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Acadêmico de Direito, filiado ao Cidadania, Editor do MBL News e Comentarista do Café com MBL.
O Escola Sem Partido morreu, mas passa bem

O Movimento Escola Sem Partido anunciou o fim do programa a partir de 1º de agosto.

22/07/2019 13h41

“Na semana passada, o MEC divulgou os planos do ministério para os próximos 3 anos e 5 meses de governo. De novo, nem uma palavra sobre doutrinação, ideologia de gênero e Escola sem Partido.”

– Movimento Escola Sem Partido

No último dia 18, o Movimento Escola Sem Partido anunciou em suas redes sociais o fim do programa a partir de 1º de agosto.

Segundo Miguel Nagib, fundador do movimento, a falta de apoio do governo Bolsonaro e de empresários que aderiram à causa motivaram a decisão.

Como coordenador do MBL – São Paulo, núcleo que é a “via de ação” de Fernando Holiday, vereador que propôs o ESP como Lei Municipal, há tempos já estava desgostoso com a proposta. Vamos às motivações.

O inicio e o meio virtuoso.

O Escola Sem Partido foi criado em 2004 para “Defender interesses de pais e estudantes preocupados com a influência ideológica na educação, seja política, religiosa, partidária ou moral”. Havia um quê virtuoso no programa: a doutrinação ideológica nas salas de aula era óbvia para quem flertava com a direita.

Com isso, veio a tentativa de mudanças via projetos de lei que visassem coibir a chamada “doutrinação ideológica”, mostrando aos alunos que eles tinham direitos e, os professores, barreiras. A chamada era do “É só um cartaz…”, teve em Fernando Holiday o seu principal expoente.

Perdi as contas de quantos debates presenciei entre a tríade Fernando Holiday, Arthur Mamãe Falei e Kim Kataguiri versus alguém da alçada de uma Carina Vitral. Sempre com a extrema esquerda negando o óbvio ululante que acontecia nas salas de aula. Com certo exagero de tom do MBL.

Mesmo com esse exagero caraterístico em anos passados, eu já notava uma diferença de tom no quanto o MBL defendia essa pauta e o quanto grupos mais à direita defendiam. Para esses grupos, o Escola Sem Partido cumpriria uma função policialesca, denuncista e paternalista. Começava a cheirar mal.

Eleições de 2018: os radicais radicalizam o radical.

Eu já escutava, mesmo entre lideranças do próprio Escola Sem Partido, que o objetivo dos projetos de lei era, sobretudo, gerar o debate em torno do fato concreto: a doutrinação ideológica de esquerda nas salas de aula. A mudança seria cultural, não política. O conservadorismo dava o tom do método.

Vereadores e deputados faziam um escarcéu para debater o projeto, mas na hora de votar, fugiam. A ideia não era votar, era discutir.

Nas eleições de 2018, como o Escola Sem Partido já era unanimidade perante a direita – com o método da discussão e não da aprovação do projeto – certos grupos resolveram radicalizar a abordagem. Uma espécie de “Eu defendo mais o ESP do que você!”. Era o auge do denuncismo policialesco e paternalista.

A deputada estadual Ana Campagnolo (PSL-SC) incitara alunos a enviar vídeos de professores com “manifestações ideológicas” e uma versão mais rigorosa do Escola Sem Partido era apresentada na Câmara, colocando como direito dos alunos gravar as aulas e proibindo grêmios estudantis de fazer “atividade político-partidária”.

A autonomia do aluno se esvaíra. Eles não precisavam debater em sala de aula ou defender os seus ideais, bastava gravar e mandar para o politico, que estava resolvido. Cheira paternalismo? E é.

A questão dos professores brasileiros, tão delicada e difícil de ser resolvida, era deturpada. Melhores salários? Melhoria na capacitação? Plano de carreira e modernização da educação? Não! O problema é a doutrinação ideológica. Os professores eram alçados a inimigos públicos.

O denuncismo paternalista (herança lavajatista, gostem ou não), estava aí. Alunos com os celulares em mãos, prontos para pegar um professor com a boca na botija!

Não cheirava bem, veio o desembarque: Para Fernando Holiday, o ESP “Ficou estigmatizado como um projeto que vê o professor como inimigo. Quem o defende acaba associado a pessoas que querem censurar o professor. Muito disso se deve à comunicação equivocada pela direita”.

Foi bom enquanto durou, e durou enquanto estava sendo bom.

A esquerda sempre denunciou que o Escola Sem Partido era “lei da mordaça”. Não era. Mas virou.

Também virou questão central do debate da direita sobre educação. Defender ou não o ESP virou requisito básico na escolha de Ministro da Educação.

Mozart Neves Ramos, um dos maiores especialistas em educação no Brasil, era nome certo para dirigir o MEC, mas não defendia o ESP: não foi o escolhido. Nem Viviane Senna, irmã de um dos maiores brasileiros da história e diretora de instituo homônimo.

Veio o péssimo Ricardo Vélez, que durou poucos meses. Como se a direita perdesse os parâmetros do que precisávamos fazer na área educacional e os transferíssemos para a defesa de um projeto de importante discussão, mas lateral. O embate Tabata versus ministros da educação tem deixado isso bastante claro. Falta agenda.

Veio a morte do ESP. Eu não poderia deixar de comemorar sadicamente isso. Tinha medo dos desdobramentos, que ainda podem vir da Câmara, instigando a oposição e atrapalhando reformas importantes.

Cumpriu certo papel, o do debate. Morreu, mas passou bem. Quem está vivo tem coisas mais importantes para tratar na área da educação.