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USPiana, católica, mãe de pet e aficionada por educação e política.
Mulheres na Revolução de 32: do backstage ao front.

As paulistanas são as filhas que não fogem à luta.

09/07/2019 18h39

Neste belo dia ensolarado (porém gelado), 9 de julho de 2019, aqui da terra que vos falo – São Paulo – comemoramos a Revolução Constitucionalista de 1932. Não faltaram os textos, vídeos e IGTVs hoje sobre o tema se você segue algum político ou influencer de São Paulo City… Então, porque você deve ler este texto? Por que eu vou contar a história de protagonistas que são pouco lembradas, algumas lutaram no front, mas muitas foram responsáveis por produzirem armamentos, prestarem socorro aos feridos e alimentarem as tropas.

Tipicamente, nas histórias das grandes guerras o combate é associado a figura masculina, o homem como guerreiro e salvador da pátria, mas para esses homens estarem na batalha, inúmeras mulheres deixaram seus lares e foram a base de sustentação contra o autoritarismo de Getúlio Vargas. Essas mãos invisíveis: mães, esposas, donas de casas, enfermeiras, enfim, mais de 72 MIL MULHERES deixaram seu legado e provaram seu valor em um dos maiores movimentos armados do Brasil.

Pela primeira vez na história do país, as mulheres de todas as classes sociais deixaram de estar em segundo plano e cuidar do backstage (papel este que fizeram sempre majestosamente) para encarar 87 dias de batalha em busca de uma nova Constituição para um país que precisava de esperança para mudar (vejo um pouco de 2019 naquele 1932).

Eu, Júlia, em 1932 nem sonhava em nascer, mas como a minha própria biografia do blog fala: uma aficionada por política (e entusiasta das mulheres protagonizarem o espaço), não poderia começar falando de outra pessoa da Revolução Constitucionalista se não por Carlota Pereira de Queiroz.

Carlota Pereira de Queiroz – USPiana, assim como eu, da área da saúde, entretanto médica, talvez tenha sido taxada de “muito moderna” para seu tempo, mas foi por causa dessa ambição e ousadia que as portas da política foram abertas às mulheres (thanks girl). Carlota deixou o conforto do seu laboratório e organizou o Movimento de Assistência aos feridos, liderando 700 mulheres. Muito a frente da sua época e como é típico das líderes natas, mostrou que tinha vindo ao mundo para fazer a diferença, utilizou seu importante trabalho com os feridos de 1932 como vitrine para sua carreira política. Ela abriu o espaço que hoje, em 2019, 77 mulheres ocupam no Congresso Nacional – Carlota foi a primeira deputada Federal do Brasil em 1934.

Maria Sguassabia – nascida e criada no interior, moradora de São João da Boa Vista, ela ficou conhecida por não ter perdido batalhas durante o movimento. Maria, para poder lutar passou a se chamar Mario… ela seria a mulher que estaria a vontade e feliz em 2019 com a pauta do Estatuto do Armamento e com os decretos de Bolsonaro. A primeira batalha de Maria foi usando uma farda desertada de outro soldado. Como uma boa líder de tropa revolucionária, ela se destacou como defensora de São Paulo e se tornou alvo da admiração de seus companheiros de trincheira.

Outras mulheres foram importantes, apesar de não serem lembradas, mas participaram do movimento para derrubar o governo e convocar uma Assembleia Constituinte.

Pérola Byington, esteve à frente da Cruzada Pró-Infância que prestava assistência médica, social e sanitária a gestantes. A Liga das Senhoras Católicas, ajudou mais de 100 mil pessoas e serviu mais de 180 mil refeições. A faculdade de engenharia da USP convocou as mulheres para confeccionarem capacetes e cartuchos, elas doaram suas alianças para arrecadar fundos e viraram símbolo da campanha do ouro.

A maciça participação das mulheres foi atípica. Elas vieram de todo o estado paulista: Piracicaba, Araraquara, Limeira e São Paulo, foram as terras que deram origem a algumas das heroínas de 32. Se você acha que é de hoje que mulher gosta de pegar em arma, talvez você esteja um pouco enganado, nosso histórico é antigo! Depois da nova Constituinte, início do processo de democratização, os espaços foram (e estão sendo) ocupados por nós, o direito ao voto feminino foi reconhecido em 1932, reassegurado em 1933, mas só em 1946 o voto pleno e obrigatório como direito foi instituído pela Constituição.

A Revolução Constitucionalista de 32 está ai para mostrar que as paulistanas são as filhas que não fogem à luta.