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Escritor de meia dúzia de artigos, comentarista eventual do MBLNews.
“Não vai ter golpe”. Ode à ousadia e independência política

Independência ou massa, rumo ao incerto.

03/09/2019 23h42

Escrevo nesse momento ainda embevecido pela exibição do documentário “Não vai ter golpe” no cinema em São Paulo na noite de ontem (2). Confesso que não tinha certeza do que poderia ser exibido em termos de montagem, estética, argumento e narrativa, apesar de ter os fatos relacionados ao contexto político da história bem fresco na memória. Ao término, em todos esses aspectos, considero que fui surpreendido. Sem medo de errar, o “doc” tem um caráter inovador em termos de linguagem audiovisual, especialmente quanto aos documentários políticos, cujo elemento essencial entendo é a maneira como o material é produzido, com características próprias da vivência da rotina do próprio movimento.

O filme segue o padrão “MBL” de não desperdiçar boas ideas (ao menos aparentes), motivo pelo qual apresenta um formato fluído e diversificado, com variações na forma e apresentação, mas seguindo um ritmo empolgante, sem qualquer preocupação quanto a revelação das reações, atitudes, decisões, intimidades e estratégias, dos seus integrantes desde o seu início, sendo o padrão estabelecido será muito díficil de ser reproduzido, especialmente para documentários políticos. O espectro político de direita carecia de material com este conteúdo, vivenciando um deserto na área cultural.

Depois dessa “puxada monstra”, mas sincera, utilizo como pano de fundo para destacar um elemento que foi, é e será essencial como referência para a orientação política. Trata-se da INDEPENDÊNCIA. O filme revela essa característica ao reproduzir o que seus criadores e produtores curtem e costumam expressar. O movimento foi exposto em sua realidade nua e crua, com sua principal característica de adotar ideias ousadas, estranhas e aleatórias, orientadas por objetivos específicos, ou seja, ideias aparentemente doidas, mas que por razões inexplicáveis acabam alcançando êxito. 

A indignação foi o fator propulsor de toda ação política que resultou no enfrentamento até a derrubada do projeto petista de poder. A crítica agressiva, a confrontação, a exaltação, foram necessárias para superar toda a máquina que ocupou o estamento burocrático político-ideológico que se arraigou no estado brasileiro. A revolta gerou desprezo popular pelos mandatários do poder, estimulando toda sorte de questionamentos e insultos. Isso tudo pode ser considerado necessário, mas como um navio que pendia à bombordo, para contrabalançar, todo o peso foi deslacado à estibordo com toda força. Sem um timoneiro orientado, o navio segue em sentido incerto, que se concentrado sempre para um canto, o trajeto será obviamente circular.

O sentimento de urgência que resultou na tomada de uma ação imediata, ao mesmo tempo, gerou um grau de incerteza extremo e necessidade de minimizar o temor e incerteza seguindo a ação natural do ser humano que é a concentração em massa, no sentido prestado pelo italiano Elias Canetti, no clássico Massa e Poder:

“Não há nada que o homem mais tema do que o contato com o desconhecido. Ele quer ver aquilo que está tocando; quer ser capaz de conhecê-lo ou, ao menos, qualifica-lo, de classificá-lo. Por toda parte, o homem evita o contato com o que lhe é estranho.”

“Somente na massa é possível ao homem libertar-se do temor do contato. Tem-se aí a única situação na qual esse temor transforma-se no seu oposto. E é da massa densa que precisa para tanto, aquela na qual um corpo comprime-se contra o densa inclusive em sua constituição psíquica, de modo que não atentamos para quem é que nos ´comprime´. Tão logo nos entregamos à massa não tememos o seu contato. Na massa ideal, todos são iguais. Nenhuma diversidade conta, nem mesmo a dos sexos. Quem quer que nos comprima é igual a nós. Sentimo-lo como sentimos a nós mesmos. Subitamente, tudo se passa então como que no interior de um único corpo…Quanto mais energicamente os homens se apertarem uns contra os outros, tanto mais seguros eles se sentirão de não temerem mutuamente.”

O sentido das palavras acima é incrivelmente adequado para o fenômeno político brasileiro, que nasce da indignação, gera a independência, vence o adversário que representa o mal político, mas a incerteza seguinte permite a reunião dessa paixão política acesa em torno de um figura que naturalmente formou a massa, que demonstra toda a sua densidade em grupos.

A degradação do vocabulário político empreendido pela ideologia majoritária é assimilada por essa nova massa composta por pessoas movidas por emoção, abraçando logo o artifício de empregar palavras esvaziadas de conteúdo, como é o caso do termo “isentão”. 

A má utilização para definir quem discorda da massa prejudica a identificação de independência. Quem ousa discordar não é independente, pela massa é a pessoa favorável aos adversários políticos de esquerda que prejudicam o projeto de direita ou apenas “isentão”. A indicação do “isentão” serve como alvo para que a massa ataque as discordâncias, prejudicando qualquer característica de independêPara escapar da abstração teórica, basta observar que atos considerados intoleráveis no governo petista, relacionados ao patrimonialismo com uso de recursos em benefício próprio ou familiares, exonerações e indicações em órgãos de fiscalização que investigam parentes, mudanças legislativas que provocam a fragilização do poder de investigação e punição, são totalmente absolvidos em nome da visão da massa.

Não há dúvidas que o quadro político apresentado exige uma evolução, pois a atuação independente sofrerá ataques cada vez mais elaborados e intensos, que necessita a adoção de respostas mais elaboradas, superiores as que deram origem ao fenômeno político atual. A justificação e explicação são sempre necessárias para não ser suprimidos pela massa, tendo a convicção como sustentação para aguentar até que a onda de ataques seja rechaçada. Não basta a opinião, agora é necessária a análise, como forma de convencimento, que demanda um pouco mais de reflexão e tempo até que a correção das posições sejam confirmadas.

Por isso, manter a independência é condição de sobrevivência e independência é sinonimo de liberdade, sem liberdade não há indivíduo, só um único aglomerado de pessoas se comprimindo, carregado para um destino incerto, mas compensado pela sensação de segurança.

O filme é um folego necessário para servir de referência para onde devemos caminhar e como devemos agir.

Em se tratando de multidões não há como deixar de citar um dos meus contos preferidos de Edgar Allan Poe, “O homem da multidão”:

“Quando se aproxima-ram as trevas da segunda noite, aborreci-me mortalmente e, detendo-me bem em frente do velho, olhei-lhe fixamente o rosto. Ele não deu conta de mim, mas continuou a andar, enquanto eu, desistindo da perseguição, fiquei absorvido vendo-o afastar-se. 

“Este velho”, disse comigo, por fim, “é o tipo e o gênio do crime profundo. Recusa-se a estar só. É o homem da multidão. Será escusado segui-lo: nada mais saberei a seu respeito ou a respeito dos seus atos. O mais cruel coração do mundo é livro mais grosso que o Hortulus animae, e talvez seja uma das mercês de Deus que ‘es lässt sich nich lesn’ “.