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Estudante interrompido, músico frustrado, cozinheiro irregular e fundador (e membro mais controverso) do MBL - Movimento Brasil Livre.
Meio Ambiente virou saída honrosa para uma esquerda sem destino. Ou: Não é sobre Amazônia, estúpido!

Questões eleitorais motivam a histeria européia com a Amazônia

24/08/2019 23h02

Sejamos claros. Após uma semana de intenso bombardeio midíatico — com direito a postagem fake de Cristiano Ronaldo e yoga engajada de Giulia Costa –, já é possível deduzir que existe algo de estranho no reino do ambientalismo gauche .

E não é só a militância de fachada. Pose e demonstrações de virtude são comuns no mundo das redes sociais. Poderia ser apenas uma onda passageira de boa vontade histérica, mais um dia mundial sem carne pra Instagram ver. Mas não! Desta vez, influencers unidos contribuem com seu vazio existencial para uma causa mais — digamos assim — calculada.

O que vemos aqui, mais do que qualquer coisa, é uma construção narrativa inteligente da esquerda européia e do establishment midiático do velho continente. Uma construção meticulosa, precedida por um suposto movimento de massas — liderado por jovens, coisa linda! –, acompanhada pelo avanço consistente de partidos e candidatos alinhados à luta contra o aquecimento global.

A linha do tempo é muito clara. Do surgimento nem um pouco espontâneo de Greta Thunberg — ativista ambiental mirim repetidora de platitudes — até a indignação de Emmanuel Macron e Angela Merkel, passou-se exatamente um ano. E muita coisa mudou de lá pra cá no cenário político europeu.

Devemos compreender o avanço da agenda verde como resposta desesperada de uma esquerda europeia incapaz de lidar com as recentes conquistas da direita populista e anti-imigração no continente.

A derrocada do welfare-state europeu, e o desastre anunciado da campanha artifical de — se podemos assim dizer — recepção forçada de imigrantes do Oriente Médio, contribuíram de forma decisiva para o desmonte das grandes narrativas políticas da esquerda continental.

É simples perceber isso. Em pesquisa realizada pelo parlamento europeu, publicada neste mês de agosto, a preocupação com a questão da imigração — capturada, majoritariamente, por partidos de direita — ultrapassa qualquer outro tema mais premente.

É compreensível que este tema — além de questões relativas a terrorismo, finanças públicas e economia — dominem o debate no continente. Mais: a abordagem conservadora e neo-populista sobre tais temas é muito mais natural e eficaz, permitindo o avanço consistente de seus quadros nos parlamentos dos países membros da UE.

Identificado com a esquerda, de forma clara, temos apenas a questão das “mudanças climáticas”, que aumentou cerca de 6 pontos percentuais de um ano para o outro. Ela é acompanhada da temática do “meio ambiente”, também relevante nas preocupações apresentadas.

Uma breve checagem na pesquisa — além do diagnóstico claro do avanço da direita nas recentes eleições — demonstram uma sinuca de bico histórica para a social-democracia e seus irmãos na Europa. Uma abordagem clássica do progressismo local não parece destinada ao sucesso. É preciso inovar.

Conforme demonstra outra pesquisa realizada pelo parlamento europeu — desta vez entre março e maio de 2018 — o tema do aquecimento global é visto — vejam só! — como o mais sério problema que o mundo enfrenta nos dias de hoje:

Essa perspectiva catastrófica sobre a questão climática, acompanhada, naturalmente, por outros temas ligados ao meio-ambiente, serviu de catalisador para uma reconfiguração dos agentes políticos da centro-esquerda local, agora dotados de um propósito quase universal de salvação do continente e da humanidade.

Tal approach político é facilitado pela ignorância de seus eleitores acerca do tema que tanto lhes preocupa. A mesma pesquisa demonstrou que praticamente metade dos pesquisados sabe pouco ou nada a respeito do aquecimento global, suas causas e possíveis soluções:

Qualquer estrategista político sabe: uma situação dessas é como bola pingando dentro da área, pronta pra ser chutada ao gol. Impressiona como o progressismo local foi capaz de converter tal demanda em projeto político regional, devidamente estruturado, pronto para ser transformado em votos por parte de seus próceres e candidatos.

O aumento em mais de 30% das cadeiras do parlamento europeu para os partidos verdes foi a primeira vitória clara obtida. Foi precedida pelo crescimento dos “verdes” na Alemanha, que hoje ultrapassam as intenções de voto do partido de Angela Merkel para as próximas eleições.

Tal crescimento deve ser entendido, antes de tudo, como força motriz para que a esquerda e o centristas — estes, políticos com o perfil de Merkel e Macron — possam acessar as classes médias locais, formadas por gente bem estudada e qualificada, com o vigor e frescor narrativos de uma proposta outrora abandonada no debate europeu.

Nesse sentindo, mais do que nunca, a campanha contra os incêndios na Amazônia — eivada de mentiras e manipulações — , é uma jogada de mestre das principais lideranças locais para atingir o coração de seus eleitores.

Mais: antagonizam, nessa empreitada, com um político convertido em vilão internacional, que compra todas as provocações com discurso boquirroto e grosseiro, facilitando seu trabalho.

A campanha pela salvação fictícia da Amazônia é muito mais do que uma preocupação ambiental. É muito mais do que a questão dos fazendeiros locais — esta também relevante no debate — e muito mais do que uma suposta tentativa de internacionalização da floresta.

Ela é, antes de tudo, uma campanha eleitoral. Uma busca oportunista por votos e aceitação popular num momento em que centro e esquerda não sabem como lidar com o avanço das democracias iliberais e da direita populista no continente.

Macron é seu líder mais óbvio não apenas porque comanda os esforços centristas no continente: ele precisa desesperadamente de uma sobrevida. Emparedar o “fascista latino americano” — queimador de girafas amazônicas nas horas vagas — é a narrativa perfeita para reerguer o presidente francês e seu já desgastado ‘En Marche!‘.

Cabe ao Brasil não comprar o papel de vilão nos planos eleitorais de uma Europa convertida ao ambientalismo. O presidente Bolsonaro, nos últimos dois dias, parece ter entendido o jogo que se avizinha; melhorou suas declarações desastrosas e encara o problema com mais sabedoria do que o show de horrores que protagonizou nas duas últimas semanas.

Resta saber se ainda há tempo para virar o jogo. Para os políticos europeus, a vitória já está dada; eventuais sanções econômicas , focadas na agricultura brasileira, serão apenas a cereja do bolo.

Para a esquerda brasileira, que ainda adormece sob a sombra de Lula, pode ser o tão aguardado caminho para a reconstrução.