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Estudante interrompido, músico frustrado, cozinheiro irregular e fundador (e membro mais controverso) do MBL - Movimento Brasil Livre.
Ninguém gosta do MBL. E isso é ótimo

Quando independência é problema, o aplauso é doença.

01/07/2019 20h49

A recente onda de ataques ao Movimento Brasil Livre — coroada por uma agressão tragicômica de assessores da liderança do PSL na ALESP — é mais um episódio da interessante construção de um discurso coerente num país cuja política não é muito dada à coerência.

O MBL não é bolsonarista. Assim como nunca foi “temerista”, “dilmista” ou terraplanista. Ensaiamos um apoio pontual ao Dória em 2017 — alvo de arrependimento após alguns meses –, e ao Flávio Rocha em 2018. Em ambos os casos, tornamos públicas nossas discordâncias com transparência e boa vontade.

É, todavia, injusto comparar uma perspectiva eleitoral com a relação com o poder estabelecido. Quem está no poder deve ser vigiado — não importa sua matiz ideológica. Ponto. Quem tem o poder possui poder — perdoe a redundância –, e isso significa, antes de tudo, a incrível capacidade de interferir monumentalmente na vida privada de milhões de pessoas.

Além disso, o histórico recente do petismo nos deixa claro: a sociedade civil precisa de organismos políticos independentes, capazes de sobreviver à cooptação e ao servilismo, e aptos para mobilizar seu entorno em momentos em que seus valores mais caros estiverem em risco.

Digo isso pois o partido dos trabalhadores foi muito pontual em aparelhar esses entes de mediação e fiscalização — OAB, UNE, CUT, centros acadêmicos, ambiente universitário, redações de imprensa, etc –, permitindo que seu projeto de poder avançasse sem oposição durante mais de uma década.

O repovoamento da sociedade civil organizada passa não apenas pela reconquista destes espaços, mas também pela criação de novos agentes mais adequados ao ambiente político atual. O MBL é um destes casos, e assim vem atuando desde seu surgimento. Outros tantos nasceram e devem pipocar pelo cenário, advindos de campos políticos diversos e realidades sociais muito distintas.

Nossa história nos mostra, porém, que a tentação adesista costuma ser regra; que a vontade de fazer parte, que a temperança do espírito não baseada na justa medida — mas sim no relacionamento pouco republicano — costuma ser o vício fatal de nossas instituições públicas e privadas.

E essa tentação ataca novamente nesse ano de 2019. É fato que setores da direita foram devidamente estatizados — voltarei a escrever sobre isso nos próximos dias –; que linguagem, signos e até uma estética foram apropriados por agentes políticos ligados ao entourage do PSL. Pululam pela internet “movimentos” baseados na adesão irrestrita ao presidente e seu guru, como cavaleiros de uma cruzada que não sabem explicar.

Os estímulos são diversos: likes, views, fama, dinheiro, cargos. Youtubers competem entre si para provar quem é o mais servil, quem vai mais longe em nome da causa. Alguns correm para materializar os instintos violentos do seu guru — como o curioso grupo de São Paulo fez contra nós no último domingo. Outros fazem listas de falsos direitistas. Tudo é válido na lucrativa institucionalização da adesão.

Não me deterei, porém, na adjetivação dessa turma. Não há nada de novo em seu comportamento. A regra institucional no Brasil é justamente essa, a do servilismo. O que foi a UNE, a classe artística, os ditos “movimentos sociais” em tempos de PT? Não há nada novo sob o Sol, e a eterna repetição das coisas é a eterna repetição dos males. Quanto mais se sabe mais se pena. E o justo como o perverso, nascidos do pó, em pó se tornam. Eça de Queiroz — o lado bom da família — não nos deixa mentir.

É portanto compreensível que em um momento de adesão lucrativa, soe estúpido pregar a independência. Mais: num momento de alta polarização, de derretimento — e por que não? — de questionamento das instituições políticas, pregar fiscalização de tudo e todos, sem distinção, soa maluco, cretino, idiota.

O adesista chama a isso de covardia: aquele que ousa perder em nome da coerência é o pusilânime, enquanto o seguidor servil é uma espécie de guerreiro, um cavaleiro. Medieval, talvez. Guilherme Fiúza costumava denunciar tal comportamento em seu “Manual do Covarde”. É um bom livro.

Fato é que, para o movimento, apanhar das duas pontas — e nem me detenho aqui às diatribes da esquerda — é sintoma de sucesso, e não de arrependimento. Não queremos o aplauso fácil, e tampouco almejamos disputar espaço com a turma da adesão.

Sei que isso de nada adianta — o “expurgo do traidor” é sempre um mito interessante –, e que continuarão em sua jornada denuncista contra o inimigo do momento. É o MBL, mas já foi o Antagonista, Santos Cruz, Villas Boas e tantos outros. E sejamos claros, quem não gosta de malhar um Judas? As redes sociais facilitam a catarse. E dá like. E grana. E poder.

As dores do amadurecimento são parte necessária do processo. Se o MBL pretende-se sério, deve atravessar este Cabo da Boa Esperança resoluto e livre do adesismo. Só assim, poderá se tornar um instrumento verdadeiramente honesto a serviço de quem realmente interessa.

E esse alguém, obviamente, jamais será o poder estabelecido.