Bacharelando em Relações Internacionais. Produzo artigos no Neoiluminismo.com. Um sionista entusiasta da filosofia.
Mandela: Uma análise liberal de um terrorista com boas intenções

Não precisamos ignorar as atrocidades de Nelson Mandela para apreciar a liberdade

15/02/2020 09h19

Quero iniciar esse texto com a consagrada expressão popular: “de boas intenções o inferno está cheio”. Aproveitando a nobre menção de Filipe Figueiredo de Santo Tomás de Aquino em seu texto, trago aqui uma citação do Doutor Angélico:

[A]contece frequentemente de um homem agir com uma boa intenção, mas sem ganho espiritual, porque lhe falta uma boa vontade. Digamos que alguém rouba para alimentar os pobres: neste caso, mesmo que a intenção seja boa, lhe falta a retidão da vontade. Consequentemente, nenhum mal feito com uma boa intenção pode ser desculpado.

Santo Tomás de Aquino em ‘In Duo Praecepta Caritatis et in Decern Legis Praecepta’

Para falarmos de Nelson Mandela, não podemos reduzir a discussão nem à sua luta contra o regime opressor e autoritário que o transformou em mártir, nem tratar de seus atos condenáveis dissociados do contexto em que foram praticados.

Em seu texto, Filipe diz: “[o] governo do apartheid chamava Mandela de terrorista”. A impressão que ele passa nesse trecho é de que o fato de a alcunha partir dos vilões da história, ela deve ser ignorada, não deve ser investigada. Um espírito investigativo não pode se satisfazer por uma mera redução dos fatos às narrativas presentes.

Nenhuma análise razoável resiste nesse movimento pendular que tenta pintar ora um vilão execrável e descontextualizado, ora um herói excelso da liberdade que capitaneia as injustiças raciais contra os negros na história.

É quando saímos dessa desgovernada enfatuação ideológica, tapando os fatos com as mais diversas manobras, que somos capazes de começar a discutir o contexto, as ações de Mandela nesse contexto e o que o liberalismo tem para dizer sobre tudo isso.

Vamos então, por partes.

O contexto

Filipe, em seu texto, como excelente historiador que é, nos ambienta muito bem nas características históricas mais salientes para entendermos o governo sul-africano em todo seu período e, particularmente, em sua fase mais nefasta: a consolidação legal do apartheid, iniciada pela ‘Lei de Proibição de Casamentos Mistos’, promulgada em 1949, pelo agora defunto e então-recém eleito Partido Nacional.

Além disso, é preciso dar um zoom em Mandela e no seu partido nisso tudo.

O partido Congresso Nacional Africano (CNA), partido que Mandela se aliou em 1943, perdeu sua legalidade em 1960, após o trágico massacre de Sharpeville, em que 69 africanos negros foram mortos pela polícia.

O evento foi o estopim da tentativa pacífica do CNA de lidar com o governo do apartheid. A partir de então, o CNA passou a ter uma frente armada organizada, chamada “uMkhonto we Sizwe” [lit. “Lança da Nação”], co-fundada por Mandela. Essa frente organizou diversos ataques contra alvos militares, industriais e civis, utilizando-se de bombardeios em diversas ocasiões.

O derramamento de sangue

Aqui vão uma série de incidentes causados por esse grupo:

  • O atentado de Church Street, em que um ataque de carro-bomba matou 19 pessoas e deixou 217 feridas em Pretória em 1983.
  • O atentado na costa sul da província de Natal, em Amanzimtoti, onde 5 civis morreram e 40 ficaram feridos por um explosivo colocado em uma lata de lixo em um shopping numa véspera de Natal em 1985. Detalhe, o CNA julgou tal ato terrorista como “compreensível” anos depois.
  • O atentado em um bar de Durban, com uma bomba matando 3 civis e ferindo 69 em 1986.
  • Os atentados em Johanesburgo, matando policiais e um civil em 1987.

Além disso tudo, de 1985 à 1987, o grupo colocava bombas em estradas nas zonas rurais da província de Transvaal. O grupo parou com isso em 1987. A razão? Morriam civis demais. (Como se um civil morto já não fosse demais…)

A Comissão de Verdade e Reconciliação – que, não devemos esquecer, foi instituída por Mandela em 1996 – concluiu que o uso de tortura pelo uMkhonto we Sizwe era rotina, assim como execuções sem o devido processo legal nos campos de detenção do CNA.

Vale também mencionar a figuração de Mandela como membro do Partido Comunista Sul-Africano (que também tomou parte na guinada violenta da oposição ao governo), que recebeu extensivo financiamento e treinamento pela União Soviética durante os anos 70 e 80.

Mesmo que precisemos lembrar da sua atitude não vingativa em negociar a paz após a saída da prisão, o que veio depois não foram só flores. Longe disso. Por exemplo, não devemos esquecer o seu silêncio a ditaduras como a cubana. E nem o seu ato, em 1997, de premiar e vangloriar o ditador da Líbia, Muammar Gaddafi. Seu apoio ao líder corrupto da Indonésia, Suharto. A sua conhecida (durante o seu julgamento) sugestão de cortar os narizes de negros que não apoiassem a sua causa sangrenta? Essa não devemos esquecer mesmo.

E a prisão de Mandela? O julgamento, que ocorreu na presença observadores internacionais, condenou-o por mais de 190 crimes, incluindo a colocação de bombas em locais públicos (não somente em locais estratégicos visando não ter vítimas civis). Além disso, a Anistia Internacional considerou o suposto ícone da liberdade como desumano e se recusou a defendê-lo no julgamento.

Resumindo: as manchas de sangue racistas do governo que instaurou e perpetuou o apartheid não devem cair sob nossos olhos a ponto de ignorarmos a crueldade do grupo terrorista de Mandela. Nenhuma vida inocente que foi perdida deve ser esquecida e é um desserviço a tais vidas perpetuar um Mandela heroico e imaculado.

O QUE A LENTE DO LIBERALISMO NOS PERMITE ENXERGAR?

A revolução francesa destituiu o Ancién Regime. A revolução cubana derrubou a ditadura de Fulgencio Batista. A revolução russa destronou o czar Nicolau II e sua monarquia absolutista.

É preciso explicitar tanto a injustiça envolta nos regimes destituídos quanto as barbáries, muitas vezes sangrentas, que permeiam suas derrubadas.

Não é querer defender a permanência de regimes repudiáveis por qualquer pessoa sensata – e particularmente repudiável pelo liberalismo em virtude da afronta à liberdade representada por tais regimes; É sim, na verdade, querer tratar todos sem desculpas ad hoc, avaliando sempre pelos princípios firmes que fundamentam o liberalismo.

O direito à revolta existe e é parte importante do pensamento liberal¹, mas ele de forma alguma existe descontextualizado de uma defesa paralela aos direito individuais à vida, propriedade e liberdade.

E é por isso que ações contra inocentes, tortura, depredações e o caos incitado por revoluções sangrentas que ignoram “friend or foe” não ganham um passe livre moral, nem deixam de ser execráveis por si mesmas.

Nem o pacifismo ingênuo nem a relativização da violência têm vez no pensamento liberal.

A prudência, objeto de análise tão caro de Edmund Burke (foto) em suas “Reflexões Sobre a Revolução na França” atua como o meio termo entre esses extremos, sempre nos apontando para os excessos e reafirmando o papel da razão em qualquer análise política que se preze endossada pela valorização racional² da liberdade.

Me sinto compelido a citar as palavras usadas por Rodrigo Constantino em seu texto sobre o “Madiba”:

“Quem quiser textos glorificando [Mandela], esse não é o local… Quem quiser um texto maniqueísta demonizando [Mandela], tampouco esse é o local… Mandela era, afinal, humano, com defeitos e virtudes, um tanto ambíguo.”

O espírito dessa análise se solidariza com o texto de Constantino. É a meada de não-subserviência ao personalismo e ao populismo que dita a trilha do liberalismo.

Tempos recentes, de lulistas à bolsonaristas, nos mostram o quão frágil é essa estrada. Persistir sem sucumbir aos endeusamentos e vilanizações acríticas é o que o liberalismo demanda em sua essência.

A liberdade não precisa de rosto. Ela se sustenta racionalmente sem apelar a populismos e degenerações sangrentas como o modus operandi abjeto de Mandela.

Não devemos nos apegar a ídolos; mas sim às ideias.

Que fique a lição de que elencar homens como símbolos da luta pela liberdade é, não só um erro fatal, mas o mais distante do liberalismo que podemos chegar.

Texto por Rafael Vieira.

¹Até mesmo em Kant. Famoso por suas falas contra o descumprimento de leis injustas, ele já é amplamente interpretado pela filosofia política contemporânea como em sintonia com a postura liberal referente à governos totalitários e absolutistas. Falo mais sobre isso no meu artigo “Mentiram para mim sobre Kant”.

²Ao contrário do pensamento revolucionário, paradigmático na França, que dá prioridade às vontades, por mais irracionais que sejam, no direcionamento da liberdade. Esse pensamento é parte da arrogância fatal que guiou os totalitarismos de esquerda e direita, identificada pelo maior proponente do liberalismo no século XX: Friedrich A. Hayek.