Acadêmica de Direito. Curiosa, inquieta, eclética.
O embaraço do feminismo moderno e seus preceitos questionáveis

De “doutrina que preconiza o aprimoramento e a ampliação do papel e dos direitos das mulheres na sociedade” à “atividade organizada em favor dos interesses das mulheres”.

17/01/2020 18h54

Parte 1:  homem e a mulher devem ter funções complementares, não similares

A partir do século XIX, iniciam-se as discussões sobre gênero e papéis sociais masculinos e femininos. Nesse contexto, surge o feminismo, que inicialmente lutava por melhorias trabalhistas (num cenário em que, ao serem inseridas no mercado de trabalho, as mulheres costumavam ocupar espaços inferiores). Apenas no século XX, as mulheres passaram a ter acesso à educação secundária e superior. As conquistas dessa revolução cultural: inserção da mulher no mercado de trabalho, acesso à educação, direito de votar e ser eleita…

Assim surge a mulher moderna: multifuncional.  Passa a desempenhar, portanto, as funções do homem na sociedade antiga, sem largar as próprias da sua natureza. Acredito que exista um “quê” de cuidado na maioria das mulheres. Com a casa, com a família… Para mim, é algo inato: gostar de ver a casa organizada e demonstrar amor por meio de atos de serviço. Sim, cozinhando, lavando e passando. Não que isso seja regra, mas é algo que observo nas mulheres ao meu redor. 

Onde quero chegar: em um relacionamento conjugal, é essencial que as funções do homem e da mulher sejam complementares, como é de sua natureza. Não somos iguais, e nunca seremos. Nesse sentido, é fundamental abrir mão da reatividade. É urgente abrir espaço à compreensão de que o homem não carrega em si a delicadeza e a doçura de uma mulher. De que, na maior parte das vezes, o homem não conseguirá cuidar dos filhos e da casa com a dedicação e a entrega da mulher, uma vez que sua natureza é o trabalho. O carinho, o cuidado e a proteção do homem se dão de maneira reacional, secundária. Por isso a mulher chata, intransigente, que não acolhe, enfraquece o homem. 

O embaraço do feminismo moderno, que atesta sua inconsistência, é a mudança de direção que ele sofre na passagem do século XX para o século XXI. De “doutrina que preconiza o aprimoramento e a ampliação do papel e dos direitos das mulheres na sociedade” à “atividade organizada em favor dos interesses das mulheres”. O incentivo à ação forte da mulher, ao abandono da feminilidade, da vaidade e da delicadeza tem sido a ruína dos relacionamentos modernos.

Parte 2: “você tem que trabalhar para não depender de ninguém”

A natureza, como um todo, é um espaço de interdependência. Todos nós, em algum momento da nossa existência, dependeremos de alguém. Essa teia de interdependência se inicia no princípio da vida, que para ser gerada, necessita de outra. Após o nascimento, existem as necessidades biológicas (como o aleitamento materno), além da carência dos cuidados e da atenção dos pais. A criança, como ser imaturo, é frágil e dependente, precisa da proteção adulta. Essa vulnerabilidade é parcialmente superada, progressivamente, pela capacidade humana de interagir, socializar com o outro.

É a interação com o outro, o intercâmbio social, que educa e constitui o processo formativo humano. Convivendo com o outro e dependendo deste é que nos tornamos mais afáveis, solícitos e flexíveis, menos obstinados e carrancudos. Em suma, é ilusória toda inclinação humana à autossuficiência. Portanto, esse burburinho é totalmente arrogante e prepotente. Por conta de preceitos como esse, a mulher entra numa posição de desespero e agressividade, fechando-se em relação ao homem. Precisamos admitir nossa vulnerabilidade e reconhecer que ser humano é ser dependente; que viver em sociedade é depender.

Parte 3: “beleza não põe mesa”

Estética: harmonia das formas e/ou das cores; beleza.

Beleza: caráter do ser ou da coisa que desperta sentimento de êxtase, admiração ou prazer através dos sentidos.

Essa parte do texto será uma homenagem inevitável a Roger Scruton, um dos maiores intelectuais conservadores do nosso tempo, que tem como especialidade a estética. Assistindo ao seu documentário “Why beauty matters?” não pude parar de pensar no quanto seu pensamento se encaixa perfeitamente a este tema. “Em qualquer tempo, entre 1750 e 1930, se se pedisse a qualquer pessoa educada para descrever o objetivo da poesia, da arte e da música, eles teriam respondido: a beleza. E se você perguntasse o motivo disto, aprenderia que a beleza é um valor tão importante quanto a verdade e a bondade. Então, no século XX, a beleza deixou de ser importante. A arte, gradativamente, se focou em perturbar e quebrar tabus morais. Não era beleza, mas originalidade, atingida por quaisquer meios e a qualquer custo moral, que ganhava os prêmios. Não somente a arte fez um culto à feiura, como a arquitetura se tornou desalmada e estéril. E não foi somente o nosso entorno físico que se tornou feio: nossa linguagem, música e maneiras, estão ficando cada vez mais rudes, auto centradas e ofensivas, como se a beleza e o bom gosto não tivessem lugar em nossas vidas. Uma palavra é escrita em letras garrafais em todas estas coisas feias, e a palavra é: EGOÍSMO. “Meus lucros”, “meus desejos”, “meus prazeres”. E a arte não tem o que dizer em resposta, apenas: “sim, faça isso!” Penso que estamos perdendo a beleza e existe o perigo de que, com isso, percamos o sentido da vida.”

É com base nesse pensamento, de que precisamos da beleza e da harmonia das proporções, que contrario a ideia feminista de que o belo é relativo e tudo pode ser bonito em sua exata forma. Acredito que a noção de aceitação deve permear a ideia de não se martirizar durante o processo de melhora, não de abandoná-lo por inteiro. 

Scruton ressalta também a noção de utilidade da sociedade do consumo. Nós, modernos, criamos uma inclinação ao útil, independente da sua forma. Aos poucos, a estética foi sendo colocada de lado. O que acontece é que nós precisamos de inutilidades tanto quanto, ou até mais, do que de utilidades. Um prédio que é útil mas não é bonito só serve para ser demolido, uma vez que é um ambiente inabitável ao olhar humano. Nós precisamos dos adornos, ainda que sejam inúteis.

O feminismo estigmatizou a beleza. No contexto hodierno, distinguir o que é bonito do que não é tornou-se ofensivo. Estamos rodeados de feiura e alienação. O que eu quero defender aqui é que sim, beleza importa! Mas Julia, o que as mulheres têm a ver com os prédios cheios de adornos inúteis? É simples. Esse é o prédio mais agradável ao olhar humano. Assim como a mulher arrumada é a mais agradável ao nosso olhar. Considero urgente o rompimento com essa noção de que a mulher não deve emagrecer, se maquiar, se vestir bem… Afinal, se te faz sentir melhor e mais agradável aos olhos do outro, que mal tem? Beleza põe mesa sim!

A parte final desse artigo, minha estreia no MBL News, ficará por conta do professor de filosofia, autor dos livros “A Imaginação Totalitária” e “Contra o Aborto” e dono de uma das mentes mais brilhantes que já tive o prazer de conhecer, Francisco Razzo. Que fique registrado aqui minha admiração por você, professor, e felicidade de construirmos esse artigo juntos. Espero que vocês gostem!

Parte 4: as dificuldades do aborto

Um dos argumentos mais divulgados para descriminalização do aborto reza o seguinte: aborto é decisão de foro íntimo da mulher. A atual cultura dos direitos humanos trata isso como um progresso histórico, uma conquista dos movimentos feministas, sobretudo a partir da década de 60.

“A decisão cabe à mulher”, “Meu corpo, minhas regras”. Resumindo: ninguém deveria se intrometer num assunto da esfera íntima do indivíduo”.

A força aparente desse tipo de argumentação minimiza e até exclui qualquer polêmica a respeito do estatuto moral do embrião. Nesse sentido, todo debate gira em torno da autonomia do corpo da mulher. A mulher é a única responsável pela decisão. A pessoa não-nascida em gestação, nesse caso, não passa de um intruso ou parasita. Se a mulher deseja abortar, problema é dela.

Como o aborto não é permitido, muitas mulheres recorrem a clínicas clandestinas. Portanto, se o aborto for legalizado, ele também resolve um problema de saúde pública. Dois problemas foram resolvidos com a legalização do aborto: o fim de uma cultura patriarcal que controla o corpo das mulheres e o problema do abortamento clandestino.

Como vimos, essa maneira de ver as coisas tem a vantagem de contornar o problema do estatuto do embrião. Em outras palavras, colocar de lado uma discussão filosófica mais difícil a respeito do significado e do valor da vida humana. Não se trata apenas de discutir quando a vida começa, antes, o ponto mais difícil é entender o que é a vida humana? Afinal, quando se pratica um aborto, quem inevitavelmente morre?

Ninguém parece estar disposto a assumir esse debate por tratá-lo como “filosófico demais”, “subjetivo demais”. Como se a filosofia fosse uma mera questão de opinião e não a busca racional por verdades objetivas.

O que é um embrião? Ele pode ser considerado membro de uma comunidade de pessoas? Por que contornar esses critérios por “questões sociais mais urgentes”? 

Há duas grandes dificuldades para os defensores do feminismo.

A primeira dificuldade pode ser resumida assim: o argumento da autonomia do corpo não exclui a dificuldade de que, se o feto for realmente uma pessoa, o aborto fere um direito fundamental. O direito à vida — sobretudo a vida de um inocente — não pode ser desprezado simplesmente por um capricho da liberdade.

Quem determina se o embrião é membro de uma comunidade de pessoas? A decisão da mulher pode determinar isso? Bom, se for assim, a decisão do aborto não passa de uma relação determinada pelo puro jogo de forças. Ou seja, não passa de uma relação de submissão da mulher e do embrião.

A mulher, dona do próprio corpo, impõe ao suposto intruso, o polo fraco dessa relação, uma sentença de morte. E, mais do que isso, ela pode determinar que aquela “coisa que habita o corpo dela” não é pessoa. Em outras palavras, a decisão da mulher em abortar se justifica não só pelo desprezo à vida, mas também pela capacidade de determinar quem é merecedor de dignidade e quem não é. A liberdade do aborto dá a mulher a legitimidade de dizer que merece ou não merece ser tratado como pessoa. Isso não significa combater o patriarcalismo, na verdade, significa transformar a liberdade no mais puro ato de tirania.

A segunda dificuldade está no fato de que nenhuma gestação acontece pela decisão exclusiva de uma mulher. Ter filhos consiste numa parceria entre mulher e homem. Não se reduz a um assunto de “mulher” ou “de uma mulher”. Essa parceria forma uma primeira comunidade moral. O filho em gestação é tanto da mulher quanto de seu parceiro. Nesse sentido, a decisão do aborto jamais poderia ser uma decisão de foro íntimo da mulher, mas uma decisão que envolve todas as partes envolvidas.

Referências: 

  1. Norbert Elias – os processos sociais – Interdependência e mudança social… – Veja mais em https://educacao.uol.com.br/disciplinas/sociologia/norbert-elias—os-processos-sociais-interdependencia-e-mudanca-social.htm?cmpid=copiaecola
  2. Interdependência humana e experiência formativa
    http://rdplanalto.com/noticias/18442/interdependencia-humana-e-experiencia-formativa
  3. Why beauty matters? Documentário de Roger Scruton https://www.youtube.com/watch?v=W5tuGjzXJ9k&t=3110s
  4. A maravilha da ação submissa da mulher- Ítalo Marsili https://youtu.be/nrww6wsNtt8