Escritor de meia dúzia de artigos, comentarista eventual do MBLNews.
Memórias do que não aconteceu

Documentário “Democracia em vertigem” conta a história de como eles gostariam que tivesse acontecido

14/01/2020 14h42

A indicação do filme de Petra Costa “Democracia em vertigem” para concorrer ao prêmio “Oscar” na categoria documentário reascende o tema impeachment no debate político nacional. Uma espécie de histeria fragorosamente tomou as discussões em redes sociais e nos espaços jornalísticos.

A mim parece um debate tão 2016, soterrado por um extenuante e prolongado processo, em meio à um cenário econômico calamitoso e finalizado após dois pleitos eleitorais em âmbito regional e nacional.

Apesar disso, ninguém mais se surpreende com esses fenômenos em solo pátrio, sendo o modus operandi perene ao longo dos últimos séculos.

O Brasil precisa enterrar os seus mortos para seguir adiante. A frase célebre do ex-ministro Pedro Malan “no Brasil, o futuro é duvidoso e o passado incerto” não deixa de ser atual.

Normalmente, os insatisfeitos com a compreensão sobre os fatos despendem todas as suas energias para impor sua visão, as vezes buscando converter os culpados pelo público em injustiçados, em outras, eliminando dos registros os personagens relevantes, que não correspondem às suas preferências.  Para isso, se valem de todos os meios necessários para isso. É uma espécie de reacionarismo tupiniquim, que afeta todos os espectros políticos.

A maneira que se trata a história brasileira é uma disputa de poder, sujeita à manipulação política ideológica, que muitas vezes diverge dos sentimentos da população em geral, causando um grave estranhamento com a vivência e percepção sobre os fatos. O entendimento dialético sobre o desenvolvimento da história brasileira gera figuras anômalas, fatos extremamente contraditórios, ideias híbridas e antagônicas, que, ao fim e ao cabo, impede a formação sólida da nossa identidade.

Com isso, os valores brasileiros são aparentemente relativos ou fluídos, nossos posicionamentos políticos volúveis, sempre sujeitos aos modismos de costumes e ideais sob influência externa, confirmando nosso complexo de “vira-lata” e destacando a figura do brasileiro cordial.

A “história” passa a ser um manifesto publicitário político, objeto de disputa desde a academia às salas de ensino fundamental, passando pelo jornalismo engajado, até a produção artística. Esse caldo cultural fornece as pautas das discussões nos círculos pessoais e redes sociais.

A elite brasileira se deixa entorpecer pela sedução do poder de manipular as ideais e incutir na mente de todos o seu discurso. A honestidade intelectual passa a ser um detalhe desimportante, típico de quem não compreende o que está em jogo.

É a famigerada “guerra cultural”. A história é refém, o Brasil a vítima. Uma guerra que visa apenas subjugar a parte contrária, a qualquer custo. É a barbárie, o contrário de cultura civilizacional, como nos auxilia a leitura de Mário Ferreira dos Santos em a “Invasão Vertical dos Bárbaros”.

Prova disso é que os revolucionários do passado que colocaram suas vidas em risco contra a influência imperialista Estadunidense, hoje celebram a indicação do documentário político, como forma de “reconhecimento” internacional, naquela entidade que é a própria personificação do glamour da indústria capitalista cinematográfica, que impôs seu discurso manipulador sobre o globo terrestre.

A dissonância cognitiva é completa. Há uma aposta dessa classe política e seus simpatizantes pertencentes dessa mesma casta econômica e intelectual brasileira de que o material afete a compreensão geral do processo histórico, na forma descrita acima. Uma imposição vertical, vindo do topo da nossa cadeia alimentar.

Ignoram simplesmente que estão reeditando uma relação que foi fixada no imaginário popular entre a classe política representada pela esquerda – principalmente o governo petista – e a classe econômica favorecida pelo mesmo governo, que detém laços familiares com a própria diretora do material. O principal impulso para a manifestação popular maciça – inédita no Brasil – foi essa relação espúria. Não é a simples menção como um desvio qualquer, atribuição de perseguição da parte oposta e eliminação da participação popular que será capaz de demover os motivos que estão ainda muito nítidos na mente do cidadão brasileiro.

A “versão” contatada é produto de mentes intelectuais que acompanharam o processo em defesa dos dirigentes políticos, que foram incapazes de justificar ou responsabilizar as ações do governo, que em alguns casos, também foram beneficiados. Não corresponde ao sentimento e espírito que ocupou às ruas.

A indicação gera uma miragem política.

Os interessados comemoram a admissão do trabalho na disputa que passou por um crivo seleto de pessoas de outro universo em que habitam celebridades multimilionárias, que nem imaginam o que ocorre na terra de Vera Cruz, incapazes, com certeza, de identificar elementos que prejudicam a aceitação do trabalho como um documento, como já destacado em abundância nas críticas sobre o filme, que apontam manipulação de registro fotográfico, omissão de fatos, mistificação e exaltação de situações completamente dissociadas dos fatos e dos personagens, entre outros elementos, que, na minha singela opinião, desconfiguram o filme como documentário.

Na verdade, o que me deixa especialmente incomodado é ignorar completamente que o material foi produzido com “apoio” do grupo político, ao qual a equipe tinha acesso privilegiado da “governanta” investida no cargo presidencial, além de outros personagens e entidades que fazem parte da estrutura política brasileira.

Isso aproxima o filme de um material “panfletário” e, pior, com apoio de grupos políticos que detinham o comando estatal. Há uma brecha para que a premiação sirva de chancela internacional de discursos de autoridades estatais e políticas, a despeito do debate estabelecido internamente.

Isso me preocupa por não parecer ser uma questão relevante para a premiação, que, nessa categoria, tem um aspecto mais técnico importante e também dá especial destaque à aspectos políticos e humanitários.

Somente um argumento bem desenvolvido e uma técnica apurada, creio eu, não seja suficiente para tratar como habilitado na categoria. Caso contrário, poderia se especular o excelente filme chileno “No”, indicado ao prêmio na categoria “melhor filme estrangeiro” em 2013, poderia concorrer nessa categoria.

De qualquer modo, não me espanta se for uma escolha enviesada, uma vez que os posicionamentos elitistas ignoraram e celebraram diversos trabalhos, inclusive de figuras intelectuais de envergadura muito superior, que exaltaram e defenderam absurdos como regimes totalitários, como ocorreu com Jean Paul Sartre e outros.

Desse modo, depois da premiação de Barack Obama com o “Nobel da Paz” – quando não se conhecia qualquer ato relevante e antes do início do seu mandato –, a eleição de Greta Thumberg à personagem do ano de 2019 pela revista Times – no alto dos seus 16 anos -, a esquerda celebra mais essa “conquista” no mundo, providas de meios especialmente elitistas.

O que há de comum nesse caso é simplesmente a elitização dos seus discursos, distantes dos interesses populares e sentimento das massas. Enquanto isso, a direita, em diversos casos mais extremos, acumula conquistas em pleitos eleitorais.

Por outro lado, não surpreende a queda de interesse e audiência em premiações, que reproduzem ideias restritas de personagens que apenas ostentam sua posição de celebridade. O Golden Globe de 2020 talvez tenha captado a situação e sentido a necessidade de mudança, apresentando resultado interessante.

É preciso dizer que a indústria cinematográfica tem sido afetada por uma pulverização das produções e diversificação, que já não tem representatividade no prêmio, que certamente será acompanhada pelo público que tem mais interesse em qualidade técnica, profundidade do material, exploração do imaginário, com total especial desinteresse nas “causas” e discursos de artistas engajados.

Por fim, sequer é aceitável dizer que “é Brasil no Oscar!”, pois a frase é digna de quem é um acompanhante ocasional da arte ou desconhece que essa não guarda fronteiras, sendo mera expressão de um “pachequismo” e “vira-latismo”, até mesmo esses falseados.