Acadêmico de Direito, filiado ao Cidadania, Editor do MBL News e Comentarista do Café com MBL.
Não tem santo: como os americanófilos explicam a Arábia Saudita?

O óbvio, dizia Nelson Rodrigues, segue ululante: não são valores que regem o império americano, são interesses.

10/01/2020 14h59

Após o ataque aéreo dos EUA em Bagdá, que resultou na morte do general-terrorista iraniano Qasem Soleimani, os americanófilos (fãs fervorosos e defensores de tudo que os EUA fazem) saíram, mais uma vez, do armário.

Derivados de “os Estados Unidos são os xerifes do mundo” ou “os Estados Unidos são os guerreiros da liberdade!”, deram o tom das declarações do clássico lambedor de botas que parece repousar com certo requinte em camas liberais e conservadoras.

O óbvio, dizia Nelson Rodrigues, segue ululante: não são valores que regem o império americano, são interesses.

O Irã é um regime terrível. Casos de extremismo religioso, homofobia, ausência de democracia, assassinatos de mulheres e gays pelas mãos do estado e infrações aos códigos internacionais de direitos humanos dão o tom do país, mas os Estados Unidos mantêm uma relação de terrível amizade com outra nação que comete os mesmos crimes que o Irã: a Arábia Saudita.

Há quem diga que os sauditas mantêm a nação com mais extremismo religioso do globo. Gays são criminosos. Mulheres e minorias recebem tratamento de pária. Cristãos são perseguidos aos montes. Principal aliado? Estados Unidos da América.

De Kennedy a Nixon ou de Reagan a Obama. Os sauditas mantêm longa amizade com os americanos.

Parafraseando a página “galãs feios”: Por que a Arábia Saudita é considerada galã e o Irã não?

Resposta: interesses!

Os americanos são os reis da “realpolitik”, a política realista baseada no pragmatismo invés da ideologia. Os sauditas seguem o 2.º país com mais reservas de petróleo e tentam conter o Irã, inimigo maior dos EUA no Oriente Médio.

Ainda assim, há quem diga que o Brasil deve manter a ideologia como o principal fator na diplomacia: o ministro das Relações Exteriores segue fazendo analogias entre Deus e Trump.

Também há quem diga que os ataques contra o Oriente Médio (com o Irã sendo a bola da vez, após Iraque e Afeganistão) são justificáveis porque os Estados Unidos repudiam os crimes contra os direitos humanos e o terrorismo.

Enquanto isso, os sauditas seguem amicíssimos dos americanos. Quando Trump impediu nações islâmicas de entrarem nos EUA, os deixou de fora da lista, apesar de 15 dos 19 terroristas do 11 de setembro serem sauditas.

Claro que os Estados Unidos foram fundados em valores republicanos, democráticos e liberais. Mas quem não vê erros e diz que devemos nos alinhar sumariamente, é um americanófilo. A estes, segue a pergunta: como explicam a Arábia Saudita?