Uma adolescente de 17 anos que se aventura na política e na cozinha. Acadêmica de Direito. Um pouco inquieta.
Marxismo cultural e Gramscismo: teoria da conspiração ou arma da esquerda?

Tendo o ideário gramsciano como sua principal inspiração, a esquerda brasileira, travestida de pacifista, iniciou uma “revolução soft” no Brasil

29/01/2020 19h03

Parte 1: esclarecendo alguns conceitos

Inicialmente, visando uma melhor compreensão do que será apresentado, é substancial o esclarecimento de alguns conceitos, são eles:

– Ciências sociais: caracterizam-se pelo estudo sistemático do comportamento social do ser humano. As mais importantes, para nós, serão a Sociologia (estudo dos grupos e dos fatos sociais, da divisão da sociedade em classes, dos processos de cooperação, competição e conflito na sociedade, etc) e a Ciência Política (estudo da distribuição de poder na sociedade, da formação e do desenvolvimento das diversas formas de governo);

– Mudança social e relações sociais: a sociedade não é estática; alteram a estrutura social e com ela também as relações sociais; em sua maioria, são impulsionadas por fatores sociais (guerras, conflitos entre classes sociais e revoluções) e fatores culturais;

– A infraestrutura e a superestrutura de Karl Marx: a infraestrutura trata-se das forças de produção, ou seja, o conjunto formado pela matéria-prima, pelos meios de produção e pelos próprios trabalhadores, a base econômica da sociedade. A superestrutura é a estrutura jurídico-política e ideológica (instituições, religião, arte, meios de comunicação, etc.). Para Marx, a infraestrutura, isto é, as relações econômicas, determinam a superestrutura, por melhor dizer, as relações sociais.

– Qual a “definição” de marxismo cultural? Segundo a Wikipédia, marxismo cultural é uma teoria da conspiração difundida nos círculos conservadores e da extrema-direita estadunidense desde a década de 1990. Na realidade, marxismo cultural é um conjunto de ideias relacionadas, principalmente, aos escritos de Antonio Gramsci, que acreditava na instauração dos seus ideais revolucionários por meio do contexto cultural. Resumindo, o marxismo cultural incentiva uma revolução soft, por meio do controle hegemônico do ideário de uma sociedade;

– Por fim, quem foi Antonio Gramsci? Dessa vez, a definição da Wikipédia faz sentido. Gramsci foi um filósofo marxistajornalistacrítico literário e político italiano. Foi membro-fundador e secretário-geral do Partido Comunista da Itália, o PCI, e deputado pelo distrito do Vêneto, sendo preso pelo regime fascista de Benito Mussolini. Gramsci é reconhecido, principalmente, pela sua teoria da hegemonia cultural que descreve como o Estado usa, nas sociedades ocidentais, as instituições culturais para conservar o poder.

Parte 2: surge o partido como intelectual orgânico

A discussão levantada nesse artigo tem seu início ainda na Revolução Industrial. Durante o processo de industrialização, Karl Marx interpretou as dificuldades da época como consequências diretas da revolução, principalmente a pobreza. A partir daí, há uma intensa disseminação das ideias marxistas, principalmente a de que o operariado deveria apropriar-se de seus meios de trabalho. Não só através da figura de Karl, mas também por meio de Friedrich Engels.

“É preciso enterrar de uma vez para sempre essa velha fórmula (salarial) e substituí-la por esta outra: a classe operária deve, ela mesma, apropriar-se dos meios de trabalho, isto é, das matérias-primas, fábricas e máquinas.” Engels no artigo Um salário justo para uma jornada de trabalho justa, escrito em 1881

Essas ideias foram bem-sucedidas no Oriente, mas os ventos que sopraram no Oeste foram outros. E não poderia ter sido diferente: as concepções marxistas contradizem totalmente a tradição judaico-cristã ocidental. E, além disso, confrontam a estrutura do Direito greco-romano, que serviu de base para a formação dos países ocidentais.

E é justamente a partir do insucesso do avanço marxista no Ocidente que surgem as ideias de Gramsci, como uma alternativa à Revolução forçada e violenta, à tomada de poder. Em “Cadernos do Cárcere” a preocupação do intelectual orgânico era entabular os ideais revolucionários em um espaço democrático. Afinal, o que era necessário para difundir a ideologia comunista em países social e economicamente estáveis?

Diferentemente de Marx, Gramsci acreditava que o cenário cultural, da arte, dos valores, definiria o contexto econômico. Destarte, a superestrutura definiria a infraestrutura. A partir disso, Gramsci passou a defender uma transformação gradual, uma lenta jornada por dentro das instituições, que construiria um novo imaginário, dando espaço às transformações na esfera econômica. Nesse sentido, o papel do partido seria agir de maneira pacifista, exercendo um papel didático, concentrando-se no ‘ensino e conscientização’.

Nas suas palavras: “O partido dirige a classe penetrando em todas as organizações nas quais a massa trabalhadora se agrupa e realizando nelas e através delas uma sistemática mobilização de energias segundo programa da luta de classe, bem como uma ação de conquista da maioria para as diretrizes comunistas.” Gramsci, A. “A situação italiana e as tarefas do PCI” In: Escritos Políticos (Volume 2, 1921-1926). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2004, p. 356-357 “A função do partido é diretiva e organizativa, isto é, educativa, isto é, intelectual.” Gramsci, A. Cadernos do Cárcere (Volume 2). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000, p. 25.

Parte 3: via instituições, o sopro marxista chega ao Brasil

É com a criação do Partido dos Trabalhadores (PT), em 1980, que se dá o prelúdio do que chamamos de ‘revolução soft’. É fato que a base ideológica do partido está no marxismo gramsciano. Nesse escrito, fica clara a constatação supracitada: “Confluíram para a criação do PT […] o cristianismo social, marxismos vários, socialismos não-marxistas, democratismos radicais, doutrinas laicas de revolução comportamental, etc.” O socialismo petista, texto aprovado no 7° Encontro Nacional do PT, em 1991.

A estratégia medular do partido, principalmente nas últimas duas décadas, foi adentrar o espaço cultural por meio da classe artística. São inúmeras as personalidades, assim como abjetas. Até os últimos anos, o método petista de ‘pedagogia política’ foi idôneo na manutenção do status quo. Ao se apropriar da classe artística, assim como dos professores e educadores, tanto no âmbito escolar quanto universitário, o PT teve em mãos a possibilidade de transformação comportamental da sociedade por meio da educação e da cultura. Sendo assim, existiu – e persiste – a busca pela tomada dos meios de pensamento, visando uma hegemonia ideológica. E hegemonia é um conceito fundamentalmente gramsciano.

O PT foi para o Brasil o que o PCI, segundo Gramsci, deveria ser para a Itália: um intelectual orgânico. O partido foi um instrumento de diálogo, contato e ensino para a sociedade civil, com engajamento nos mais diversos setores da sociedade. Foi firmada, no Brasil, a noção de que as ideias do partido eram boas, morais e justas. Tudo aquilo que estivesse fora dele era imoral e indesejável. O despertar do país foi tardio, mas aconteceu – e foi exatamente esse frescor de realidade que nos livrou da ruína.

Parte 4: parafraseando Paulo Freire – a ‘formação social’ do oprimido

Se o Patrono da Educação brasileira propunha uma nova forma de relacionamento entre professor, estudante, e sociedade, ele ficaria feliz ao saber que a sua Pedagogia do Oprimido orientou não só a educação do brasileiro, mas toda a sua formação como indivíduo. Há, no fundamento das ciências sociais, da linguística, da historiografia, da geografia, e ainda das ciências políticas como são estudadas no Brasil, o juízo marxista, que cria, incessantemente, uma relação de opressor e oprimido. O marxismo não morre, ele se reconfigura.

Há quem pense que a religião é sempre isenta de ideologia. Não é bem assim. A religião também já foi proposta como instrumento marxista. Sua ferramenta, no protestantismo, foi a teologia da missão integral, que seria uma interpretação da missão cristã que abrange o evangelismo e a ‘responsabilidade social’. No catolicismo, foi a teologia da libertação, que parte da premissa de que o evangelho exigiria opção preferencial pelos pobres, e defende que a teologia, para concretizar esse parecer, deveria usar também as ciências sociais.Nas palavras de Leonardo e Clodovis Boff, “O teólogo da libertação não é um intelectual de gabinete, é antes um ‘intelectual orgânico’, um ‘teólogo militante’, que se situa dentro da caminhada do povo de Deus e articulado com os responsáveis da pastoral. Ele conserva certamente um pé num centro de reflexão e outro na vida da comunidade.” Como fazer teologia da libertação, p. 37-38.

Não é atoa que, a pedido do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o PT está criando núcleos evangélicos nos Estados para tentar acessar essa parte do eleitorado. (Informação divulgada em 05/01/2020 pela Folha de São Paulo).

Concluindo, “As invenções e a difusão cultural são processos que ocasionam mudanças sociais, pois suscitam modificações nos costumes, nas relações sociais e nas instituições.” Filosofia e Sociologia, Marilena Chaui e Pérsio Santos de Oliveira.

A parte final desse artigo ficará por conta do atual presidente do Instituto Mises Brasil, detentor de uma genialidade e generosidade sem tamanho, Helio Beltrão. É extremamente gratificante poder escrever com alguém que admiro tanto por sua diligência na ação política em defesa da liberdade. Espero que vocês gostem!

Julia Caroline descreveu como a esquerda radical brasileira, particularmente por meio do Partido dos Trabalhadores, optou pelo gramscianismo e alcançou a hegemonia cultural, e consequentemente política, durante duas décadas.  

Impressiona a eficácia do método, que prescindiu de uma revolução armada, em nítido contraste com a estratégia implementada pela esquerda radical durante quase todo o século XX.  Tudo foi feito em plena vigência do exercício democrático, ao menos em sua acepção de eleições regulares e contínua operação de instituições reconhecidas como legítimas.

Gramsci tinha razão sobre o poder da estratégia centrada na cultura.  Uma hegemonia cultural, quando conquistada, encastela e cria barreiras à entrada de ideias contraditórias ao marxismo.  A dominância cultural se propaga para todas as atividades sociais, tais como escolas e universidades, literatura, artes plásticas, programas jornalísticos, novelas, música, redações de jornal, cinema, programas de humor, e até junto a atividades de notórios formadores de opinião como religiosos, empreendedores e empresários.  Estes últimos em tese seriam, em situações menos ideologizadas, ardorosos opositores ao marxismo.  Porém, é tamanha a força de ideias entranhadas que empreendedores passam a defender a destruição da própria superestrutura de regras que permite que sua atividade exista, assim como em séculos de outrora, devido a fenômenos similares, homens livres defenderam voluntariamente sua própria servidão.

Helio, o tal marxismo cultural existe mesmo ou não passa de conspiração de alguns tontos liberais ou de direita?  Assim como no caso do ar que respiramos, a hegemonia é tão forte que dificilmente percebemos sua supremacia sobre o ambiente.  É muito raro o sujeito que vê o próximo como um ser único, dotado de comportamento próprio e autônomo.  Em geral cremos que as ações e pensamentos do próximo são integralmente explicáveis por ele ou ela pertencer a uma ou várias classes, seja de homens ou mulheres, ricos ou pobres, pretos ou brancos, brasileiros ou estrangeiros, ou outras.  Adicionalmente, cremos que algumas classes devem ser classificadas usualmente como opressoras e outras como vítimas.

Ora, esta onipresente visão de mundo nada mais é que o pensamento marxista raiz, cujos pilares são luta de classes e a teoria da exploração.  Por sinal, é risível a sugestão de Marx de melhorar os salários por meio da apropriação pelos trabalhadores de todos os meios de produção, dispensando o capitalista.  O empresário, ignora Marx, adianta salários, compras de máquinas e matérias-primas, e assim enche os bolsos de terceiros muito antes de auferir qualquer receita ou lucro.  O lucro serve justamente como a compensação deste adiantamento, incorrido em ambiente risco e incerteza, que saiu do bolso do investidor original.  Não fosse o capitalista a adiantar as necessárias compras, teriam sido os trabalhadores cotizados, que também precisariam ser compensados.

Por sinal, um dos maiores indicadores da dominância marxista na cultura é que desconheço obras artísticas que figurem o empreendedor como herói, com exceção do romance Revolta de Atlas, de Ayn Rand.

Os resultados das décadas de hegemonia marxista no Brasil são a maior crise econômica da história, a destruição das poupanças de milhões de brasileiros, o desemprego de 12 milhões, o colapso das contas públicas, a destruição dos sistemas de educação, saúde e aposentadoria (que já eram ruins), o aparelhamento das instituições, e finalmente a profunda desesperança dos mais pobres.  Além das destrutivas políticas-raiz marxistas, houve um aprofundamento das relações de simbiose entre o estado e grupos de interesse concentrados e do patrimonialismo, gerando a maior corrupção de nossa história e talvez do mundo.

O que fazer para suplantar a hegemonia marxista? É importante notar que a estratégia delineada por Gramsci é neutra e independe da ideologia a ser promovida.  É perfeitamente possível a apropriação de algumas de suas técnicas.  

A melhor defesa é justamente o ataque, ou seja, o embate aberto e frontal de ideias, de tal forma que as ideias de vida, liberdade e propriedade passem a ser dominantes por seus próprios méritos e se propaguem a todos os rincões culturais do Brasil.

Tal estratégia exige execução complexa e depende da articulação suave e descentralizada com inúmeros atores.  Não será surpresa aos atentos que tal estratégia vem sendo executada pelo menos desde 2005 por liberais e conservadores.  Há, no entanto, inúmeras diferenças com relação à estratégia da esquerda radical de algumas décadas atrás, notadamente a extrema descentralização e a rejeição de verbas estatais.  Um relativo êxito já se pode notar, embora o caminho seja longo.  Não tenho dúvidas de que a liberdade vencerá.

Referências:

  1. Entenda o que é marxismo cultural – Dois Dedos de Teologia https://www.youtube.com/watch?v=nrCiTRznn3Q
  2. BODART, Cristiano das Neves. Infraestrutura e superestrutura em Marx.  Disponível em: https://cafecomsociologia.com/infraestrutura-e-superestrutura-em-marx/
  3. MARX, Karl. “Salário, preço e lucro”, In: Manuscritos econômicos-filosóficos e outros textos escolhidos (Os Pesadores). São Paulo: Abril Cultural, 1978 https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/999878/mod_resource/content/1/MARX%2C%20Karl.%20Sal%C3%A1rio%2C%20pre%C3%A7o%20e%20lucro.pdf
  4. ENGELS, Friedrich. Um salário justo para uma jornada de trabalho justa, 1881. http://www.histedbr.fe.unicamp.br/acer_fontes/acer_marx/tme_14.pdf
  5. GRAMSCI, A. “A situação italiana e as tarefas do PCI”, In: Escritos Políticos (Volume 2, 1921-1926). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2004.
  6. GRAMSCI, A. Cadernos do Cárcere (Volume 2). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000.
  7. ”Pedagogia do oprimido”, Paulo Freire
  8. “Como fazer teologia da libertação”, Leonardo e Clodovis Boff
  9. A pedido de Lula, PT cria núcleos evangélicos nos estados para buscar apoio na base religiosa https://painel.blogfolha.uol.com.br/2020/01/05/a-pedido-de-lula-pt-cria-nucleos-evangelicos-nos-estados-para-buscar-apoio-na-base-religiosa/