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Estudante interrompido, músico frustrado, cozinheiro irregular e fundador (e membro mais controverso) do MBL - Movimento Brasil Livre.
‘Meninas do futebol feminino’ não são heroínas. Parem de chororô!

Politizaram o futebol feminino…e ai se você achar que elas não jogam essa bola toda!

24/06/2019 21h55

Prorrogação. Jogo feio, truncado, empurra-empurra para todos os lados. Cansada, a seleção brasileira feminina resiste como pode aos avanços das francesas. Mas uma hora a casa iria cair. Amandine Henry — sobrenome maldito! — não perdoou a falha da zaga e, após cruzamento, selou o destino de Marta, Formiga e cia. 2×1 para as anfitriãs e fim do sonho das canarinhas.

As meninas deram adeus à competição, e quem entrou em campo foi o time da imprensa. Uma verdadeira blitzkrieg de “passação de pano” foi detonada pela Rede Globo e redações de grandes jornais. A culpa não era das jogadoras pela derrota: os verdadeiros culpados são aqueles que não investem no futebol feminino. Marta e cia foram transformadas em “heroínas”, “guerreiras”e “lutadoras”. Não foi um 2×1: foi um golpe de sabotagem do homem brasileiro contra suas craques incontestes.

A coisa ficou tão bizarra que até a narração das partidas foi politizada. No momento capital da disputa — o gol francês — , a falha da goleira brasileira não podia ser comentada. O narrador brasileiro executava piruetas retóricas para justificar a falha como consequência de… “falta de estrutura”. Sabotaram as meninas! São vítimas, ora bolas, sempre!

Deve-se destacar, também, a postura de Marta. Jogando de batom — ato de resistência! — a camisa dez parecia preocupar-se muito em militar pela causa feminista, a ponto do time ter transformado “Jogadeira” — uma canção de protesto futebolístico-feminista — em hino oficial de sua jornada.

Em resumo, quem acompanhou o dramalhão deve ter achado que nossas craques foram derrotadas por um bando de brucutus desacostumados com a ginga de nossas meninas, prontos para sabotar o inexorável avanço de nossas guerreiras. Fosse eu um desavisado destes, passaria um batom e entoava o coro das “jogadeiras”. Também compartilharia aquele meme surrado comparando Neymar e Martha. Mas…. será que é o caso?

Vamo lá. Quem acompanha minimamente o universo do futebol sabe bem que nossas seleção nunca foi favorita para levar o certame. Como tampouco eram seus colegas masculinos em 2018. Expectativas exageradas são naturalmente criadas sobre brasileiros no universo do futebol, bem como uma cobrança desmedida que, em tempos de Cristiano Ronaldo, já não faz mais sentido algum.

Nosso time era mediano. Perdeu para Austrália, e agora para a França. Normal… é da vida. Ano passado a seleção masculina caiu de forma honrosa para a Bélgica de Hazard e Felaini. Também não dava para esperar muito mais. Não somos reis da cocada preta no futebol. Isso passou. Somos coadjuvantes de luxo, quando muito. E isso se encaixa com especial destaque no histórico da seleção feminina.

Sejamos verdadeiros: a seleção de Marta, a despeito de seu inegável talento, sempre amarelou em decisões. Seja na copa da mundo, jogos olímpicos ou panamericanos, a amarelinha feminina arrega para as colegas americanas, alemãs, chinesas e suecas. Nunca conquistou nada de relevante. Mas, a despeito de suas falhas e fracassos, nos últimos anos convencionou-se que Marta e Cia são nossas “guerreiras” e “heroínas”, chegando ao ponto em que assistir um jogo de futebol feminino tornou-se uma espécie de “ato de resistência”.

Papo furado!

O Brasil tem histórico vencedor em esportes coletivos femininos, com amplo apoio e reconhecimento do grande público. Destaque maior fica para nossa seleção feminina de vôlei, multicampeã e protagonista de uma liga nacional competitiva e premiada. Mesma coisa no basquete: foi icônica a vitória no Panamericano de Cuba da seleção de Paula e Hortência; mesmo a prata em 1996 nas Olimpíadas de Atlanta foi celebrada como se ouro fosse.

“Ah, mas volei e basquete são esportes de classe média” dirão alguns. “Paula, Hortência, Jaqueline e Ana Moser eram brancas”, dirão outros. E? Temos classismo aqui também? Deixamos de torcer para jogadores de futebol por serem pobres e pretos em sua origem? Essa conversa cansa.

A politização da vida avança em campos nunca dantes navegados. Eu não curto assistir futebol feminino. Mas já torci pela seleção brasileira. De coração aberto, querendo que desse certo. Quem nunca? Elas falharam, jamais as culpei. Não existe obrigação de ser vencedor. Mas a partir do momento em que passa existir a obrigação de torcer, de militar, de politizar o erro… aí pessoal…eu quero é que se foda. Não venham politizar a droga de um esporte. Não venham transformar um jogo banal em símbolo de resistência feminista.

A politização da seleção feminina conseguiu um fenômeno único por aqui: granjear a antipatia das pessoas sem motivo esportivo aparente. Palmas para o marketing da CBF, jornalistas engajados e lacradores de internet! Vocês conseguiram um feito e tanto! Até aqui — infelizmente — o maior feito da seleção feminina de futebol…