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Estudante interrompido, músico frustrado, cozinheiro irregular e fundador (e membro mais controverso) do MBL - Movimento Brasil Livre.
Liberais devem se opor às declarações arcaicas de Bolsonaro. Ou: embaixada não é presente pra filho chateado!

A ideia que os desejos de seu filho não podem ser frustrados por “birra” da imprensa é parte fundamental de uma mentalidade que já denunciamos há muito tempo: o patrimonalismo do presidente

05/08/2019 21h48

Fosse este um filme de Sessão da Tarde, o locutor diria “Deu a louca no presidente!“. É que Jair Bolsonaro, desde o dia em que resolveu tornar pública a nomeação de seu filho para a embaixada americana, não perde uma oportunidade de falar besteira. E escala — em ritmo alucinante — tanto em quantidade, quanto em (queda de) qualidade.

As últimas 24 horas foram marcadas por declarações desastrosas e virulentas do capitão da reserva. No domingo, Bolsonaro — em tom jocoso e irônico, visivelmente irritado — fuzilou os jornalistas: “Sim, o Senado pode barrar sim. Mas imagine que no dia seguinte eu demita o (ministro de Relações Exteriores) Ernesto Araújo e coloque meu filho. Ele não vai ser embaixador, ele vai comandar 200 embaixadores e agregados mundo afora. Alguém vai tirar meu filho de lá? Hipocrisia de vocês”

Ele parecia incomodado, também, com as piadas que circularam nas redes sociais sobre as supostas atividades culinárias de Eduardo nos EUA. “Vocês massacraram meu filho: fritador de hamburger”– disse o presidente ao jornalistas.

Não suficiente, em entrevista à jornalista Leda Nagle, o presidente voltou a rasgar o verbo. Questionou que “tem que ser filho de alguém, então por que não pode ser meu?” — denunciando, aparentemente, uma falta de coerência nas críticas sobre a relação filial entre ele e Eduardo.

Além disso, afirmou que Eduardo já deseja “há algum tempo”, morar nos Estados Unidos, mas que foi convencido a ficar no Brasil para disputar as eleições para deputado. “Agora apareceu essa oportunidade dada a nossa proximidade com a família Trump. O embaixador é um cartão de visitas”, disse Jair, justificando a nomeação.

Não sei por onde começar. É tudo tão bizarro, tão emocionalmente infantil, paternal e deslocado dos atributos básicos de liderança — dentre eles o desprendimento e a impessoalidade — que mais se parece com um quadro humorístico daqueles bem pastelões — a lá Zorra Total e Praça é Nossa! — do que com o exercício da presidência.

Não vou entrar na discussão um tanto quanto óbvia sobre a inadequação da nomeação de seu filho. Os que permanecem em sua defesa são justamente os militantes mais… leais, se assim posso dizer. O rebanho. De fiéis, talvez. Fato é que nem os arautos mais astuciosos da causa conseguem defender a decisão em praça pública. Vide Flávio Morgenstern, no Pânico.

Ainda assim, Bolsonaro persiste. Bate o pé no chão. Perde o equilíbrio, arruma briga, soa emotivo — demasiadamente emotivo. O mandatário-mor simplesmente não consegue separar a instituição Governo Federal do quintal da sua casa. Já não sabia fazer essa distinção enquanto deputado; por que haveria de ser diferente enquanto presidente?

A ideia que os desejos de seu filho não podem ser frustrados por “birra” da imprensa é parte fundamental de uma mentalidade que já denunciamos há muito tempo: o patrimonalismo do presidente. No dia 20 de dezembro, publiquei um artigo, neste mesmo blog, apontando as contradições de um governo que se propunha reformista — vide Guedes e Tarcísio — , mas lidava com a mentalidade arcaica de seu grande líder. A passagem abaixo é bastante ilustrativa:

Mesmo que Flávio não seja incriminado, seu caso traz luz para um comportamento público condenável de seu pai: a ideia de que algo possa ser imoral — porém não ilegal — , como bastante para justificar os privilégios seus e de seus colegas, como fez quando questionado sobre o recebimento de auxílio-moradia mesmo tendo apartamento em Brasília.

Bolsonaro sempre confundiu o público com o privado; a forma como trata seus filhos, porém — desde as famílias de seus amigos pendurados em seus gabinetes até o caso da embaixada dos EUA — , ganhou notoriedade apenas após assumir a Presidência da República. E soou grotesca o suficiente para não ser ignorada nem mesmo por sua fiel militância.

É importante salientar isso pois as décadas de gabinetes inchados, familiares empregados, militância anti-liberal e votos corporativistas — como nos aumentos de salário para ele e os demais colegas deputados — foram sumariamente ignoradas pela massa de seguidores. “Bolsonaro é um mito e isso é papo de comunista”, eles diziam. E logo tratavam de mudar de assunto.

O problema é que tal mentalidade simplesmente não seria jogada no lixo tão logo o ex-deputado assumisse a presidência. A lógica diz o contrário: adulado como “representante único do homem comum”, conforme o discurso de seus prosélitos, Bolsonaro só tem estímulos para expandir a mentalidade patrimonial. E considera um disparate que ainda exista gente que questione — malditos insolentes! — uma nomeação absurda como a de Eduardo.

Fustigado, dobra a aposta: leva para o campo pessoal a crítica da imprensa, e faz da coisa pública instrumento para testar os limites da militância. Cínico, apela novamente para o “é imoral, mas não ilegal” para justificar seu nepotismo; já utilizou recurso similar para defender seus gastos nem um pouco austeros como deputado. Duvida? Veja o não-tão-velho Jair em sua melhor forma:

“(…) o que um deputado federal tem? Trinta e três mil por mês de salário, tá ok? Noventa mil para contratar funcionários — eu contrato…meu pessoal é competente. Funciona. Me assessora. Tá ok? Você tem quarenta mil para passagem aérea, transporte, carro, gasolina, almoço…e se é muito? Não sei. Eu uso quase tudo isso..”

“(…) eu não abro mão do que tô recebendo. Deixo bem claro isso aí. Se eu abrir mão disso, eu não tenho como viajar de avião para Brasília…não vou morar em Brasília? Não vou poder andar pelo Brasil? Vou ter que pagar o telefone do meu bolso? Correspondência do meu bolso? Aí não dá!”

Veja com seus próprios olhos a “nova política” em ação…

O atento leitor que acompanhou o texto até aqui deve, ao menos, cultivar algum tipo de repulsa pela lógica exposta pelo presidente. É o que imagino da parte de um liberal (ou conservador) minimamente convicto. Dando isto como premissa — posto que o aceite a tais práticas não me parece adequado para um liberal — parto para a provocação exposta pelo título deste texto: o que devem fazer os liberais diante do chilique presidencial?

Não é uma pergunta retórica. É patente que as medidas reformistas do ministro Paulo Guedes, o trabalho de Tereza Cristina na agricultura e o empenho pavimentador de Tarcísio na Infraestrutura devem ser levados em consideração. Mas vejam, até que ponto medidas liberais no campo econômico devem justificar uma lógica iliberal no campo político?

Lula, em seu primeiro mandato, fez a lição de casa a contento. Manteve o tripé macroeconômico, não partiu para a gastança desenfreada. Palocci e Meirelles eram os queridinhos de Wall Street. Isso serviu de escusa para que o presidente fizesse das suas — da estrela do PT na Alvorada ao aparelhamento e ideologização da máquina pública — , sob o céu de brigadeiro de uma imprensa ainda encantada com o conto de fadas operário.

Gastos (abusivos) de cartões corporativos, jatinho da FAB para transportar familiares, ameaças de deportação de jornalistas, estava tudo lá. Lula sentia-se livre para fazer o que bem entendesse na presidência. Deu no que deu. Mas calma! Já antecipo o raciocínio de muitos aqui: “Poxa, Renan! Não dá pra comparar um ladrão como Lula a Bolsonaro. O capitão é honesto e está fazendo uma limpa” — no que concordo parcialmente.

Estrela petista no Palácio da Alvorada.

Bolsonaro não é um ladrão como Lula, e seria leviano da minha parte afirmar algo neste sentido. Mas é — na verdade sempre foi — um mamador, um indulgente com amigos e familiares, uma máquina de encostar agregados. E quando luta tão ferozmente para impor sua vontade mais familiar goela abaixo no país, entrega um exemplo — e exemplos importam! — de liderança arcaica e patrimonialista para um povo ávido por novas práticas.

Jair frustra a lógica republicana de grande parte de seus eleitores. Mais do que isso, obriga-lhes a adotar a defesa incômoda do privilégio a seu filho baseada no “se fosse o PT seria pior“. Não à toa, seus defensores mais fiéis já afirmam que os demais candidatos ao cargo (de embaixador) “são todos comunistas“. Resolvido está.

Mantém-se, portanto, a lógica questionada pelo povo na rua desde 2013, desta vez de sinal trocado: antes, a mamata era válida para “tirar milhões da pobreza”; agora é porque “o mito vai salvar o Brasil do comunismo”.

Triste o país à procura de um salvador. De herói em herói, vão-se os anéis e esfolam-se os dedos. O projeto de um Brasil liberal morre um pouquinho a cada defesa acalorada de um filho… um filho à procura de um sonho! Jair, o bom pai, quer o país como fiador de seu amor por Eduardo. Comovente.

Sobra pra nós a cara de tacho de quem apontou o dedo para o PT por tanto tempo, mas que agora é obrigado a lidar com prática similar vindo da suposta “solução conservadora para todos os problemas“. Foi, infelizmente, mais rápido do que imaginávamos.

Quer saber mais? Assista o vídeo abaixo sobre o tema: