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24 anos, formado em Relações Internacionais (ESPM) pós-graduado em Ciência Política (FESPSP) e mestrando em Gestão e Políticas Públicas (FGV).
Moro e o parlamento do espetáculo

Mario Vargas Llosa, prêmio Nobel de literatura em 2010, escreveu em “A civilização do espetáculo” sobre o contexto em que a cultura se tornou entretenimento, fazendo com que o consumidor rejeitasse qualquer coisa que exigisse esforço intelectual em troca de prazeres momentâneos.

03/07/2019 14h01

Queridos amigos, inicio este blog abordando a ida do Ministro Sérgio Moro na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados no dia de ontem (02/07). Pois bem, além da serenidade com que Moro respondeu os deputados – diferente do ministro Paulo Guedes, que optou pelo embate – o que quero tratar aqui é sobre o que considero um dos piores aspectos deste parlamento: a espetacularização.

Mario Vargas Llosa, prêmio Nobel de literatura em 2010, escreveu em “A civilização do espetáculo” sobre o contexto em que a cultura se tornou entretenimento, fazendo com que o consumidor rejeitasse qualquer coisa que exigisse esforço intelectual em troca de prazeres momentâneos. Trazendo para o contexto do nosso parlamento, se obtém muito mais visualizações um vídeo de um deputado do PSL com alguma patente militar xingando algum petista do que um vídeo do Kim Kataguiri explicando o importante projeto de licenciamento ambiental que ele está relatando. É mais simples acreditar que o deputado de patente militar “destruiu” o PT e resolveu nossos problemas e preocupações do que acreditar no moroso processo legislativo.

Na noite de ontem, o deputado Boca Aberta (PROS-PR) entregou um troféu da “Champions League” ao Ministro Moro. Não importa se Moro merece ou não alguma comenda por seu trabalho contra a corrupção, o que importa é ser o mais espalhafatoso, é mostrar que é o maior defensor do Ministro, entregar o maior prêmio, fazer o maior alarde e assim receber muitas palmas. Para quem não conhece o deputado, ele já foi o vereador mais votado da história de Londrina em 2016 e teve seu mandato cassado por quebra de decoro parlamentar. Em 2018, além de se eleger deputado federal, levou seu filho, Boca Aberta Junior, à Assembleia paranaense. No início deste ano, Boca Aberta discursou ao lado de Gleisi Hoffmann – e foi até homenageado por ela em seu instagram – contra a reforma da previdência.

Deputados de oposição também não “decepcionaram” na espetacularização, Glauber Braga (PSOL-RJ) resolveu xingar Moro de “juiz ladrão” e acabou com a sessão. Maria do Rosário (PT-RS) fez de tudo durante a sessão para transformar o ambiente em um local belicoso e de confronto com o ministro – por mais que este estava lá como convidado.

Para estes deputados não importava o caso The Intercept, Gleen Greenwald, ou qualquer coisa do tipo. Não se tinha o intuito de se descobrir nada. O que eles queriam, eles conseguiram: Lançaram vídeos bombásticos nas redes sociais, seja mostrando que são os maiores defensores de Moro, como Boca Aberta, ou que são os maiores oposicionistas do ministro, como Glauber Braga. O importante é ser notado.

Voltando à civilização do espetáculo de Vargas Llosa, o autor relata que viu um debate político em Paris em que dois homens cultos debatiam com elegância e pensou “A política pode ser assim?”

Bem, é claro que pode, mas não com essa gente despreparada – e que quer manter o debate nesse nível porque dá like nas redes sociais.