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Estudante interrompido, músico frustrado, cozinheiro irregular e fundador (e membro mais controverso) do MBL - Movimento Brasil Livre.
“Nunca mais voto nesses caras”: entenda o drama do PSDB

SÃO PAULO – “Um grupo de bombeiros políticos caminha ansiosamente através da fumaça e das vigas retorcidas;

28/11/2018 18h35

SÃO PAULO – “Um grupo de bombeiros políticos caminha ansiosamente através da fumaça e das vigas retorcidas; por entre fios desencapados e pedidos de salvação, eles ziguezagueiam velozmente, com olhos atentos, em busca das vítimas de um terremoto eleitoral de proporções dantescas. Um ou outro líder do centrão é encontrado, com vida, apresentando escoriações diversas. Abraçam-se e choram sem acreditar que ainda estão vivos. “Nem sei como me reelegi!” — gritam eles, enquanto negociam vagas na ambulância. Comovente.

Trajando farrapos, o ex-BBB Jean Wyllys é encontrado em coma, eivado de estilhaços e purpurina. Os paramédicos conseguem reanimá-lo dramaticamente, ainda que sua pressão eleitoral estivesse abaixo dos 25 mil votos. Um milagre para os progressistas ali presentes! As notícias, alvissareiras, não se repetiram para raposas históricas que jaziam nos destroços; os corpos de Eunício Oliveira e Romero Jucá eram embalados em seus sacos funerários, mais parecendo uma pasta confusa que oligarcas patrimonialistas. Além destes, fragmentos de Leonardo Picciani e Edison Lobão eram reconhecidos por seus familiares, que choravam copiosamente a perda de suas boquinhas.

Nada, porém, se assemelhava àquilo que fora visto após as retroescavadeiras iniciarem seus trabalhos: uma multidão catatônica de sociais-democratas se revolvendo, entre espasmos de lucidez e delírios centristas, em busca de uma saída por debaixo dos escombros que soterraram seus sonhos e ambições. “Vejam, um tucano!” — alertou o operador da máquina. “Alguém tira essa gente daqui! Logo vão morrer!” — emendou o paramédico, no que foi seguido pela valente movimentação dos bombeiros. Os políticos e burocratas resgatados encontravam-se em estado deplorável; haviam perdido litros de base eleitoral, e clamavam por transfusão de popularidade dos bancos de voto da classe média. Não funcionou; os paramédicos sabiam que a rejeição do centro-sul ao tucanato era irreversível, podendo levar as vítimas ao óbito. Entubaram os emplumados, embarcaram nas ambulâncias e os enviaram ao Hospital, na expectativa de algum procedimento mágico que os salvasse. As esperanças, porém, são exíguas. Os tucanos agonizam sem cessar…”

O fim do Partido da Social Democracia Brasileira é tratado como fato pelos corredores de Brasília. Outrora reserva reformista, era voto certo da classe média para os pleitos majoritários. Amealhou todos os cargos possíveis — da presidência da República aos governos de todos os principais estados. Implantou o Plano Real, acelerou o processo de privatizações e instituiu a lei de Responsabilidade Fiscal. Foi do PSDB a ideia de que as contas públicas, de alguma maneira, tem que ser respeitadas. Um luxo na banânia. Ainda que social-democrata em sua essência, serviu por duas décadas como habitat para economistas liberais e alguns poucos representantes do conservadorismo nacional. Nomes como Rogério Marinho(RN), Emanuel Fernandes(SP) e Nelson Marchezan Jr. (RS) eram minoria em uma máquina fundada pelo Príncipe dos Sociólogos, mas encontravam no tucanato o refúgio ideal para uma carreira política sólida e respeitável. Fazia sentido: o projeto liberal do PFL/DEM naufragara entre coronéis e divisões internas; o PP tornou-se fábrica de pilantras, e o antigo PL, naturalmente liberal, fundiu-se com o folclórico PRONA para redundar no PR de Tiririca e Waldemar da Costa Neto. Simplesmente não havia espaço para liberais e conservadores exercerem sua vontade política. E o PSDB se aproveitou disso.

Originado de uma cisão do antigo PMDB, o PSDB foi um dos fiadores do pacto constitucional de 88. A visão de mundo expressa na carta magna contemplava um estado de bem estar social nos moldes europeus em um país nos moldes africanos. Apresentávamos desigualdades extremas, arcaísmos econômicos e um sistema político velho e descreditado. Respondemos à moda dos vencedores da redemocratização: com direitos impagáveis, labirintos burocráticos e uma nova elite política, sustentada pelas gritas por eleições vindas da classe média.

Nenhum partido representou melhor esse Brasil nascente do que o PSDB: ele atendia os anseios por democracia e modernização, por direitos sociais e estabilidade institucional. Mais do que o MDB e o PT, fora o PSDB quem encarnou o Brasil que ressurgia dos escombros do Regime Militar. Sua chegada ao poder, quase que natural após a queda de Fernando Collor, apenas confirmava a adequação histórica do partido ao pacto político daquele novo país. Era o sapato certo que cabia no pé do brasileiro.

Vieram os governos Fernando Henrique, a hegemonia no estado de São Paulo e a ramificação do partido por todo território nacional. Unido ao PFL, pilotou o país com uma aparente aliança de Centro-Direita, enquanto impunha sua visão de mundo progressista na condução da política educacional e na insistente política de direitos humanos na área de segurança pública. A título de ilustração, no fim dos anos 90 São Paulo viu o pior de seus surtos de violência; a resposta do partido veio na forma da Campanha pelo Desarmamento, liderada pelo “Sou da Paz” do então tucano Denis Mizne. Iniciava-se o divórcio do partido com o povo que lhe elegera.

Alguns diziam que o flerte tucano com a agenda das esquerdas era uma sorte de aceno para seu passado gauche. Conduzindo reformas que não empolgavam, encontravam no petismo a oposição anacrônica que lhes apontava seu passado; de cabeça baixa, respondiam sem entusiasmo e flertavam onde podiam com o irmão mais bruto que almejava sucedê-los. O FHC que pedia para esquecerem o que escreveu, referindo-se à suas obras no campo da sociologia, era o mesmo que jurava ser de esquerda de pés juntos à imprensa. Desprezava as aspirações do homem comum que lhe elegera e entregou o país, razoavelmente ajustado, nas mãos do petismo que tanto lhe castigou.

Os anos ulteriores provaram-se cruéis com o partido. Era atacado implacavelmente por Lula e o petismo, recebendo a alcunha de “representante das elites” e “entreguista”. Enquanto amealhava o fruto político das reformas de FHC, o petismo estruturava sua máquina de guerra para eliminar do tabuleiro a oposição mais aguerrida — representada, à época, pelo antigo PFL. O PSDB sobrevivia nos estados, mantendo-se com galhardia nos feudos paulista e mineiro. Mas perdia vivacidade na disputa eleitoral, empilhando nomes insípidos como José Serra e Geraldo Alckmin diante de um colosso chamado Lula. Mesmo com o mensalão — maior escândalo político do país desde a redemocratização —, pouco podia ser feito. Um país cindido pelo discurso vermelho não encontrava a polarização necessária em gente sem sangue correndo nas veias. Um lado batia, ferozmente, enquanto o outro procurava aprovação e acordo com seu algoz. Não podia dar certo.

A década passada intensificou o distanciamento entre o partido e seus supostos representados. Alimentando-se de políticas públicas gestadas no Instituto Ruth Cardoso, abraçando o golpe contra o referendo do desarmamento e inserindo em suas gestões os valores progressistas repudiados por seus eleitores, o tucanismo isolava-se gradualmente de sua base social. A pusilanimidade com que combatia o PT produzia um caldo latente de inconformidade na classe média que não se espraiava em lugar algum, posto que não haviam instrumentos diversos de representação. Um ódio reprimido crescia, mas não estourava. Um novo país era fermentado no isolamento político por eles imposto. Chegava a ser cômico: em 2010, José Serra utilizava como plataforma a ideia de que ele poderia ser o sucessor mais capaz de Lula — como se seus eleitores estivessem ávidos por uma continuidade. Perdeu, como fracassou Geraldo Alckmin, 4 anos antes, com seu patético colete anti-privatizações.

Você não quer votar num cara desses.

As diferenças regionais e econômicas que se acirraram durante os anos de petismo acabaram por produzir um eleitorado aguerrido e engajado justamente no lado que mais perdia. E este bloco social passou a contar com um aliado que jamais previra: as redes sociais, que propiciaram o surgimento de formadores de opinião e de novas instâncias de representação política, que vão desde páginas amorfas de facebook ate movimentos sociais atuantes e complexos como o MBL. Foi uma revolução. O grito de revolta que estourou em 2013 — febre que efervescia após anos de repressão interna —, deu início a um frenético processo de construção política dentro dos setores médios, além de acalorados debates entre liberais e conservadores sobre os rumos a serem tomados ao longo do processo político. As discordâncias sobre o método — especialmente explícitas durante a querela entre Olavo de Carvalho e MBL no impeachment — giravam sempre ao redor da função que o partido tinha diante do surgimento dessa nova direita. Para uns, o PSDB deveria ser isolado e destruído; para outros, utilizado e descartado após o ingresso no poder de novas lideranças direitistas.

As denúncias na Lava-Jato e o fracasso do modelo Dória — último patch de atualizações do partido, que triunfou nas eleições de 16 e falhou nas gestões municipais — somaram-se à péssima imagem cultivada pelo agrupamento ao longo do processo de impedimento de Dilma Rousseff. Não é injusto dizer que a primeira das grandes vitórias dos movimentos de rua foi justamente o afastar o PSDB da liderança do Brasil que se insurgia; Aécio Neves, com seus 51 milhões de votos, foi convertido em traidor ilegítimo — não sem antes tratar o impeachment como “golpe” — enquanto tentava postergar o processo com malandragens jurídicas, ainda em 2015. Alijá-los do comando do processo revolucionário era premissa tanto dos mais moderados, como o Vem Pra Rua, até dos mais exaltados , como o Revoltados On Line. E funcionou. O desgaste resultante de todo esse processo culminou na candidatura de Geraldo Alckmin, em desavergonhada aliança com o que há de mais velho e carcomido na política patrimonialista do país. Fazendo uso do fundo eleitoral — mais âncora que vela para os barquinhos dos candidatos — Geraldo e seus pleiteantes ao legislativo produziram uma das mais humilhantes derrotas eleitorais da democracia brasileira, comparável apenas, talvez, à triste candidatura de Ulysses Guimarães em 1989.

Futuro incerto

Os menos alarmistas dirão que João Dória venceu em São Paulo….mas a que custo? O “gestor moderno” de outrora transmutou-se em velho politiqueiro a reboque de Kassab. Vive a mendigar apoio de Bolsonaro nas redes sociais, seja com a constrangedora hashtag #BolsoDoria, seja com declarações artificiais na área de segurança pública. Teve a honra de quase perder as eleições estaduais para um politiqueiro esquerdista do quilate de Márcio França — e assistiu impávido o triste derretimento da bancada de deputados estaduais de seu partido. Outros tantos apelarão para Eduardo Leite, fruto último da tecnocracia progressista de ONGs como a Comunitas e o instituto da “Dona Ruth”. A se ver. O quadro nacional é suficientemente nebuloso para ofuscar eventual brilho de Dórias e Leites em seus estados. A bancada federal caiu de mais de 50 legisladores para 28; grandes nomes como Rogério Marinho e Bruno Araújo perderam seus mandatos, ao passo que partidos como PSL e NOVO — além de nomes da nova direita, como Kataguiri e Arthur — tomam os corações e votos de seus antigos eleitores.

O comentário geral é de espanto. Os poucos eleitos do novo partido médio da República revezam-se, à boca pequena, nas críticas aos rumos tomados pela legenda nos últimos anos. É consenso que o partido foi o principal óbice ao bom desempenho de suas candidaturas, queimado que estava com o eleitorado que sempre os elegeu. É um eleitor renovado e rancoroso, que teme e odeia o petismo por sua roubalheira autoritária, mas que despreza profundamente seus antigos representantes pela vergonha que tiveram em defender seus valores. Chega a ser engraçado: o eleitor petista reelegeu seus deputados; o (outrora) tucano, lhes estendeu uma banana.

Assim como um Brasil morreu em 88 no pacto firmado entre sociais democratas e patrimonialistas, outro encontrou seu derradeiro fim nas eleições de 2018. Foram 30 anos de falsa oposição entre trabalhistas, progressistas e sociais liberais, relegando os anseios dos setores médios da sociedade ao escanteio político e moral. Isto agora acabou. Ao resto de partido que converteu-se o PSDB cabe a inglória tarefa de reconstruir-se como alternativa ou se entregar aos novos tempos, faccionando-se em alas a serem absorvidas pelas forças políticas em ascensão. FHC, Jereissati, setores do PPS, da mídia, do empresariado e da intelectualidade almejam a reconstrução de uma nova alternativa, de centro esquerda, que atue no seio da classe média pregando uma “nova política”; outros nomes, como João Doria e Bruno Araújo, pretendem atualizar sua social democracia para um partido alicerçado na tomada de posições junto ao grande público que se insurge contra o velho sistema político. Em comum, ambas as alternativas partem do princípio de que o fenômeno da nova direita é efêmero, e que irá demolir diante das próprias contradições e do negacionismo político que lhe alçou ao poder. Pretendem, instintivamente, reestruturar o sistema político em chamas enquanto criam soluções top down que lhes devolvam a proeminência de outrora; soa como a reformulação da elite política, livre dos vícios morais das gerações anteriores, mas ainda distante das crenças que levaram seus eleitores a construir seus próprios caminhos.   

Não é absurdo imaginar que algum espaço destinado à uma centro-esquerda democrática possa existir no seio da classe média; Bolsonaro patinava ao redor dos 23% antes da facada, provando que o conservadorismo de suas posições não é o eixo central que o levou ao palácio do planalto. Ainda assim, a ascensão da direita política — representada pelo fenômeno que se iniciou em 2013, ganhou direção (e lado) no impeachment, e culminou no terremoto eleitoral de 2018 — é um fato inegável que não poderá mais ser ignorado. Ganhou representação e corpo, além de base intelectual, midiática (alternativa) e social. Neste cenário, o velho PSDB de 1987, com o rigor caipira de Geraldo e a pusilanimidade moral de Serra e FHC, não tem espaço algum. Resta saber se o partido, reformulado e livre de suas máculas, será capaz de sobreviver num ecossistema turbinado pelo espetáculo das redes sociais. Se prosseguir com a alternativa proposta por FHC e Jereissati — que redunde, inclusive, numa migração para o PPS —poderá ser o porto seguro para candidaturas midiáticas como as de Luciano Huck; caso o caminho escolhido siga o perfil de João Dória, teremos um simulacro de nova-direita, enxergado como ilegítimo mesmo quando virtuoso.

O PSDB ainda não ergueu-se do pleito. Respira por aparelhos, na melhor das hipóteses. Protagonizou com o MDB a vergonha do aumento de salários para o STF, ato que corrobora o desprezo do eleitorado. Não opinou sobre o resultado eleitoral — à despeito dos constrangedores tweets de um  Geraldo Alckmin “preocupado com a democracia”. Mas quem liga para o agora professor da Uninove? A bancada em Brasília com certeza não. Estão fora do debate por cargos, nomes e espaço no novo governo; estão alijados da disputa por poder no seio da oposição. A bem da verdade, um terremoto atingiu a política e derrubou muitas construções. Nenhuma delas ruiu de forma tão intensa quanto o muro do PSDB. Era o preço a ser pago por anos de covardia e indefinição.