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Professor de Filosofia, violinista, coordenador do MBL Bahia e organizador do debate "Os EUA e a Nova Ordem Mundial" (Vide Editorial).
Militância é por pessoas, não por ideias!

Militâncias, militares e militontices marotas

16/09/2019 14h57

Recentemente, em vídeo que suscitou as mais apaixonadas discussões na internet, o filósofo Olavo de Carvalho afirmou, dentre outras coisas, que a) militância não é por ideias, e sim  por pessoas ; b) estamos em um tempo em que é preciso organizar uma militância bolsonarista, não conservadora, liberal ou pró-família. A militância deve ser pró-Bolsonaro para apoiá-lo na condição de presidente da República contra seus inimigos. Ponto.

Como disse, a declaração suscitou reações as mais diversas. Parte da direita, que não está disposta a fazer a militância pró-Bolsonaro, enxergou nessa declaração uma conclamação para que se formasse os “camisas negras de Bolsonaro”. Reafirmou que a militância, quando houver, deve se mover por pautas, e não militar por pessoas ou grupos.

Não acho. Vou por uma linha diferente.

Concordo com Olavo quando ele diz que militância deve ser em prol de pessoas e grupos e não, simplesmente, de ideias. Militância é a linha de frente do apoio de grupos e pessoas. A militância do MBL, por exemplo, deve militar em prol deste movimento, não em prol de ideias ou pautas, em sentido abstrato. Afinal, as mesmas ideias e pautas podem ter vários proponentes, e nem por isso a militância do MBL deve deixar de ser do movimento, encontrar no movimento a sua razão de ser e se articular junto com ele. Do mesmo modo, a militância do MST é pelo MST. Ou a militância republicana, nos EUA, não é uma militância por ideias abstratas de governo limitado, redução de impostos e conservadorismo. Trata-se de uma militância partidária, inspirada nestas ideias, mas que se articula em torno do Partido Repúblicano.

Grandes figuras carismáticas, por sua vez, geram suas militâncias pessoais em todo o espectro político, dentro ou fora de democracias. A militância trumpista ou lulista combate sob a bandeira de Trump ou de Lula. Nem por isso pode-se classifica-la de fascista, propriamente; essa classificação se baseia em uma analogia frouxa, do seguinte modo. Como fascistas e nazistas tinham uma militância pelo Duce e pelo Fuhrer, então toda militância pessoal é fascista ou nazista. Trata-se de um simples erro lógico, é claro, uma confusão com os quantificadores lógicos da frase. Militâncias partidárias e de movimentos são, por definição, linha de frente destes partidos e grupos. Representam um ativo político, que tem determinado peso no jogo político, mensurado pelo tamanho, firmeza de convicções, intensidade de atividades e representatividade social. O mesmo vale para a militância quando reunida em torno de uma pessoa. 

Dito isto, qual o problema, a meu ver, na declaração de Olavo? Alguns.

  1. De fato, ele tem razão em dizer que isso é militância. Contudo, no caso de governantes eleitos, existe outro aspecto que ele omite. Eleitores são também fiscais do governo. O exercício da militância, sem dúvida legítimo em democracias representativas, não pode excluir o concomitante exercício da fiscalização dos governantes. Uma democracia só de militâncias opostas, sem fiscalização do eleitorado, rapidamente se degenera em um ambiente onde o que contará será, exclusivamente, a força de grupos organizados uns contra os outros, reduzindo a transparência dos governos e favorecendo atos de arbítrio.
  2. Não é verdade que não exista uma militância bolsonarista. Ela existe, não é pequena e tem se mostrado não apenas fiel ao presidente, mas muito agressiva, ao menos em suas manifestações virtuais. Recentemente, tivemos um pequeno exemplo localizado de agressividade física, quando membros do Direita SP tentaram intimidar o MBL em uma manifestação. Assim, a desorganização que, com razão, ele nota é culpa dos próprios condutores do bolsonarismo. Não se deve à falta de fidelidade ou de agressividade, que eles têm de sobra, mas à mera preguiça em organizar as estruturas da militância, o que exige um trabalho contínuo e discreto. Prova disso é que o maior e mais organizado grupo político da direita é o MBL, que não é bolsonarista. Era de se esperar um MBL Bolsonarista com dez vezes o nosso tamanho. Contudo, ele não existe.
  3. A CPI da Lava Toga e a insatisfação gerada por sua sabotagem, por parte de Flávio Bolsonaro, não é sinal de que a massa de bolsonaristas está contra o presidente. Essas pautas foram levantadas pelo núcleo do bolsonarismo, e como demonstrado no ficheiro que irá sair amanhã, pelo próprio Presidente da República. Não foram meras ideias abstratas, a que uma militância atrapalhada aderiu em virtude de suas convicções íntimas, descoladas das necessidades do embate político. Ao contrário. Foram peças de embate político do presidente, pautas muito concretas e dadas para serem usadas de porrete contra adversários do presidente. Um clássico expediente da militância desde sempre. O que Olavo exige, portanto, é que esta massa mude de convicções com velocidade total, ao sabor das circunstâncias mutáveis do Planalto. Bom, isso já e um pouco mais difícil. Observem que, na época do Pacto Ribentropp-Molotov, os partidos comunistas tiveram que reduzir bruscamente sua retórica antifascista por ordem de Moscou. Ainda assim, a despeito da férrea organização existente nestes partidos, muitos dissidentes não conseguiram suportar as incoerências stalinistas. Giros ideológicos súbitos são difíceis de engolir mesmo para uma militância estritamente disciplinada, com um horizonte revolucionário arquetípico. Não seria diferente aqui.
  4. Em tese, uma militância bolsonarista pura não é uma militância pró-Olavo. Suponham que o presidente resolvesse declarar que, a partir de agora, ele iria seguir uma linha totalmente diferente. E com isso resolvesse reabilitar militares caídos em desgraça e remover alguns olavetes notáveis do governo, tais como Filipe G. Martins e Ernesto Araújo. Creio que rapidamente a “sua” militância seria conclamada a pressioná-lo, não a ajudá-lo. Um forte indício desta tendência foi o episódio da nota do presidente contra as declarações de Olavo, que, segundo ela, não contribuíam “para a unicidade de esforços” do governo. O que aconteceu? A resposta veio de imediato por Silvio Grimaldo, há muitos anos um indivíduo intimamente ligado à família de Olavo. Ele denominava Bolsonaro de Bolsotutelado e Bolsovader. A interpretação que se dará é que, no fundo, tratava-se de um apoio oblíquo a Bolsonaro, iludido ou “tutelado” por militares que não lhe são fieis. Ao nosso ver, essa interpretação é uma marotice. Uma desculpa, simplesmente. A realidade é muito simples: Bolsonaro declarou publicamente que Olavo estava errado e foi atacado por um notório olavete por isso. Ponto. 

Deste modo, o que temos é mais um truque retórico para esconder o que, de fato, interessa. E o que interessa é a construção de uma militância olavete em estrito senso. Apesar disso, não creio que essa tal militância será organizada nos moldes que se gostaria. O eleitorado de Bolsonaro, do qual se deseja colher os futuros militantes supostamente pró-Bolsonaro, é bastante caótico em suas manifestações espontâneas e as contradições governamentais tendem a reduzir o nível de aderência deste eleitorado à figura presidencial, por força da dialética das promessas de campanha vis-à-vis a realidade factual do governo. Thats´all, folks.