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Estudante interrompido, músico frustrado, cozinheiro irregular e fundador (e membro mais controverso) do MBL - Movimento Brasil Livre.
Noam Chomsky vem ao Brasil e não para de falar besteira. Mas confirma tese que você viu neste blog

Entre uma passada de pano e outra, o pensador americano desenha o caminho para a esquerda brasileira

28/08/2019 14h03

Noam Chomsky é — para o bem e para o mal — um dos maiores intelectuais vivos do mundo. Professor de linguística, autor de obras influentes em sua área, é também ativista político progressista e um dos maiores prosélitos de um tipo de esquerda arcaica e decaída.

Casado com uma carioca, Valéria Chomsky, o pensador norte-americano está mais uma vez no Brasil. E entre um encontro com Glenn Greenwald e passeio em Poços de Caldas (no que concordamos, Poços é realmente adorável), resolveu ceder uma entrevista à Folha de São Paulo, que revela bastante sobre a crise política envolvendo a Amazônia e sua visão psicodélica da política brasileira.

Selecionarei alguns trechos da entrevista para comentar por aqui.

“…(sobre a estratégia de comunicação) Bolsonaro faz o mesmo. As políticas socioeconômicas adotadas nas últimas gerações, principalmente na era neoliberal, foram muito prejudiciais à grande maioria da população.

Nos EUA, houve crescimento, mas os salários reais dos americanos estão abaixo do que eram nos anos 1970. A concentração de riqueza tem um efeito imediato sobre o sistema político —uma das razões para o declínio da democracia na Europa e outros lugares.

O Partido Republicano foi dominado por alguém que o establishment detestava. Estamos vendo o colapso das instituições de centro, por causa de raiva e ressentimento, que são explorados por demagogos como Trump, Bolsonaro, Matteo Salvini, Viktor Orbán.

Questionado sobre a estratégia de comunicação de Bolsonaro — e em última instância sua estratégia política — , Chomsky tergiversa. Faz um grande apanhado sobre a situação política americana e europeia, sobre Bannon e seus parceiros, e apenas pincela o nome de Bolsonaro como parte integrante de um fenômeno maior.

Além de fugir da questão em si, aborda o fenômeno da direita populista como resultado de uma insatisfação popular com políticas neo-liberais. Sério? Estamos nos anos 90? O reducionismo aqui presente — ignorando o próprio colapso fiscal e político das sociais democracias europeias — é incapaz de explicar a insatisfação social em democracias tão díspares como a inglesa, a americana e a brasileira.

Se há algum fator em comum nessa equação toda — que cruza fronteiras como nem o trotskismo jamais ousou imaginar — , é uma raiva, com ares de rebelião, contra as respectivas elites econômicas, culturais e políticas em seus respectivos estados. Ela se expressa no sentimento anti-imigração na Europa, mas pode muito bem se confundir com o fenômeno anti-corrupção no Brasil.

Reduzir tudo à questão econômica — sob um prisma, inclusive, falacioso — demonstra uma leitura por demais infantil do processo político, digna de um panfleto do PSTU. Ou alguém aqui considera que a “Nova Matriz Econômica” de Dilma Rousseff, que nos legou uma crise sem fim, era um exemplo olímpico de “políticas econômicas neoliberais“?

O PT está desacreditado devido às acusações graves de corrupção, que têm base, afinal de contas. Se Lula pudesse reaparecer, seria o tipo de pessoa que conseguiria reconstruir uma esquerda ativa e forte.

Mas, durante a campanha do ano passado, que ele poderia ganhar, silenciaram-no com uma pena que, mesmo que se acredite nas acusações contra ele, são, no mínimo, dúbias.

Ele não podia nem fazer pronunciamentos, ou dar entrevistas —não fazem isso nem com assassinos condenados. Era uma maneira de garantir que uma campanha incrivelmente forte em redes sociais colocasse uma figura de direita no poder.

Minha impressão é que a esquerda brasileira está completamente desordenada, há muita apatia, as pessoas estão apenas assistindo a tudo que está acontecendo, pensando “não podemos fazer nada então vamos esperar passar”.

Começando pelo final: sim, Chomsky acerta ao atestar a apatia e perplexidade da esquerda brasileira. A queda do projeto de poder petista fora traumática não apenas pelos episódios que lhe precederam e permearam — de gigantescas manifestações de ruas até a prisão de seu líder maior — , mas também pela morte, perante grande parte da população, de suas teses outrora inquestionáveis.

A esquerda está atônita no parlamento, na academia, nos sindicatos e nas redes sociais. E seu torpor torna-se mais pronunciado quando percebemos — e não há muito o que se fazer nesse sentido — que o lulo-petismo permanece sólido e impávido, fazendo sombra para toda e qualquer iniciativa alternativa no campo progressista.

Ainda assim, matreiro, pincela sua sutilezas aqui e ali como mestre no domínio da linguagem. Quando diz que “O PT está desacreditado devido às acusações graves de corrupção, que têm base, afinal de contas” , ele não considera as condenações tampouco a materialidade dos atos. São acusações — com alguma base. Ora, uma acusação, coisa tão besta… de que importa afinal de contas?

Não perderei tempo discorrendo sobre a tese da “sabotagem eleitoral”. Chomsky já visitou o ex-presidente em Curitiba. A visita em si já fala tudo.

Especificamente em relação ao PT, o partido deveria refletir sobre seus erros, porque se juntou à cultura generalizada de corrupção no país. Eles não inventaram essa cultura. Durante o governo Fernando Henrique Cardoso devia ser até pior, mas juntar-se a essa cultura foi um erro enorme.

Que resposta, senhores, que resposta! Agora, o PT tornou-se a virgem intocada que corrompeu-se diante da “cultura generalizada de corrupção”. Como se a corrupção — em todos os níveis — já não fizesse parte das gestões petistas desde o início dos anos 90. Celso Daniel e Luíza Erundina que o digam.

Sobrou até pro também intelectual Fernando Henrique Cardoso. Para Chomsky, a corrupção no período do tucano ‘devia até ser pior’. Prova disso? Nada. Mensalão e Petrolão são detalhe na linguagem política do professor.

O governo Maduro tem reagido à oposição popular de forma violenta e opressiva, e as últimas eleições presidenciais tiveram problemas sérios. Obviamente, as sanções de Trump transformaram uma crise em uma catástrofe.

(sobre a Venezuela) Há elementos democráticos. Ao contrário do que dizem muitos críticos estrangeiros, a imprensa é razoavelmente livre, há enormes críticas ao governo e apoio à oposição. O governo é repressivo, mas a imprensa continua crítica. E Maduro merece a crítica.

Indagado sobre a última grande experiência socialista no continente, Chomsky fez uso do embromation — uma arma retórica assaz eficaz em momentos de saia justa. Há elementos democráticos”, “o governo é repressivo mas a imprensa continua crítica”. Que diabos esse homem está falando? As redes de TV opositoras e os jornais locais foram fechados ou estrangulados economicamente. Mesmo as redes sociais são limitadas.

A passada de pano conta inclusive com certo ar de “independência”, bem ao estilo PSOL: para Chomsky, Maduro “merece a crítica“. Coisa simples, só pra manter a normalidade democrática. É só ele corrigir alguns detalhes e está tudo bem…

Na Europa, a mesma coisa. Já o Brasil ainda não desenvolveu uma oposição [a Bolsonaro]. Talvez agora, no contexto de duras críticas internacionais à destruição da Amazônia, isso surja. Talvez a partir disso surja a oposição real que deveria estar sendo feita.

É preciso que a crise na Amazônia funcione como um ponto de inflexão para a oposição. Se a crise na Amazônia continuar, o mundo inteiro vai sofrer.

Novidade? Este blog aqui já vem avisando faz tempo: a causa verde é instrumento de aglutinação para uma esquerda despida de propósitos. E não só aqui, como coloca Chomsky; o fenômeno é ainda mais poderoso na Europa e já reverbera nos Estados Unidos.

Meu último texto neste blog, aliás, foi exatamente sobre isto. Com base em dados e pesquisas recentes, é possível traçar a genealogia deste ambientalismo de ocasião, mais tábua de salvação do que militância legítima para os progressistas do velho continente. E terminei com um alerta:

Resta saber se ainda há tempo para virar o jogo. Para os políticos europeus, a vitória já está dada; eventuais sanções econômicas , focadas na agricultura brasileira, serão apenas a cereja do bolo.

Para a esquerda brasileira, que ainda adormece sob a sombra de Lula, pode ser o tão aguardado caminho para a reconstrução.

Renan Santos — artigo publicado na Sexta Feira

Chomsky reforça o alerta com a força de um intelectual e formulador do progressismo norte-americano. O caminho dado para a esquerda em pandarecos é apenas este. A ausência de soluções mágicas para o atual drama econômico — e o fiasco de Piketty é cadáver insepulto que confirma o diagnóstico — lhes aparta do status de alternativa para a prosperidade.

Resta-lhes a histeria apocalíptica acompanhada da perspectiva do paraíso em terra. Normal. Na real, o ambientalismo progressista se converterá em luta para transformar o mundo no “Jardim de Delícias” idealizado pelos antigos.

Soa tolo? Talvez. Ainda assim, mais factível — e menos cruel — do que o paraíso do proletariado imaginado por Karl Marx.