender as origens do jeitinho, que obviamente se encontram em uma colonização indiferente dos portugueses. O país pouco tinha interesse pelas novas terras, não havia intensão de migração para a colônia, exceto condenados que tinham a pena comutada e eram lançados para serem precursores da colonização.

A família real só se mudou para o Brasil quando se viu encurralada pelo imperador francês, Napoleão Bonaparte. Antes disso, os que se destinavam às terras tupiniquim majoritariamente vinham sem família e com o interesse de acumular riquezas de forma rápida. Entre 1550 e 1855, o Brasil recebeu cerca de 4 milhões de escravos trazidos da África.

Os portugueses podiam fundar vilas, cobrar tributos e manter o monopólio da justiça. Desse modo, as raízes do país estão em um sistema de “desigualdade”, isto é, as regras e leis são válidas apenas para alguns, enquanto um grupo seleto está acima das mesmas normas. Essa noção de “diferenciado” se imprimiu na identidade do brasileiro, que até hoje acredita que há uma singularidade que o permite descumprir as regras em benefício próprio.

É muito comum o exemplo do “fura fila”, que parece banal se comparado aos roubos bilionários do colarinho branco. Todavia, em uma linha de progressão, é possível traçar diversas formas de representação do jeitinho até chegar nos grandes esquemas de corrupção. Por exemplo, usar um parente do cartório para conseguir mais rapidamente um documento, enquanto pessoas comuns terão de esperar; pedir a um parente vereador para agilizar o atendimento em um hospital etc.

São pequenas atitudes que explanam uma péssima formação histórica que resulta de uma colonização indiferente e sem princípios norteadores, como a Carta Magna inglesa. Essa formação, além do sentimento de desigualdade, resultou no patrimonialismo. Não há distinção entre a Fazenda do rei e a fazenda do reino, isto é, não se distingue público e privado, tudo faz parte do patrimônio do governante, ao mesmo tempo que o povo também não tem a noção do que é privado ou público.

Apesar de haver uma diferença de grandeza entre o patrimonialismo de um governante para um governado, ambos operam na mesma lógica: a de se colocar acima dos outros para obter vantagens para si e para os seus. Como dizia Maquiavel: “Aos amigos tudo, aos inimigos a lei”.

Como já disse outras vezes, o Brasil vive ciclos repetitivos de populismo, no qual o político é um representante do povo contra as elites e o estamento burocrático. Há certa verdade no discurso, mas nesse caso, o político é um reflexo do povo, o reflexo do jeitinho brasileiro representado no suprassumo do patrimonialismo; na indicação de parentes para cargos públicos; no uso da máquina estatal que deveria defender a justiça para defender seus parentes.

É mais complexo dizer que o poder corrompe em um país com este, pois o povo está corrompido por essa cultura da malandragem de tirar vantagem em tudo. Isso se intensifica com a romantização dessa malandragem, é bonito ser malandro no Brasil. A sociedade brasileira chegou ao ponto de achar bonito ser bandido, uma cultura engrandecida pelo funk, que faz apologia do estilo de vida malandro.

Haveria, afinal, uma luz no fim do túnel? Após tanto pessimismo, digamos que é possível; deve-se acreditar que a ocupação de espaços por parte das massas via internet provoque uma emancipação. A tomada de consciência de seu estado é o primeiro passo para a mudança, portanto, é preciso aproveitar o momento em que a sociedade se aproxima e se interessa pela política para trazer mudanças em relação, principalmente, a essa natureza patrimonialista.