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Personal trainer, cota feminina no MBL, formadora de opinião dos meus cachorros e, nas horas vagas, lavo louça.
Nem o fundo do mar escapa do mimimi

O novo remake da Disney apresenta Halle Bailey, atriz negra, como protagonista do filme e gera divisão entre os fãs, acostumados há cerca de 30 anos, com a sereia ruiva.

10/07/2019 14h45

Vamos fazer um teste rápido para ver se você é preconceituoso?

Gosta de fazer arte, pula em um pé só e usa um gorro vermelho. Quem é?

Não é lá um gênio do comércio, pois troca dentes de leite por dinheiro. E aí, quem?

Aparece uma vez ao ano, curte presentear crianças, usa um meio de transporte alternativo e, possivelmente, não legalizado. Só pode ser….?

Caso suas respostas tenham sido: Saci Pererê, Fada do dente e Papai Noel; sabe o que isso prova a respeito do seu grau de preconceito? Absolutamente nada. Apenas mostra que você cresceu em um mundo em que o primeiro é negro e bastante magricela; a segunda é mulher, branca e, para mim, por volta da meia idade, e que o bom velhinho é o bom velhinho da Coca-Cola. Mas o motivo de todo esse rodeio? Politizaram até a Pequena Sereia. Ariel traz de volta o debate da “representatividade” e nos leva águas cada vez mais profundas, nas quais se ousar pensar na peixinha como a ruiva romântica do fim dos anos 80, pode ser que seja considerado preconceituoso.

Que sereias são seres controversos e intrigantes há anos, não é segredo. Chegaram a ser consideradas pelo cristianismo a corporificação do pecado, vaidade e tentação da carne na beleza exposta. Os gregos acreditavam que elas representavam os perigos do mar, a vaidade e a luxuria. Os africanos trazem a Deusa Mami Wata, que seria a mãe de todas as criaturas aquáticas. E as figuras femininas mitológicas não param por aí.  As híbridas estão espalhadas pelos 4 cantos do mundo. Desde lá do outro lado, no Japão (ningyo), até aqui no nosso folclore brasileiro, com a Iara. Sendo assim, mesmo com tantas opções, qual o motivo da briga por causa de uma princesa Disney? Bem, talvez seja por que ESSA princesa é ruiva! A personagem foi construída desta forma. E, diga-se de passagem, que se o assunto é “representatividade de minorias”, ruivos são uma minoria menor que a negra. Confuso, não é? Mas é verdade. Os ruivos representam entre 1 e 2% da população mundial de acordo com a Agência de conteúdo “Cartola” e isso dá por volta de 140 milhões de sardentinhos espalhados por aí. Pois bem, só no Brasil temos quase o mesmo número de pessoas que se consideram negras ou pardas.

Mas vamos jogar limpo? Não é pela representatividade. Uma vez que fosse, novas princesas e/ou heroínas estariam sendo criadas. Criadas do zero! Com histórias fortes, fantásticas e que também batessem recordes de bilheteria com a finalidade de virarem franquias. Então, se não é pela tal da representatividade, pelo que seria? Talvez seja para manter a boa e velha cortina de fumaça que mascara problemas reais. Ou ainda para criar mais desunião e divisão. Afinal, o “divide at impera” (dividir para conquistar) costuma dar certo desde antes das primeiras sereias. Pode ser também pelo desespero de criar toda essa polêmica na tentativa de ganhar mídia e apenas… vender mais. De uma forma ou de outra, fica evidente que o que menos importa aqui é a representação.

A sentença de preconceito para todos que apenas notam óbvio, demonstra o grau de imaturidade do debate e como estamos longe de ganhar verdadeiras batalhas. Perdemos tempo com essa espécie de “cota cinematográfica” na qual o personagem não foi construído, mas sim, concedido e deixamos de criar, apoiar e unir mulheres, seja de qual cor forem, para cair nessa ladainha de “sereias podem ser negras, seu racista!”. Aliás, podem, viu? Mas a Ariel não é!

 “Eu ainda acho melhor dizer que se arrependeu do que dizer que não teve coragem de tentar”, disse a princesa do mar da infância. Será que era a coragem de copiar a qual se referia? Sinceramente mal posso esperar o remake de BRANCA de Neve e os sete anões.