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Estudante de direito, jogador de futebol quando a dor nas costas permite e um liberal radical
Manifestações no Chile: O Liberalismo deu errado?

A formação da população chilena

04/11/2019 19h13

Introdução

Esse artigo não será uma visão econômica do regime chileno. Não entrarei na falha, ou não, do Liberalismo. Há artigos mais que suficientes para isso. Aterei-me na forma que o projeto econômico foi colocado em prática e, por consequência, numa visão da origem dessas manifestações.

Chile antes de Pinochet
A eleição de Allende 1970:

Para entendermos a realidade social dos chilenos, devemos entender a origem do liberalismo naquele país.

Antes do golpe de Pinochet, em 1973, o país dos Andes era governado por Salvador Allende. Sim, o Chile era governado por um socialista. Allende foi fundador do partido Socialista chileno na época da Guerra Fria, período em que os EUA estavam fortemente preocupados em manter a sua hegemonia na América – ainda mais após perder Cuba para os Soviéticos – e no Ocidente de forma geral.

A eleição de Allende (1970) contou com 36,63% dos votos. Não foi majoritária, mas ficou à frente com aproximadamente 2% de vantagem do candidato da Direita chilena. Como a Constituição chilena previa a necessidade de “maioria dupla” (no voto popular e no Congresso), complexas negociações foram entabuladas para a aprovação do nome do eleito no Parlamento.

O Chile de 70 se parecia muito com o Brasil pré-64. E o resultado não podia ser diferente, uma intervenção militar. Com um agravante: a cultura chilena. Uma cultura marxista explodia com uma radicalidade que, como dizia Victor Jara¹, não era apenas música de protesto, mas música popular que nascia da identidade compartilhada com o povo e suas lutas. E se a esquerda abraçou o povo e seus anseios, o povo abraçou as bandeiras da esquerda e o socialismo tornou-se um fenômeno de massa.

Augusto Pinochet

E foi nesse cenário conturbado que Pinochet tomou o poder e se manteve por meio de uma ditadura.

Ao alcançar o poder, Augusto adotou medidas econômicas Liberais, colocando especialistas da famosa escola de Chicago à frente do projeto econômico. Privatizações, desregulamentações, livre concorrência…tudo isso aconteceu durante o governo de Pinochet. E por causa dessas atitudes o Chile, hoje, é o país da América Latina com maior IDH, segundo a ONU, maior salário médio da América Latina e o melhor posicionado no PISA, entre os países latinos.

Apesar das lições econômicas dadas pelo Chile, fica claro que o ditador Pinochet esqueceu um dos primeiros ensinamentos do expoente da escola de Chicago, Milton Friedman: “não existe liberdade econômica sem liberdade individual²”. E leitor, uma liberdade individual inalienável é a liberdade política; liberdade essa que não existia na ditadura chilena.

Por causa disso e de outros fatores, podemos dizer que o Liberalismo Chileno foi forçado. O sistema foi implementado na base da força. Para isso, o regime ditatorial torturou aproximadamente 40 mil civis, deixando 3 mil mortos. Quem discordava do sistema era, literalmente, atirado de helicópteros. Além disso, o país passava por um período cultural tomado pelo Marxismo. O que, sem dúvidas, era um problema para a implementação do projeto político-econômico do ditador. O lado social, o imaginário da população, era tomado pelo grande inimigo de Augusto Pinochet. Durante o período da ditadura, visando acabar com essa resistência cultural, foram queimadas dezenas de bibliotecas. Em 1988, admitiram ter queimado cerca de 15 mil livros, atitude que ficou conhecida como Genocídio Cultural.

O Problema

Tendo explicado como o projeto liberal foi posto em prática no Chile, vamos juntos buscar como as manifestações atuais são consequências dessa imposição.

Conforme supracitado, a população chilena foi obrigada a abrir mão da sua cultura, que naquele momento era marxista. Um erro tremendo. Afinal, como ensinado por Montesquieu, devemos alterar o que é das Leis pelas Leis e o que é dos costumes pelos costumes. Qualquer alteração dos costumes pelas Leis causa um colapso social, cedo ou tarde.

E é isso que vemos hoje no Chile, um colapso da cultura com o sistema liberal. Vemos o reflexo da imposição feita por Pinochet. É uma economia de mercado que tem sua base em uma sociedade marxista, são extremos antagônicos que foram colocados lado a lado. A consequência é clara: manifestações progressistas na capital.

Agravando a crise.
Eficácia econômica:

Sim, é isso mesmo que vocês estão lendo. O alto desempenho econômico agravou e impulsionou a crise, principalmente na capital, Santiago. Explico: os preços dos aluguéis na capital dispararam, graças ao interesse de novas empresas em se instalarem ali. O preço do aluguel disparou de tal forma que o aumento considerável da renda média chilena não conseguiu acompanhar.

Ok, admito o “bait”. Não foi o liberalismo que falhou nesse caso. O Chile, em 2007*, criou incentivos para a entrada de capital estrangeiro no país. Consequentemente, atraiu investidores, o que acabou distorcendo o preço do aluguel. Assim, o cidadão natural da capital passou a se sentir um intruso na própria cidade, obrigado a ir para o interior.

O Caos da Previdência

A previdência chilena foi privatizada. De fato, um sistema de capitalização puro. Contudo, no seu processo de reforma, foram cometidos alguns erros, como por exemplo, pouco tempo de transição. Além disso, não levou em conta a renda da pessoa, ou seja, não colocou nenhum piso de renda. Mais uma vez, os liberais da ditadura latino-americana não levaram em conta o já citado livro Livre para Escolher, de Milton Friedman. Nele, o autor fala explicitamente sobre um piso para a aposentadoria.

Chile versus Brasil

Tendo apresentado os fatores que contribuíram para a convulsão social em Santiago, faremos uma breve comparação com o Brasil. Afinal, pessoas ligadas ao governo brasileiro estão com medo de que a esquerda tupiniquim tente reproduzir o caos dos nossos vizinhos, guiados pelo Foro de São Paulo.

Como já ficou claro, o liberalismo chileno chegou ao poder por meio da força, sem aprovação e consciência popular. Já no Brasil, a direita (tanto conservadores quanto liberais) chegou ao poder pelos meios legítimos, as eleições. A população brasileira foi às ruas, desde 2014, clamando por uma alteração no status quo. Desejo que encontrou sua realização nas ideias liberais de redução da máquina pública, privatizações, livre concorrência, reformas estruturais, etc. Ademais, nas ideias conservadoras antirrevolucionárias, respeito às instituições, prudência, etc.

Tais manifestações resultaram no Impeachment da então presidente Dilma Rousseff em 2016 e na eleição de Jair Bolsonaro em 2018. Além disso, criaram uma espécie de “anticorpo” revolucionário na sociedade civil organizada. A população brasileira passou a entender que as vias institucionais são os meios de alterar a sociedade de forma permanente, o que pode ser constatado mediante o repúdio da maioria dos grupos organizados à declaração vergonhosa de Eduardo Bolsonaro, levantando a possibilidade de um novo AI-5.

Diferentemente do Chile, o Brasil está caminhando para um governo de economia liberal, mas com respaldo na população, na cultura e no imaginário das pessoas. Algo conquistado pela maturidade política, adquirida graças a participação popular.

Se o Brasil corre risco de sofrer com manifestações parecidas com as do Chile? Duvido muito. Afinal, nós alteramos pelos costumes o que deve ser alterado pelos costumes. E de maneira análoga, alteraremos pelas Leis o que deve ser alterado pelas Leis.

Referências:

[1] Víctor Lidio Jara Martínez (San Ignacio, 28 de setembro de 1932 — Santiago, 16 de setembro de 1973 foi um professor, diretor de teatro, poeta, cantor, compositor, músico e ativista político chileno.

[2] Milton Friedman, Livre Para Escolher

[3] Dados retirados da Revista Época.

[*] https://monitordigital.com.br/chile-concede-incentivo-para-capital-externo