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Estudante interrompido, músico frustrado, cozinheiro irregular e fundador (e membro mais controverso) do MBL - Movimento Brasil Livre.
Marcha da Maconha e a direita: chegou a hora de debater?

Será que não está na hora de colocarmos os pontos de vista na mesa e debatermos como adultos?

03/06/2019 01h50

Rolou neste último sábado (1) a já conhecida Marcha da Maconha, evento que acontece em todo mundo defendendo a legalização do uso recreativo da cannabis. No Brasil, além de outras capitais, a cidade de São Paulo se fez presente com importante público, que marchou do Masp até a Rua da Consolação.

O evento desse ano apresentou sequestro ideológico de outras causas da esquerda, contando com forte presença de movimentos LGBT, feminista e negro — estes, em geral, tratando da pauta do desencarceramento. Normal. A pauta naturalmente figura no rol de opções da esquerda pós-moderna brasileira.

Ainda assim, num momento em que o debate público vai se convertendo numa arena de superficialidades, cabe à direita brasileira uma reflexão sobre sua ausência — ou mera negação reativa — numa discussão mais propositiva sobre a questão. Pois é fato que toda vez que setores conservadores se abstém de tratar no legislativo alguma matéria considerada polêmica, a mesma se transfigura em pauta no STF — motivada por ações de partidos ou recursos processuais — e por lá é deliberada de maneira atípica.

Sim, amigos, considero que a tática negacionista da direita serve de trampolim para as piruetas retóricas de gente como Luís Barroso, ministro do Supremo mais preocupado em lacrar e ser aplaudido no Sushi Leblon do que prezar pela estabilidade entre os poderes. Ao lutar para tirar da pauta do legislativo temas como aborto, legalização da maconha, criminalização da homofobia e feminicídio, perde-se a oportunidade de prestigiar essa instância de representação, trazendo para as casas expressões políticas legítimas — de ambos os lados — presentes em nossa sociedade.

E reforço aqui, sabendo da má-fé de parte dos leitores interessados em prints e recortes: pedir o debate não significa endossar a pauta. Sou contrário a mudanças na legislação sobre aborto, mas acho que cabe ao parlamento colocar o tema em discussão. É uma atitude sábia, num momento em que setores do governo e da oposição culpam o legislativo por todos os males do Brasil.

No caso da maconha, além do obvio debate sobre liberdade individual, existem camadas interpretativas envolvendo externalidades sócio-culturais, combate ao crime organizado, recolhimento de impostos e experiências internacionais de sucesso e insucesso que seriam muito válidas de se acompanhar em audiências públicas e debates entre as forças presentes no atual parlamento. Isso traria legitimidade ao legislativo. E impediria mais aventuras de um STF disposto a alargar suas fronteiras de atuação.

Seguindo a lógica atual, a direita permanece agindo de forma reativa e infantilizada — brigando pelo like — enquanto a esquerda se utiliza do judiciário para escapar do bloqueio legislativo. É um erro. Está na hora de construirmos boa política tratando de temas de grande repercussão pública, construindo novos horizontes e mostrando quem é quem no debate . É muito mais efetivo do que ficar chorando na frente do STF.

A marcha da maconha demonstrou que existem bons e maus argumentos na luta pela legalização da erva. As experiências portuguesas e do Colorado (EUA) reforçam as teses favoráveis; Holanda e Uruguai vão na direção contrária. Será que não está na hora de colocarmos os pontos de vista na mesa e debatermos como adultos?