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Estudante interrompido, músico frustrado, cozinheiro irregular e fundador (e membro mais controverso) do MBL - Movimento Brasil Livre.
Morre o mito, nasce o presidente: desafios para a direita brasileira.

SÃO PAULO – Quando Jair Bolsonaro assumir a cadeira de presidente da República, na tarde desta terça-feira,

01/01/2019 20h08

SÃO PAULO – Quando Jair Bolsonaro assumir a cadeira de presidente da República, na tarde desta terça-feira, incumbirá-se oficialmente da responsabilidade de suprir as expectativas exageradas que sua campanha criou em torno de sua figura. Bolsonaro não é um homem, mas um mito. E de mitos, heróis e santos, exige-se o fantástico, o fenomenal. Apenas isto será visto como vitória aos olhos de sua militância. Espera-se que Bolsonaro arme o povo e reduza a criminalidade a pó; que Moro acabe com a roubalheira e permita que sobre dinheiro para Guedes conduzir a economia; que os antros de doutrinação sejam fechados e os inimigos da nação — comunistas, corruptos e criminosos —devidamente extirpados da vida pública.

Deve-se compreender, para começo de conversa, que este sempre foi o ânimus de sua fiel militância ao longo dos últimos 4 anos. Eleger Bolsonaro era tratado como solução final, condição sine qua non para encerrar os problemas que afligiam o país nos últimos anos. Qualquer composição tática com o governo Temer, em prol das reformas, era taxada como “acordo com o centrão”; qualquer diálogo com tucanos era visto como “obediência à estratégia das tesouras”. Outros nomes dentro da direita eram tratados como ilegítimos; apoiá-los era incorrer em heresia, e um séquito de destruidores de reputação rodearam a família Bolsonaro dispostos ao papel de Torquemada na inquisição da “verdadeira direita”.

A militância ganhou peso conforme a alternativa Temer e os prefeitos eleitos em 2016 se mostraram incapazes de atender a demanda por administração proba, eficiente e moralmente alinhada aos anseios da população. As grandes apostas das urnas — Dória e Marchezan— não conseguiram resolver a inadequação entre seu modelo político antigo e as expectivativas daqueles que os elegeram. Dória tentou através de marketing, e empreendeu a competição mais efetiva ao Bolsonarismo dentro da direita; sua natureza farsesca, porém, derrubou suas pretensões ao final de 6 meses. Marchezan, por seu turno, realizou de fato a promessa de governar sem troca de cargos e favores. Fez uma limpa na máquina pública. Sem base, foi destruído pelas corporações e pela imprensa, sob o aplauso cínico do legislativo. Serve de alerta para o presidente eleito.

Diante dos insucessos do centro, restava à militância apontar o dedo e afirmar “Viu, nós avisamos! São todos partes do sistema!”. Houve dois momentos fundamentais para reforçar tal crença: a crise das “Dez Medidas”, ao final de 2016, e o episódio Joesley Batista, no meio de 2017. Ambos corroboravam a ideia — propagada pela esquerda, diga-se de passagem — de que “todos os partidos são corruptos”, igualando moralmente o PT e o centrão. Eliminava-se, assim, qualquer possibilidade de vitória para o tal “Centro”, ainda em 2017. Seus prosélitos, porém, confiavam na recém passada “reforminha eleitoral”, que empoderava os dirigentes partidários e excluía ainda mais o cidadão comum do processo eleitoral. Era desastre anunciado — o molho sairia mais caro que o peixe.

Reforçado pelas teses de Olavo de Carvalho, que relia Raymundo Faoro em prol do seu projeto político, Bolsonaro sustentou-se enquanto antítese ao acordão político que buscava destruir a Lava Jato e garantir seu poderio eleitoral via a famigerada reforma de 2017. Colou, e o antagonismo ficou claro para a população. A aura do “homem comum contra o sistema” estava construída e sua base eleitoral elevou-se à casa dos 20%. O resto, conforme vimos, é história.

Já abordei, em outro artigo, o quanto esta aura construída ao redor de Bolsonaro é exagerada. Não é objetivo deste texto repisar os argumentos utilizados, mas vale, ao menos, uma consideração: Jair é fruto do sistema que pretende combater, pratica boa parte de seus vícios e cercou-se de figuras com histórico similar para conduzir seu governo. Uma checada básica em seus principais nomes — Guedes, Moro, Heleno, Mourão e Lorenzoni — demonstra que apenas o primeiro advém da iniciativa privada; os outros, todos, desfrutam das delícias proporcionadas pelo alto-funcionalismo brasileiro. E não se fazem de rogado. Quando indagado sobre o uso de verba da Câmara na campanha de Bolsonaro, o ministro da casa Civil afirmou:

Estava construindo um novo futuro para o país”.

Simples assim. Não me soa a maneira mais efetiva de se justificar seus excessos. Moro, quando indagado sobre o uso de auxílio-moradia, uma das excrescências do judiciário, também não titubeou:

“ Existe esse benefício, que é questionável e existe a previsão constitucional de que os subsídios do magistrado deveriam ser reajustados anualmente, o que não ocorre há três anos.”

O nobre leitor pode nos questionar: “Ora Renan, o que é isso comparado à roubalheira dos políticos? E o nobre trabalho contra a esquerda e a corrupção?”. É um questionamento pertinente, até porque é compartilhado por grande parte da população. A percepção de que privilégios são válidos quando contemplam os seus é comum no eleitorado de direita pós-2014.Se a perspectiva é de guerra, os nossos não podem ficar desamparados!” Mais: os privilégios só passam a ser parte do arsenal de ofensas quando o agente político comete uma heresia ou pleiteia um cargo público sem bater continência para os trendsetters da direita verdadeira; aí tornam-se “alpinistas políticos”, “aproveitadores da fama de Bolsonaro” e coisas do gênero. Basta ver como diversos oportunistas no seio do PSL são tratados de forma leniente por conta de sua lealdade. É um padrão quase petista no seio da militância.

A questão, porém, é que a matéria-prima constitutiva do novo governo é quase que inteiramente composta por burocratas, devendo refletir, em alguma medida, o tipo de visão de mundo auto-centrado e corporativista que carateriza a burocracia brasileira. Façam um exercício básico: excluindo-se Paulo Guedes, qual foi a postura geral dos integrantes do novo governo na Reforma da Previdência e na luta contra os privilégios? Tenham em mente as declarações do presidente eleito, os tweets de seu filho Eduardo, os posicionamentos de Major Olímpio e de grande parte dos eleitos pelo PSL. A resposta é fácil: jogaram para a torcida. Agora terão que fazer a defesa pública daquilo que repudiavam.

Questione também: como está sendo exercida a política de contratações nos gabinetes dos deputados eleitos da “verdadeira direita”? Obedecem algum tipo de racionalidade? Vejam bem: são pessoas eleitas pela internet. Não precisam empregar cabos eleitorais diversos. Há algum tipo de demonstração de boa vontade nesta linha, como fazem os parlamentares do Novo ou membros do MBL? O Caso Queiroz demonstrou claramente que certas práticas pouco republicanas não serão admitidas pelo eleitorado de direita, a ponto de Flávio Bolsonaro ter ficado sozinho durante a celeuma. O que preocupa é que as lideranças que irão confrontar-se com o sistema não são tão diferentes assim de seu principal inimigo. E que fique claro: derrotar a esquerda não é o grande desafio da gestão Bolsonaro. Primeiro, o presidente tem que se entender com o centrão patrimonialista.

A expectativa exagerada por parte de seus militantes poderá ser atendida parcialmente mediante uma série de medidas populares que estão ao alcance do presidente: posse de arma para o cidadão de bem, aumento no prazo de vigência da carteira de motorista, aproximação com o governo de Israel, dentre outras tantas. Fazem parte daquele momento mágico em que o novo governante firma seu estilo e posicionamento, impondo seus valores e imprimindo sua marca. João Dória, Maurício Macri e Donald Trump souberam fazer isso muito bem em seus primeiros meses de mandato, e tudo leva a crer que Bolsonaro o fará com similar galhardia. O namoro com a opinião pública, porém, tem data marcada para acabar: será em março, na guerra pela Reforma da Previdência. É lá que a ala liberal do novo governo — minoritária, mas representativa — deve criar uma solução política sofisticada que aprove a reforma sem concessões pouco republicanas ao centrão. Caso vencedora, irá se firmar como mola propulsora da administração Bolsonaro, e garantirá seu sucesso. Caso falhe, o governo afunda, levando o país junto. Os 513 deputados e 81 senadores eleitos sabem muito bem disso. A reforma da previdência é sua Copa do Mundo.

Existe a possibilidade — bastante realista e brasileira — de uma grande enrolação legislativa somada a um penoso acordo político com os partidos. Tal medida poderá trazer a vitória política da reforma, mas maculará  a aura mítica do presidente; Bolsonaro tornar-se-á humano, vendendo sua imortalidade em troca de uma PEC. O acordo poderá redundar num compromisso, e o compromisso em amarras: o governo ficaria de mãos atadas para levar à frente uma série de medidas que destruam o arcabouço legal da burocracia patrimonialista, que vão desde seus privilégios previdenciários até a falta de profissionalismo no funcionalismo, passando pela máfia do sistema político-partidário e a caixa preta do judiciário. E nos restaria a pergunta: haveria nestas novas lideranças, advindas da burocracia, disposição para enfrentamentos intestinos com suas corporações de origem? Ou ficaria tudo à cargo dos liberais, eterna bucha de canhão de governos que não são seus?

Quem acompanha o universo midiático-ideológico do Bolsonarismo sabe bem as alcunhas direcionadas aos liberais. Veado costuma ser a acusação mais leve; bumbum guloso é de praxe; “aliado da esquerda, sempre aguardando uma piroca socialista” é a mais refinada. São lideranças que ganharam notoriedade com outro tipo de luta, mas que trazem para si a causa reformista por imposição da própria realidade. Que ninguém se engane: em seus memes é Eneas, e não Roberto Campos, quem flutua como fantasminha camarada no panteão da direita burocrática. E é possível que um enfraquecimento da ala liberal do governo — ou mesmo uma provável crise diante do enfrentamento com a burocracia e a esquerda —traga à tona essa disposição estatista e autoritária ainda sub-reptícia de muitas figuras da corte Bolsonariana.

Tentações não serão poucas: além dos desafios democráticos de se lidar com um congresso rebelde, teremos as investidas pouco republicanas do STF; as provocações dos ministros serão regra, e pulularão decisões favoráveis às ações de inconstitucionalidade que questionem medidas sancionadas pelo presidente. Será um jogo de gato e rato, buscando aflorar o que há de mais visceral na caserna. E o pior: brincando com o ódio das massas. Estrategista do PT, José Dirceu já dizia que “os golpistas são eles. Às esquerdas interessa que o movimento de direita se converta em um movimento golpista. Só assim a alcunha de fascista se tornará cabida. Até o momento, a direita agiu de maneira exemplar,  posto que seus condutores, difusos, não tinham disposição arrivista nem estavam instalados na máquina pública. Mas a bola não está mais com Vem pra Rua, MBL, Antagonista e a miríade de figuras que ascenderam em 2015; está com o governo, com generais, com filhos do presidente e os intelectuais que o cercam. Isso, de alguma maneira, facilita o trabalho de guerrilha dos opositores.

Transitar pelos limites do democrático é um imperativo; não entregar-se a acordos pouco republicanos enquanto aprova medidas impopulares é outro. São estes os paradigmas que deverão balizar a análise crítica do próximo governo. Ademais, as medidas que garantirão seu sucesso político e econômico não são exatamente populares, e atingirão em cheio setores que o elegeram. Não haverá vitória sem auto-imolação. É uma missão hercúlea, reservada a poucos. Até por isso, as chances de uma frustração popular são enormes. Mas isso não deve significar inação ou mesmo desânimo diante das batalhas que se avizinham: é um convite para a guerra!

À direita interessada numa cruzada de cidadania contra o sistema que nos espolia, este é o melhor dos momentos. A guerra contra a máfia político-partidária continua a pleno vapor, e reflexos de sua falência estão espalhados por todos os municípios; o debate pela previdência irá escancarar os privilégios do funcionalismo, e a sabotagem do STF trará luz a um judiciário que se esmera em sugar o erário com toga e prolixidade. É um campo aberto para que lideranças políticas regionais possam fincar suas bandeiras e iniciar o bom combate. É dever nosso conduzir esta luta, a despeito das contradições do governo eleito já elencadas. Será de forma complementar e não adesista que cumpriremos o papel que nos é reservado. Apenas lideranças articuladas da sociedade civil, sem histórico nem rabo preso com corporações, serão capazes de enfrentar este monstro burocrático. Serão tempos de intenso debate democrático, até porque a crise no pacto constitucional de 88 continuará sem solução. É impossível governar de forma proba e eficaz com o arcabouço político-burocrático que nos foi herdado. Serão as pessoas, e não o governo, quem levará à frente esta articulação.

O presidente Bolsonaro continuará vivíssimo, mas é provável que mitos morram pelo caminho. É natural — o sucesso de seu governo dependerá da inteligência política de suas ações. Nosso horizonte, porém, deverá ser menos restrito: o sucesso do Brasil dependerá do trabalho do povo que o elegeu. Que tenhamos inteligência para amadurecer e coragem para continuar a luta: este é apenas mais um novo capítulo na história que começou em 2013.